dezembro 31, 2007

O último crepúsculo de 2007

Pôr-do-sol
© Helder Bastos
Porto, 2007

dezembro 30, 2007

Videograma: as Paixões Cruzadas de Carax

É um verdadeiro portento o filme de estreia de Leos Carax. Então com apenas 22 anos (1984), o jovem realizador francês irrompe na Sétima Arte com Paixões Cruzadas, uma obra inesperadamente madura, quer do ponto de vista do argumento, quer do ponto de vista narrativo. O domínio do preto e branco revela-se espantoso. Nesta sequência, filmada numa ponte de Paris, à noite, ouvimos David Bowie, num dos seus registos de início de carreira, "When I Live my Dream". Este é dos tais momentos (e filmes) para mais tarde recordar.

dezembro 29, 2007

A Música

Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um tecto de bruma,
Eu levanto a vela;

Com o peito pra frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim as inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões

Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!


Charles Baudelaire
in As Flores do Mal

dezembro 22, 2007

Música de lamentação em Auschwitz

As palavras do segundo andamento da sinfonia No. 3 (Symphony of Sorrowful Songs), de Henryk Górecki, foram retiradas de uma oração escrita na parede de uma prisão da Gestapo, em 1944, por Helena, rapariga polaca de 18 anos.

Este tocante Lento e largo - Tranquillisimo foi incluído no filme Holocaust - A Music Memorial Film from Auschwitz, produzido, em 2005, para televisão. Pela primeira vez desde a libertação deste campo de concentração, ouviu-se música neste espaço de memória tenebrosa.

dezembro 18, 2007

Douro

Douro
© Helder Bastos
Douro, 2007

dezembro 13, 2007

O regresso de Lipovetsky (II)

«Vive-se uma era em que todas as esferas da vida social e individual se encontram, de uma forma ou de outra, reorganizadas segundo os princípios da ordem consumista.»

«Na sociedade de hiperconsumo, até a espiritualidade se compra e vende. Se é verdade que a reemergência pós-moderna do religioso exprime um certo desencanto face ao materialismo da vida quotidiana, verifica-se também que o fenómeno é cada vez menos alheio à lógica comercial. A espiritualidade tornou-se mercado de massas, produto a comercializar, sector a gerir e a promover.»

«Adivinha-se no horizonte, não a aniquilação dos valores e sentimentos, mas, num cenário mais prosaico, a desregulação das existências, a vida sem protecção, a fragilização dos indivíduos. A sociedade do hiperconsumo é contemporânea da espiral de ansiedade, das depressões, das carências ao nível do amor-próprio, da dificuldade em viver.»

dezembro 11, 2007

Ponte Luiz I

Ponte Luiz I
© Helder Bastos
Porto, 2007

dezembro 09, 2007

Egmont na dose certa

Ele há maestros de batuta ansiosa. Quando se trata de dirigir a fabulosa abertura Egmont, de Beethoven, alguns parecem mesmo estar com pressa de ir apanhar o comboio, impondo uma cadência nos ataques iniciais que sufoca a indispensável respiração dos silêncios.

Os célebres Herbert von Karajan e Leonard Bernstein não se incluem nesta categoria de maestros em hora de ponta. Sabem dosear, na perfeição (pelo menos, para os nossos ouvidos), o majestático e o sibilino, a trovoada e a bonança, tão típicos em Beethoven.

De Karajan, pode-se confirmar isto mesmo numa gravação, de 1985, para a Deutsche Grammophon, à frente da Berliner Philarmoniker. Para ouvir com o volume bem alto. O álbum inclui ainda as aberturas das óperas Coriolano e Fidelio.

No YouTube, e apesar das limitações de intensidade e volume, podemos ficar aqui com uma ideia da maestria de Bernstein na condução de Egmont à frente da Wiener Philharmoniker:

dezembro 06, 2007

Mar

Mar
© Helder Bastos
Porto, 2007

novembro 30, 2007

Folhas de Outono

Folhas de Outono
© Helder Bastos
Porto, 2007

novembro 27, 2007

Videograma: Palombella Rossa, um filme de estalo

Há entrevistas que só ao estalo merecem respostas. Nesta cena, retirada do magnífico Palombella Rossa, filme em que Nanni Moretti questiona, de forma absolutamente madura, irónica e autocrítica a (sua) condição comunista (ex-comunista?), Michele, a personagem principal, vocifera: «Veja como fala! As palavras são importantes!!!». Os estalos caem logo após a jornalista usar palavras pretensiosas, estrangeiradas, como kitsch e cheap:

novembro 26, 2007

Casa da Música

Casa da Música
© Helder Bastos
Porto, 2007

novembro 21, 2007

Ou de como como a religião envenena tudo

Há dias, o Público fez uma pré-publicação de Deus não é grande - Como a religião envenena tudo, um livro de Christopher Hitchens, jornalista, colaborador da revista Vanity Fair e professor convidado de estudos liberais na New School.

O título, ajudado pelo texto pré-publicado, é um toque a rebate para a leitura da obra. O resumo, então, acaba com qualquer margem para hesitações, sobretudo para quem é laico e se identifica de imediato com a formulação, propícia a causar azia nos crentes, seja de que religião forem:

«Neste eloquente debate com os crentes, Christopher Hitchens apresenta argumentos contundentes contra a religião (e a favor de uma abordagem mais laica da vida), através de uma leitura atenta e erudita dos textos religiosos mais importantes.

Hitchens conta a história pessoal dos seus encontros perigosos com a religião e descreve a sua viagem intelectual para uma visão laica da vida, baseada na ciência e na razão, na qual o Céu é substituído pela panorâmica maravilhosa que o telescópio Hubble nos proporciona do universo, e Moisés e o arbusto em chamas dão lugar à beleza e simetria da hélice dupla. «Deus não nos fez», escreve ele. «Nós fizemos Deus.»

Explica que a religião é uma distorção das nossas origens, da nossa natureza e do cosmos.

Prejudicamos os nossos filhos – e colocamos o nosso mundo em perigo – ao doutriná-los.» (Dom Quixote)

Este, é o livro que se segue. Para ver se a prosa está à altura da grandeza do título.


A ver:
Palestra de Christopher Hitchens sobre religião

novembro 20, 2007

Um livro para os outros*

Os tempos são de individualismo e consumismo. Cada um por si. Alguém que se preocupe com os outros. Mas, serão felizes as pessoas que vivem apenas para si ou, quando muito, para os que lhes são mais próximos? Peter Singer acha que não. E escreveu um livro sobre o assunto.

O professor de bioética na Universidade de Princeton parte de perguntas retóricas simples: Como havemos de viver? Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? A resposta é: sim. Como? Vivendo «uma vida ética».

Para percebermos, com rigor, o que é, na visão do autor, «viver uma vida ética», temos de perceber as suas posições relativamente à avidez generalizada pelo dinheiro, ao consumismo impulsivo e desenfreado, ao vazio deixado pelo recuo da moral, ao egoísmo natural (ou não) dos homens, à natureza da ética. Estes temas são percorridos, com desenvoltura e clareza, ao longo de toda a obra.

Então, ”Como havemos de viver?” «Aqueles que agem eticamente escolhem um modo de vida alternativo, contrário à procura tacanha, acumuladora e competitiva do interesse próprio, que, como vimos, domina agora o Ocidente e já não é posta em causa nem nos antigos países comunistas.»

Moral da história deste livro: pensem um pouco mais nos outros para o bem-estar de todos.


*Texto publicado originalmente no jornal universitário À Letra

novembro 17, 2007

Fotograma: Irène Jacob e Philippe Volter

Irène Jacob e Philippe Volter fotografados por Slawomir Idziak no filme A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.

novembro 13, 2007

novembro 12, 2007

O regresso de Lipovestky

Certos autores são como velhos amigos: a garantia de um prazer renovado a cada novo encontro. Lipovestky é um deles. O ensaio A Felicidade Paradoxal chegou-nos há pouco:

«Numa sociedade em que a melhoria contínua das condições de vida materiais praticamente ascendeu ao estatuto de religião, viver melhor tornou-se uma paixão colectiva, o objectivo supremo das sociedades democráticas, um ideal nunca por demais exaltado.

Entrámos assim numa nova fase do capitalismo: a sociedade do hiperconsumo. Eis que nasce um terceiro tipo de Homo consumericus, voraz, móvel, flexível, liberto da antiga culturas de classe, imprevisível nos seus gostos e nas suas compras e sedento de experiências emocionais e de (mais) bem-estar, de marcas, de autenticidade, de imediatidade, de comunicação.

Tudo se passa como se, doravante, o consumo funcionasse como um império sem tempos mortos cujos contornos são infinitos. Mas estes prazeres privados originam uma felicidade paradoxal: nunca o indivíduo contemporâneo atingiu um tal grau de abandono.» (Edições 70).

novembro 10, 2007

Björk com toque dos Radiohead

Os trabalhos de Björk em vídeo são, como é sabido, espantosos. Ela coloca um cuidado plástico extremo e refinado nas imagens em movimento que escolhe para as suas músicas. Exemplo acabado é este vídeo produzido para o tema, soberbo, Unravel, extraído de Homogenic, um dos melhores álbuns da cantora islandesa:

Agora, atente-se nesta versão, produzida no âmbito da preparação para um webcast e manifestamente bem conseguida, dos Radiohead para este mesmo tema de Björk:

novembro 05, 2007

O professor de arte

Letra inspirada, uma boa história contada. Ao piano, paleta de sons de inspiração Philip Glass. A canção é simples. O resto é Rufus.

novembro 02, 2007

Um dia para recordar Chick Corea


Chick Corea: piano
John Patitucci: contrabaixo
Dave Weckl: bateria

outubro 29, 2007

Zygmunt Bauman: como sobreviver à morte

É por causa do conhecimento que temos da morte que contamos os dias, que os dias contam, diz Zygmunt Bauman. Num excerto de um documentário disponível no YouTube (que muito provavelmente jamais teremos oportunidade de ver nos nossos prolíferos canais televisivos), o sociólogo polaco fala sobre a equação impossível: como sobreviver à morte.

outubro 26, 2007

Sobre a fragilidade dos laços humanos

O texto de Zygmunt Bauman faz jus ao título do livro: é líquido. Nem sempre é fácil acompanhar a liquidez de raciocínio e de escrita do autor de Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Os temas tratados, esses, são sólidos quanto baste: a fragilidade, a volatilidade, a descartabilidade dos laços e afectos que marcam as relações humanas da nossa "modernidade líquida".

Não é fácil discordar com Bauman no tocante ao que define como «amor líquido». Basta olhar para o que se passa à nossa volta: divórcios em catadupa, triunfo das relações efémeras, cultivo de amizades instantâneas, tipo "Hi5", e, sobretudo, nada de grandes compromissos. Relacionamentos para toda a vida? Passou à história.

Logo no início do livro, que o sociólogo polaco dedica aos riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, lê-se: «No nosso mundo de furiosa "individualização", os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Durante a maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam - embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos de ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto e no topo da sua agenda existencial.»

Bauman não se limita a identificar padrões de comportamento ou tendências em vias de consolidação: sobre ambos tem uma perspectiva, diríamos, sem qualquer teor pejorativo, conservadora. Percebe-se que valoriza relações mais sólidas, sobretudo quando escreve sobre quem passa a vida a mudar de parceiros ou a ter relações sexuais tipo "fast food". É o vazio que os espera no final de cada experiência efémera.

Nalgumas passagens, em que fala sobre amor filial, Bauman é quase provocador: «Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objecto de consumo emocional.» Difícil de digerir, ou de reconhecer, para muitos pais. Mas pertinente.

Mais à frente, Bauman procura relacionar os hábitos consumistas, triunfantes, com os novos hábitos de “consumir” pessoas como se fossem produtos, para usar e descartar de seguida de forma a abrir espaço a novos produtos. Os relacionamentos como aquisição, o outro como objecto de consumo:

"O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objectos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objectos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos do seu "valor monetário". Na melhor das hipóteses, os outros são avaliados como companheiros na actividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas presença e participação activa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por essa singularidade) estão quase a desaparecer de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.»

Nada meigo, este Bauman.

A parte final do livro é um libelo contra a xenofobia e uma análise do medo em relação ao estranho, aos que vêm de longe, os “sem território”. Paulo Portas aparece citado. Pelas piores razões, como seria de calcular.

outubro 25, 2007

David Sylvian, inglês suave

Pedro Rios assina hoje, no Público, uma crítica primorosa ao concerto, anteontem, no Theatro Circo, de David Sylvian.

«Com poucas palavras, porventura ainda a recuperar da doença, Sylvian tocou durante quase 90 minutos, confirmando os seus créditos de esteta pop capaz de aglutinar diferentes géneros, como o jazz e a electrónica ambiental. Em concerto, sobressaiu a evolução coerente da carreira do músico, apesar da sua busca criativa sem concessões.»



A ler:
O triunfo suave de David Sylvian (caderno P2)

outubro 21, 2007

A luminosa Dupla Vida de Véronique

Chegou, finalmente. O DVD de A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski, acaba de ser colocado no mercado português pela mão da Costa do Castelo Filmes. Com direito a documentário sobre o realizador e a uma entrevista com a actriz principal, Irène Jacob.

Filme luminoso (mesmo nas sombras e fios invisíveis que projecta), premonitório, algures entre o tangível e o incomunicável, esta é a obra maior do realizador polaco. A história que
Kieslowski aqui nos conta é absolutamente imperdível:

«
Weronika vive na Polónia. Véronique vive em França. Não se conhecem uma à outra, mas ambas sentem que não estão sozinhas no mundo. Weronika aceita um lugar numa escola de música, trabalha com afinco, mas morre na sua primeira actuação pública. Nesse preciso momento, a vida de Véronique parece levar uma volta e esta desiste de cantar. Cada um de nós tem, algures no mundo, o seu exacto duplo, alguém que partilha os nossos pensamentos e os nossos sonhos. »

outubro 20, 2007

Fotograma: Gong Li

Gong Li fotografada no filme A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou

outubro 17, 2007

Os poemas do deserto de Stephan Micus

Stephan Micus, compositor e multi-instrumentista alemão, é um nómada da música. Começou muito cedo a viajar pelo mundo inteiro e a estudar técnicas musicais antigas, sobretudo na Índia e no Japão.

Coleccionou instrumentos étnicos pouco conhecidos no Ocidente e com eles, praticamente sozinho em estúdio, produz sonoridades estranhas e absorventes, que tem registadas em discos gravados para a imparável editora de Manfred Eicher, a ECM.

O álbum Desert Poems (2001) é particularmente fascinante. A começar pela capa, belíssima. Micus pega em instrumentos étnicos (uma harpa da África Ocidental, um piano tanzaniano ou um "tambor falante" do Gana, entre outros) e, com recurso a técnicas de estúdio, constrói um edifício sonoro simultaneamente amplo e minimalista.

Em tempos de saturação mediática musical "mainstream", álbuns transculturais como Desert Poems são um verdadeiro oásis. Quase tão bom como o silêncio puro.

outubro 14, 2007

Robert Wyatt, como se fosse um pintor

Robert Wyatt, o inglês com «a voz mais triste do mundo» (Sakamoto dixit), em entrevista ao Público, sexta-feira passada, suplemento Ípsilon:

«No fim de contas, criar uma canção, para mim, é como seguir uma montanha de sons e tentar completar uma composição com eles, quase como se fosse um pintor e, no final, esperar pacientemente que tudo funcione da melhor forma.»

outubro 12, 2007

Quando Kurosawa sonha com Van Gogh

Dizer «um dos maiores filmes de sempre», é um risco. Elevadíssimo. Não vá os críticos caírem-nos em cima evocando Ran, Os Sete Samurais, Rashomon e muitos outros que o mestre Kurosawa nos ofereceu ao longo da sua riquíssima carreira. Mas afirmar que Sonhos «é um dos mais belos filmes de sempre», para mim, serve. O maior cinema é aquele que amamos com mais força.

outubro 11, 2007

Fotograma: Michelle Pfeiffer

Michelle Pfeiffer fotografada por Vittorio Storaro no filme A Mulher Falcão, de Richard Donner.

outubro 08, 2007

Tom e Jim não querem crescer

Que acontece quando dois bons malandros geniais se encontram? Momentos geniais. A ligação entre Jim Jarmusch, o realizador, e Tom Waits, o músico/actor, tem sido bastante profícua. Não apenas no grande ecrã, mas também nos clips de vídeo.

É o caso deste adorável I Don't Wanna Grow Up (tema do álbum Bone Machine). O Tom canta, o Jim filma:

outubro 07, 2007

Jarmusch e os vencidos pela lei

Na sua terceira longa-metragem, Jim Jarmusch agarrou em Tom Waits, Roberto Benigni e John Lurie e meteu-os numa prisão de Nova Orleães. O resultado só podia ser um filme estranho, mas irresistível.

Filmado num preto e branco impecável, fotografado com rigor, por Robby Muller, Vencidos pela Lei, considerado um dos mais importantes filmes do cinema independente norte-americano dos anos 80, respira música.

As canções são do próprio Waits, aqui um DJ de rádio desempregado apanhado a roubar um carro, e de Lurie, um proxeneta caído numa cilada. Benigni, em início de carreira, faz de Benigni e está tudo dito sobre a sua personagem, Roberto, que matara um homem atirando-lhe com uma bola de bilhar à cabeça.

Os três acabam por fugir da cadeia. Mas o filme, em vez de se centrar na "fuga", joga com a dinâmica, por vezes delirante, entre as três personagens. A certa altura, de forma sibilina, Jarmusch confunde-nos: terão mesmo conseguido fugir da cadeia ou aquilo não passaria de uma fantasia de Roberto, que, a certa altura, desenha uma janela na parede da cadeia? O terreno nas imediações da prisão é pantanoso.

outubro 05, 2007

Birmânia sob os olhares da Magnum

A Birmânia vista pelo olhar de fotógrafos da agência Magnum. Cartier-Bresson incluído. Burma, behind the Conflit.

setembro 25, 2007

Que estão elas a ver?

Em Evidence, uma "curta", de quase 8 minutos, Godfrey Reggio, realizador da trilogia Qatsi, convida-nos a olhar para rostos de crianças. Que estarão elas a ver? Como explicar aquelas expressões faciais ausentes? E a estranha fixação em algo que lhes transfigura o olhar? É preciso esperar pelo fim para obter a resposta.

setembro 22, 2007

Postais do Porto: eléctrico na Batalha

video
Dia bonito, tempo óptimo. A cidade está, ainda, cheia de turistas. Os "novos" eléctricos transbordam de gente a experimentar a nova linha que dá uma boa volta ao Porto. Reencontro da urbe com uma parte valiosa da sua paisagem e da sua história.

setembro 16, 2007

Wittgenstein: um filme sobre um homem difícil

Wittgenstein é um filme sobre um filósofo "difícil": Ludwig Wittgenstein. Derek Jarman, já em final de vida, com recursos financeiros diminutos, mas com uma criatividade imensa, conseguiu produzir uma obra de câmara cativante a partir de um tema aparentemente árido.

Jarman filmou tudo num estúdio de Waterloo. Os cenários são minimalistas e estilizados, as cores garridas, o fundo invariavelmente negro. Há muito Caravaggio pintado aqui. Aliás, muitas das imagens assemelham-se a verdadeiras pinturas.


O actor Karl Johnson dá corpo, de forma magistral, a um Wittgenstein excêntrico, temperamental, intolerante para com a imperfeição, e sexualmente ambíguo. Wittgenstein buscava a perfeição e a lógica num mundo imperfeito e irracional. E a filosofia, dizia, só ajudava a turvar ainda mais as coisas. Neste excerto, diz que se vai suicidar só porque lhe fizeram um gesto obsceno na rua:

Wittgenstein (1993) é pouco linear na concretização da biografia do conhecido filósofo austríaco. Jarman pega no refrão, isto é, no argumento, e vai por ali fora, como um músico de jazz, construindo um solo ao sabor do seu talento.

setembro 13, 2007

O rosto feminino na pintura

Como evoluiu a representação do rosto feminino na pintura dos últimos 500 anos? Em menos de três minutos, com recurso à técnica de morphing, um vídeo colocado no YouTube (dica de Ponto de Análises) dá uma pequena, e preciosa, ajuda. Um trabalho de artesanato digital de se lhe tirar o chapéu.

Se gostar do tema e quiser aprofundar conhecimentos, sugiro a leitura do livro História do Rosto, de Jean-Jacques Courtine e Claudine Haroche.

setembro 10, 2007

'Tour de France' 2007: Bordéus, Arles, Aix-en-Provence, Saint-Paul-de-Vence, Cannes


(dica: para ver onde cada foto foi tirada basta clicar sobre a imagem pretendida)

setembro 07, 2007

Arles 1
© Helder Bastos
Arles, 2007

agosto 26, 2007

agosto 25, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (III)

Naqoyqatsi, o último filme/documentário da trilogia Qatsi (ver as duas entradas anteriores), é uma experiência alucinante. A sucessão de imagens, trabalhadas ao pormenor, por vezes de uma complexidade extrema, deixa-nos quase sem fôlego. Chegamos ao fim com o prazer e a sensação de que é necessário voltar ao princípio.

Ao contrário de Koyaanisqasti e Powaqqatsi, Naqoyqatsi não foi filmado em cenários naturais. A imagem é o próprio cenário. Aquelas imagens que são o "papel de parede" de todos os dias (spots publicitários, noticiários, documentários históricos e de bibliotecas científicas, educacionais e de computação) são trazidas por Godfrey Reggio para primeiro plano. Nestes cenários, os seres humanos não usam a tecnologia como ferramenta: a tecnologia é uma forma de vida.

Reggio, tal como nos dois anteriores filmes/documentários Qatsi, parte de um ponto de vista, espelhado no título: Naqoyqatsi significa «uma vida de matar-se uns aos outros»; «a guerra como modo de vida»; «violência civilizada». Trata-se, obviamente, de um olhar céptico, embora algo distanciado, sobre as nossas "tecno-lógicas" e "naturalmente" violentas sociedades contemporâneas. A natureza cede o lugar à tecnologia. A imagem subjuga o texto. A violência domina o dia-a-dia.

Como o próprio Reggio explica nesta entrevista, Naqoyqatsi «lida com o momento globalizante que vivemos, onde computadores, a Internet, a tecnologia, se tornam alguma coisa que nós não mais usamos, mas algo que vivemos.»

A banda sonora, tal como nos dois outros Qatsi, é um deslumbre. Desta vez, o célebre violoncelista Yo-Yo Ma dá uma preciosa ajuda à já de si fabulosa música de Philip Glass.

Por que vale a pena ver Koyaanisqasti, Powaqqatsi e Naqoyqatsi? Entre muitíssimas outras razões, porque é um olhar - um outro olhar que não o do ambiente mediático em que vivemos mergulhados (submergidos?) - sobre nós próprios, os nossos hábitos, comportamentos, formas de estar e de nos relacionarmos com o mundo que nos rodeia. Dá que pensar. Só não tem final feliz.

agosto 22, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (II)

Enquanto Koyaanisqatsi (ver entrada anterior) lida com o desequilíbrio entre a natureza e as sociedades modernas do (rico) hemisfério norte, Powaqqatsi mostra-nos a escala humana, o trabalho, a diversidade cultural, as tradições e, sim, a pobreza de povos de África, da Índia, do Médio Oriente, da América do Sul.

Reggio deixa a cada um de nós, espectadores, a interpretação do sentido das imagens. O realizador explica apenas que quis filmar a forma como a vida está a mudar naquelas partes do planeta. Uma mudança que passa pelo choque entre a tradição e os novos modos de vida provocados pela industrialização.

Este segundo documentário da trilogia Qatsi junta as palavras índias Powaqa (uma espécie de feiticeiro mau que vive à custa dos outros) e Qatsi (vida).

O início de Powaqqatsi é fulgurante. Imagens, em câmara lenta, com um fundo bem ritmado de Philip Glass, de milhares de homens a carregar sacos de terra na mina de ouro de Serra Pelada, Brasil:

agosto 21, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (I)

A trilogia de documentários Qatsi, do realizador Godfrey Reggio, demorou mais de duas décadas a ficar completa. Koyaanisqatsi (1982), Powaqqatsi (1998) e Naqoyqatsi (2002) são um verdadeiro monumento, em sons e imagens, erguido ao nosso desequilibrado, massacrado, perigoso e fascinante planeta.

Nos três Qatsi (palavra que significa "vida" na língua dos Hopi, uma nação índia do nordeste do Arizona), não há diálogos nem narrador. Só imagens, muitas em câmara lenta, outras em passo acelerado, todas elas muitíssimo bem escolhidas. A fotografia é um espanto: imagine-se um Sebastião Salgado a fotografar a cores.

Elemento essencial para o ritmo das sequências é a música de Philip Glass. Aliás, nalgumas partes, antes das filmagens a banda sonora já estava pronta, para servir de inspiração ao realizador. Glass tem aqui um dos grandes momentos da sua longa carreira.

Para além da beleza das imagens (mesmo quando nos mostram o lado horroroso do mundo), os Qatsi têm a virtude de nos pôr a pensar sobre o estado brutal de desequilíbrio em que vivemos na relação com a natureza, sobretudo no hemisfério norte, rico, acelerado, consumista, tecnológico, poluidor, destruidor.

Num "making off" disponível num dos DVD, Reggio assume que o objectivo da trilogia é provocar o espectador, proporcionando-lhe uma «experiência» em vez de uma «história», como nos filmes.

Koyaanisquatsi, o primeiro documentário da trilogia, significa "vida sem equilíbrio". Uma visão apocalíptica da colisão entre dois mundos diferentes: a vida urbana e a tecnologia contra o ambiente:

agosto 17, 2007

Max Roach: 1924-2007

Incorrecto para a eternidade

Ninguém melhor do que Frank Zappa para a estreia do novo visual do Travessias. Aliás, se este blogue tivesse um patrono, padrinho, guru ou qualquer coisa do género, seria o meu velho Zappa o escolhido.

Neste teledisco, obviamente politicamente incorrecto, vemos um actor a fazer de Ronald Reagan (uma catástrofe presidencial só superada pelo Bush infante) sentado numa cadeira eléctrica, a pôr creme no cabelo e a cantar. Na altura (1984), a politicamente correcta MTV achou por bem não passar o vídeo. Podia fazer mal à cabecinha dos jovenzinhos habituados aos telediscos inanes dos Duran Duran.

Se Zappa fosse vivo, só imagino as letras, os vídeos, as entrevistas corrosivas que ele não faria à conta do actual presidente dos States. You are what you is e não há volta a dar-lhe:

agosto 11, 2007

O baile de máscaras de Kubrick

A palavra-chave para a entrada no estranho ritual pré-orgíaco prestes a iniciar-se é Fidelio, nome de uma ópera de Beethoven. O cenário é uma mansão luxuosa, nos arredores de uma grande cidade. Os frequentadores são ricos, muito ricos, exclusivos, requintados, um mundo à parte. Depravados? Usam máscaras venezianas. A estranha e hipnótica música de fundo, Masked Ball, própria para claustros, evocadora de tempos remotos e rituais religiosos sinistros, é de Jocelyn Pook. Diz-se que é cantada em língua romena ao contrário. Por isso, não se percebe patavina. Mas resulta. Eis o momento mais extraordinário de cinema que Kubrick nos deixou antes de partir:


(dica: clique onde diz "zoom" para ver em ecrã inteiro)

agosto 08, 2007

Fotograma: Marlon Brando

Marlon Brando fotografado por Vittorio Storaro no filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola.

agosto 04, 2007

Os sons de Marlui Miranda

Marlui Miranda é outro dos tesouros musicais do Brasil pouco conhecidos em Portugal.

Marlui nasceu em Fortaleza e foi criada em Brasília. Mudou para o Rio de Janeiro na década de 70 e estudou guitarra clássica. Tocou com Egberto Gismonti e Milton Nascimento, entre outros. Compôs bandas sonoras para cinema e teatro. As suas músicas já foram gravadas por nomes como Ney Matogrosso.

A partir da década de 70, passou a pesquisar e estudar a música dos índios brasileiros. Entretanto, realizou um projecto de preservação e recriação da música indígena da Amazónia brasileira.

Um dos álbuns que ilustra esta antiga paixão de Marlui é Ihu, Todos os Sons, com canções de povos indígenas, como os Tupari, Yanomami, Kayapó e Tembé. Neste belíssimo álbum, que ganhou um German Phono Academy Award, participam os Uakti e o actual ministro da Cultura do Brasil. Nele podemos ouvir este Araruna:

Pela voz, pelo talento, pela figura, pela curiosidade etnográfica, Marlui Miranda merecia mais atenção por parte daqueles ouvidos lusos que não se resignam a ficar limitados às funestas e enjoativas "playlists" das nossas comercialeiras rádios e afuniladérrimas televisões.

agosto 02, 2007

Unza time!

O cinema está de luto. Há, pois, que celebrar a vida no cinema. E poucos o fazem de forma tão exuberante como Emir Kusturica. Quem viu os filmes dele sabe do que estou a falar.

No teledisco que se segue, o realizador bósnio dá largas ao seu mundo visual e musical, utilizando como actores os elementos da banda com que costuma tocar ao vivo, a The No Smoking Orchestra. Neste vídeo, como em palco, há muita «unza, unza», apesar de a coisa meter um caixão pelo meio e um morto que não resiste a entrar na dança:

julho 30, 2007

Ingmar Bergman: 1918-2007


Quando menos se espera, surge ao lado do Cavaleiro uma figura que mais parece um monge. Apresenta-se como sendo a Morte que veio buscá-lo. Tentando ganhar tempo, ele propõe-lhe uma partida de xadrez que decidirá se parte ou não com Ela. A Morte concorda, por saber que, no final, ganha sempre.

julho 27, 2007

Misha Gordin, fotografia conceptual

«Criar uma ideia e transformá-la em realidade, é o processo essencial da fotografia conceptual»







julho 23, 2007

Fellini conta Fellini

«A mentira é a alma da arte do espectáculo, e eu adoro o espectáculo.»

«Reivindico o direito de me contradizer. Não quero estar privado do direito de dizer tolices e peço humildemente licença para me enganar algumas vezes.»

«O meu sistema é não ter sistema: vou para uma história para descobrir o que ela tem para me contar.»

«Luto para obter as condições de que necessito para trabalhar em paz. Isto é, provavelmente, uma consequência directa do meu egoísmo: se não posso fazer o que quero, prefiro não fazer nada.»

«Creio que seria uma boa ideia os críticos verem filmes como se fossem espectadores normais.»

Federico Fellini, in Fellini conta Fellini

julho 22, 2007

O Casanova de Fellini

O cinema de Fellini é maior que o próprio cinema. Embora grandiloquente e algo exagerada, é a única frase decente que me ocorre depois de ver O Casanova de Federico Fellini.

Bem vistas as coisas, para qualquer cinéfilo que se preze, Fellini, que dizia que seria uma boa ideia os críticos verem os filmes como se fossem espectadores normais, é um chato. Põe a fasquia de tal modo elevada que nos deixa com a impressão de que todos os filmes que vimos nas últimas 37 semanas não passam de fancaria cinéfila. Perda de tempo. Desperdício visual. Penúria estética.

Donde, paradoxalmente, é preciso resistir aos filmes do Fellini. Lutar contra a vontade de os ver. Pelo menos, durante as próximas 37 semanas. Quanto mais não seja porque nos deixam à beira do abismo de atirar com o cartão de sócio da Blockbuster pela janela fora.

«Casanova é um veneziano, libertino, cuja vida é uma sequência de aventuras amorosas. Após um caso com uma freira, é condenado e preso. Consegue depois fugir da prisão e percorre várias cortes e cidades europeias, coleccionando seduções, paixões e orgias sexuais. A mulher gigante numa feira em Londres, uma cientista na Suíça, uma mulher mecânica em Gotemburgo, por todas se apaixona, até acabar os dias como bibliotecário na Boémia. Este filme é baseado livremente na obra autobiográfica do próprio Giacomo Casanova intitulada “A história da minha vida”.»

julho 17, 2007

Mishima não esquece

Este acabou de chegar. Em vinil, gravação excelente, preço de saldo. É considerada uma das melhores bandas sonoras criadas por Philip Glass, que tocou para nós, há pouco tempo, no Theatro Circo.

Desta vez, Glass compôs para um grande filme, esquecido pelas editoras portuguesas de DVD: Mishima, de Paul Schrader. O álbum é enriquecido pelas cordas do famoso Kronos Quartet.



Mishima (1985), produzido por Francis Ford Coppola e George Lucas, conta a história da vida, trágica, de um dos maiores escritores japoneses do século XX, Yukio Mishima.

julho 13, 2007

Laurie Anderson na minha pátria

Laurie Anderson é uma sessentona fascinante, única, inimitável. Artista visual, compositora, poeta, fotógrafa, realizadora, perita em electrónica, vocalista e instrumentista, experimentalista, excelente contadora de histórias, dona de um sentido de humor irresistível e de um sorriso adoravelmente matreiro, esta nova-iorquina anda há quase trinta anos a explorar os caminhos da tecnologia na criação musical. Excertos do álbum, belíssimo, Life on a String:

O seu primeiro álbum, Big Science (1982), faz agora 25 anos e, por isso, acaba de ser lançada uma edição comemorativa. Trata-se de um álbum intemporal. Tem um quarto de século como podia ter 25 dias. É de lá que sai este clássico absoluto, O Superman:

Hoje à noite, Laurie leva ao Theatro Circo, Braga, o espectáculo Homeland, título do seu próximo álbum. Algures entre um poema épico, uma peça e um concerto multimédia, Homeland fala «da cultura dos automóveis todo-o-terreno, dos bloggers, da solidão e da vigilância através de circuitos de televisão, usando as linguagens sintéticas da tecnologia e a linguagem sensual da escrita de canções e da poesia para olhar para os reality shows, o totalitarismo de estilo americano, o sentimentalismo, as imagens fugazes do império.»

Adivinhem quem não vai faltar.

julho 10, 2007

Fotograma: The Weeping Meadow

Fotografia de Andreas Sinanos para o filme The Weeping Meadow, de Theo Angelopoulos.

julho 09, 2007

Como havemos de viver?

Quando um livro, logo a abrir, nos faz perguntas certeiras e pertinentes, só há uma coisa a fazer: comprá-lo logo e lê-lo sem demora:

«Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? Falar de «algo pelo qual viver» tem um certo travo vagamente religioso, mas muitas pessoas que não são absolutamente nada religiosas têm uma sensação incómoda de poderem estar a deixar escapar qualquer coisa básica que conferiria às suas vidas uma importância que, de momento, lhes escapa.»

Peter Singer, Como havemos de viver?: A ética numa época de individualismo


julho 04, 2007

Ismaël Lo no ouvido de Almodóvar

Pedro Almodóvar tem um ouvido muito certeiro na escolha das músicas para os seus filmes. Numa das suas obras maiores, Tudo sobre a minha mãe, há um pedaço em que o realizador espanhol nos brinda com uma canção soberba do músico senegalês Ismaël Lo (em destaque no post abaixo).

Uma personagem em perda, uma Barcelona que nos aparece iluminada e marginal, o ambiente sonoro perfeito de Tajabone:

Gira-discos: Ismaël Lo, Jammu Africa

julho 01, 2007

A Orchestra do cinema de Vertov

Em 2001, o Porto, ainda longe de apanhar com a catástrofe cultural Rui Rio em cima, foi Capital Europeia da Cultura. No actual Rivoli "Superstar" (Jesus Christ!), dançava gente como Bill T. Jones. A cidade fervilhava de espectáculos e cosmopolitismo, a par de obras e buracos por todo o lado, é verdade. Que saudades...

Um dos espectáculos inesquecíveis aconteceu no Coliseu. A Cinematic Orchestra tocou ao vivo, enquanto numa tela gigante passava o assombroso e espectacular filme O Homem da Câmara de Filmar, do russo Dziga Vertov.

Datada de 1929, esta fita, editada em Portugal pela Costa do Castelo Filmes, é um prodígio de técnicas cinematográficas, "efeitos especiais" e montagem. Um marco incontornável na história do cinema. A Cinematic Orchestra conseguiu criar um ambiente perfeito para a fruição destas imagens. Como se pode constatar neste excerto:


Anos mais tarde, Michael Nyman veio à Casa da Música acompanhar com a sua música o mesmo filme. Mas o espectáculo não resultou tão bem. As paisagens sonoras da Cinematic levam a melhor.

junho 28, 2007

junho 26, 2007

Fotograma: Maria Callas

Maria Callas fotografada por Ennio Guarnieri no filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini.


junho 23, 2007

Philip Glass por estas bandas sonoras

Philip Glass actua hoje no CCB, em Lisboa, e amanhã, na nova meca dos melómanos do norte, o Theatro Circo, em Braga. Lá estaremos, como é evidente.

Glass tem 70 anos e uma obra imensa e diversificada. É considerado, a par de Steve Reich, Terry Reily e John Adams, uma das figuras mais proeminentes da chamada escola minimalista.

O piano de Glass já entrou, muitas vezes discretamente, por muitos ouvidos adentro nas salas de cinema, em filmes como The Truman Show, As Horas, Kundun ou Mishima. Talvez tenha sido, para muita gente, o primeiro e único contacto com a música deste compositor norte-americano.

Aliás, neste excerto do Truman Show, é ele mesmo que vemos a tocar ao piano:

Outra área que tem atraído Glass é o multimédia, como podemos ver nesta vídeo-instalação produzida para o drama musical em três partes (peça, dança e concerto) The Photographer:


Uma das mais recentes bandas sonoras que produziu foi a do filme Diário de um Escândalo, estreado há pouco tempo em Portugal. Neste vídeo, o próprio Glass explica como foi o processo de composição:

junho 21, 2007

Introdução a 40 anos de Leonard Cohen

Leonard Cohen anda há quase 40 anos na vida dos discos. Continua a ser um dos mais «fascinantes e enigmáticos» poetas/cantores/compositores vivos. Tem uma obra monumental, este canadiano. Impossível de resumir num qualquer post blogueiro.

Há não muito tempo, lembraram-se de lhe prestar homenagem em forma de documentário. Entregaram a realização a Lian Lunson. Para quem não conhece ou conhece mal Cohen, o DVD, I'm your man, é uma excelente introdução:



Podemos ver e escutar o compositor, que chegou a ser monge budista, no difícil exercício de se explicar um pouco melhor a si próprio, enquanto homem e artista, mas também o podemos ouvir a cantar ao lado dos U2. Como se isso não bastasse, entram em palco músicos como Rufus Wainwright, Nick Cave, Antony, Jarvis Cocker e Beth Orton para dar uma nova roupagem a temas clássicos, inesquecíveis, de Cohen.

Um deles, If it be your will, fica arrasador na voz de Antony: