maio 19, 2009

Um concerto de chorar por menos

Quando vi um porreiro entrar na sala com um copo de cerveja na mão, algo me disse que o concerto não ia correr bem. E não correu mesmo. Um público histérico, barulhento, infantil, que, por vezes, parecia ter sido tirado à pressa de um concerto do Quim Barreiros no queimódromo, conseguiu dar cabo do intimismo da música de Antony.

O Coliseu do Porto é grande e frio. Ao contrário do Theatro Circo, em Braga, pequeno e acolhedor, e onde Antony deu, faz tempo, um concerto absolutamente memorável. Ali, música, músicos e público estiveram em sintonia perfeita, respeitando-se, ouvindo-se ao pormenor. Ontem à noite, de urros a flashadas constantes, passando por palermas a atender telemóveis e por bocas de refinado mau gosto atiradas ao músico, houve de tudo. Para esquecer.

Dá vontade de parafrasear o próprio Antony:

«I need another place
Will there be peace?
I need another world
This one's nearly gone».

maio 16, 2009

Cinema enjoativo

O cinema, como tudo, tem as suas modas. Algumas, alastram como vírus gripais, dando cabo da saúde a películas promissoras. Nos últimos anos, vários realizadores não resistiram e puseram-se, primeiro, a imitar as filmagens tremelicantes dos vídeos caseiros. Depois, trataram de começar a imitar-se uns aos outros, a ver quem dá mais encontrões à máquina durante as filmagens.

O primeiro filme que tive de parar de ver por estar a provocar enjoo, enjoo literal, físico, foi Os Idiotas, do Lars von Trier. Ao dinamarquês deu-lhe para pegar numa máquina digital fatela para se pôr a andar atrás dos actores como quem filma os filhos na praia com uma Sony de 400 euros. Idiota.

Depois, vieram outros, qual deles o mais parecido com as imagens de um repórter de guerra no meio de um raide de Israel na Faixa de Gaza. Nem o Woody Allen escapou ao vírus "Isto só vídeo"...

O caso mais recente foi um daqueles filmes que veio a menos de 2 euros com o Público. California Dreamin´ até prometia. Jovem realizador romeno. Enredo interessante. Prémios aqui e ali. Durou cinco minutos de visualização. O vírus voltou a atacar.

Que raio passará pela cabeça destes realizadores para nos oferecerem filmes aos encontrões? Que parecem filmados às três pancadas por uma mosca aos ziguezagues? Não perceberão o desconforto que isso provoca? Para já não falar da opção estética, algo duvidosa. O cinema é arte da imagem em movimento. Mas conviria não exagerar.

Bom, mais vale voltar ao regaço familiar e confortável de um Fellini, de um Kurosawa, de um Kieslowski ou de um Tarkovski. Para desenjoar dos abanões de certas modas.

maio 08, 2009

De leituras recentes

«É evidente que não há nenhum proveito em escarnecer deliberadamente da opinião pública; é ainda estar sob o seu domínio, embora num sentido inverso. Mas ser-lhe francamente indiferente é não só uma força mas uma causa de felicidade. E uma sociedade composta de homens e mulheres que não se verguem demasiado às convenções é muito mais interessante do que uma sociedade em que toda a gente proceda da mesma maneira.»

Bertrand Russel, A Conquista da Felicidade


«Ninguém nos dá ordens morais nem nos impõe obrigações: supor que o dever é o núcleo central do propósito ético é contemplar com olhos de escravo ou pelo menos de funcionário a tarefa da liberdade.»

Fernando Savater, O Meu Dicionário Filosófico


«Continua a ensinar, porque o ensino lhe proporciona uma forma de vida; também porque o ensina a ser humilde, porque o faz compreender quem ele é neste mundo. Compreende a ironia: aquele que vem ensinar aprende a mais interessante das lições, ao passo que aqueles que vêm para aprender não aprendem nada.»

J. M. Coetzee, Desgraça

abril 29, 2009

A pensar em Van Gogh

© Helder Bastos
Estorãos, 2009

abril 23, 2009

Tempo, silêncio, paciência. Um livro.

«O que nos faz falta é paciência e silêncio; o que nos faz falta é pura e simplesmente tempo, o que também quer dizer aborrecimento. George Steiner di-lo com toda a clareza: qual será o efeito desta realidade na leitura, na função dos livros tais como os conhecemos e amámos? É já possível constatá-lo no efeito de exotismo cada vez mais estranho suscitado pelo acto silencioso da leitura, o espanto provocado pela decisão de fulano de tal ficar fechado em casa durante três dias para escrever.»

Michel Crépu, in O Silêncio dos Livros

abril 21, 2009

abril 08, 2009

Wim Mertens para apreciadores

Wim Mertens esteve duas horas sozinho, ao piano, no palco do belo Theatro Circo, em Braga. Na plateia, tirando um ou outro dorminhoco do costume, os fãs do músico belga não regateavam aplausos entusiásticos no final de cada tema. Eram poucos, mas verdadeiros apreciadores, os que lá estiveram no sábado passado.

Em termos de visibilidade mediática (notícias, críticas), tratou-se de um concerto quase clandestino. Mertens não é indie nem é heavy. Alguns situam-no entre o new age (coisa horrorosa de se dizer) e o minimalimo. Tem, pois, vida difícil nos dias noise que correm. O All Music Guide despacha-o com um parágrafo de biografia.

O álbum Un Respiro, mais um (de uma vasta discografia) em que Mertens recorre ao falsete da voz para complementar o seu pianismo peculiar, foi o mais tocado neste concerto.

Cito o blogue do Theatro Circo: «Em “Un Respiro” ouvimos a paixão de Mertens pela voz, que apresenta não como um instrumento mas como guia para o piano, procurando sempre e apenas a expressão pura. “Un respiro” é o sexto álbum de estúdio como pianista/cantor a solo. Através deste seu novo trabalho, podemos sentir como, actualmente, o processo de composição pode estar fortemente associado à própria performance; tal como a performance e o acto de cantar/tocar são inseparáveis e acabam por criar um único evento.»

A parte final serviu para adocicar os aplausos. Mertens tocou temas de álbuns mais "acessíveis", como Jardin Clos. Perdi a conta aos encores.


A ver e ouvir:
Página oficial de Wim Mertens
Wim Mertens ao vivo (YouTube)

"Un Respiro" (Imeem)

abril 03, 2009

Fotograma: Godard e Miéville

«Já não podemos fugir um do outro». Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville no filme Depois da Reconciliação, de Anne-Marie Miéville.

março 30, 2009

Fragmentos do John Cale

Cru e terno. Desgrenhado ou melancólico. Sozinho, em palco, a cantar e a tocar para uma audiência que, notoriamente, já estava conquistada à partida. Uma partida com várias décadas e com origem provável nos Velvet Underground.

Os temas ao piano dominam o concerto que Cale deu no Palais des Beaux-Arts, em Bruxelas, em 1992, e que ficou registado no DVD Fragments of a Rainy Season (belíssimo título).

São 16 temas, fragmentos de várias idades e álbuns, entre os quais a incontornável obra-prima Music for a New Society. Deste, Cale oferece-nos um tema tocante, Chinese Envoy, e uma pequena pérola: (I Keep A) Close Watch.

No fecho do concerto, o músico fez (diz ele) uma experiência: pôs-se a cantar o Hallelujah, do Leonard Cohen. Como seria de esperar, deu certo.

março 15, 2009

Porta para os Doors

© Helder Bastos
Porto, 2009

março 10, 2009

O que o Tom faz é isto



«O que eu faço é só, só isto: tentar escrever sobre o que observo. Sou um pouco como um detective. Também não me falta compaixão pela condição humana. Procuro conferir uma certa dignidade a todas as situações que descrevo e às pessoas sobre quem escrevo. Mas, frequentemente, a inspiração para uma canção não tem nada a ver com o que eu descrevo nela. As histórias não são mais do que uma metáfora para qualquer coisa de que quero falar. Sou um 'songwriter', não um jornalista. Cito imensos locais e nomes mas, geralmente, são apenas metáforas para algo de diferente.»

«A música pop é o dinheiro e a música a dormirem juntos na mesma cama.»

fevereiro 27, 2009

Traços da Ribeira

© Helder Bastos
Porto, 2009

fevereiro 24, 2009

Apontamentos sobre cinema

Greenaway: todos os filmes, exceptuando os que não têm nada para mostrar além do óbvio, deviam ter como extra uma aula sobre o próprio filme. É isso mesmo que Peter Greenaway faz em O Contrato, uma das suas primeiras longas-metragens. O realizador passa em revista momentos-chave da narrativa e desvenda-nos, como se estivesse a descascar por camadas uma cebola, significados imperceptíveis durante um primeiro visionamento.

Fellini: Ginger e Fred é um libelo enternecedor contra a televisão e o que ela produz, com requintada imbecilidade, de pior. "Car-nei-ros" é o que Fred (um Mastroianni maduríssimo na interpretação) queria gritar durante o directo de um daqueles talk shows arrepiantes que a TV vomita. O resto é Fellini. Obrigatório. Sempre.

Oscares: passo.

Denis: primeiro chamamento: Trouble Every Day tem música dos Tindersticks. Alguma desilusão: o filme não está à altura da banda sonora.

Jarmusch: o capitalismo desenfreado tem destes milagres: já se pode comprar o Homem Morto por pouco menos de 2 euros num quiosque. Com direito a Neil Young e tudo.

Coppola: também veio por tuta-e-meia, graças ao Público. Quem apreciou o grande Apocalipse Now estranhará a complexidade, a densidade, a multidimensionalidade, o ambiente quase teatral e algo esquizofrénico de Uma Segunda Juventude. Óptimo. O filme saiu do bolso do próprio realizador e isso nota-se. Fez o filme que quis. Estão lá os grandes temas, baseados num conto de Mircea Eliade: a decadência, a morte, o amor, o sexo, o tempo e o que dele fazemos, o bem, o mal, a consciência. Pode ser um filme complicado para crises de meia-idade.

Benigni: quando a vida ameaça tornar-se um caso muito sério, há pelo menos três realizadores a quem recorrer em vez de ir ao psiquiatra: Woody Allen, Nanni Moretti e Roberto Benigni. Deste, para descontrair, pode-se começar pelo hilariante Johnny Palito. O título é cómico, mas o tema é sério. Benigni interpreta duas personagens: um ingénuo e um mafioso. O filme é inteligente: mostra-nos que em Palermo se pode matar por uma banana.