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julho 29, 2009

O cheiro do livro

Do alto dos seus quase 90 anos, Ray Bradbury faz, em entrevista publicada no último Babelia (suplemento de livros do El País), a defesa cerrada das bibliotecas e dos livros de papel, numa altura em que os livros electrónicos, tipo Kindle, começam a invadir o planeta.

O escritor norte-americano, autor, entre outros, do romance de ficção científica Fahrenheit 451, adaptado ao cinema por Truffaut, lembra uma coisa que os amantes dos livros conhecem bem: «Os livros têm dois cheiros: o cheiro a novo, que é bom, e o cheiro a livro usado, que é ainda melhor.»

Melhor mesmo, só o cheiro a livro antigo.


A ler:
Palabra de Bradbury

julho 24, 2009

Contra a felicidade

Ora, com a vossa licença, aqui vão três belas citação do contra, retiradas de um livro estimulante, escrito por um professor universitário norte-americano que acredita nas virtudes da melancolia e duvida daqueles que procuram a felicidade permanente a todo custo e a martelo:

«A minha opinião é que a maior parte das pessoas foi ludibriada pela moda americana da busca da felicidade.»

«A democracia torna-se idiota, e nós aplaudimos com jovialidade a sua crescente decrepitude.»

«Não precisamos de procurar muito longe para vermos a nossa cultura artificial em acção. Graças à era digital, é mais provável que experienciemos pixels do que pessoas. Passamos horas à frente dos nossos PC a brincar nos campos insubstanciais da realidade virtual. Nos corredores infinitos da internet, encontramos páginas mais interessantes do que os passeios matinais, brilhantes de orvalho, da aranha do jardim. Na verdade, tratamos a nossa máquina como se fosse um órgão e os nossos órgãos como se fossem máquinas. O nosso computador pode ser «amigo do utilizador». Pode-lhe aparecer um «vírus». Entretanto, fazemos «interfaces» com os nossos colegas. «Processamos» ideias.»

Eric G. Wilson, in Contra a Felicidade

julho 19, 2009

Werner Herzog e o cinema

Há algo de culturalmente criminoso na forma como os europeus tratam o melhor cinema que têm e, em paralelo, no modo como se vergam, em massa, às "produções" com a marca de Hollywood. Tudo isto é negócio, dirão os mais pragmáticos. Mas isso não basta para explicar o colossal desastre no capítulo da divulgação das obras dos maiores mestres do nosso cinema.

Vem o desabafo a propósito de Werner Herzog. Este realizador alemão tem um vastíssimo currículo, dezenas de filmes, de curtas a longas-metragens, passando pelos documentários. Há o Herzog-realizador e Herzog-repórter. Apesar disso, permanecerá um absoluto desconhecido, sobretudo para os mais novos, mesmo para aqueles que procuram não se limitar ao que de mais medíocre vem do outro lado do Atlântico.

O destaque que teve no último Indie Lisboa e o recente lançamento no mercado português de dois pacotes de filmes, ao mesmo tempo que vem ajudar a minorar o défice de divulgação de Herzog, permite-nos ter a verdadeira noção do imenso que perdemos da sua obra nestes anos todos. E estamos a falar, no caso, de apenas um realizador.

Do primeiro pacote, rico em conteúdos, podemos ver, para começar, a obra-prima Fitzcarraldo. Filmado na selva amazónica, em condições extremas de dificuldade, ficou célebre pela cena em que Herzog faz desbravar um monte para fazer passar por cima um barco de mais de 300 toneladas, com a ajuda de índios. O filme tem momentos de um lirismo soberbo. Klaus Kinski, o grande actor de Herzog, de feitio impossível de aturar, é perfeito na alucinação que empresta à personagem. Fitzcarraldo é uma grandiosa ópera na selva.

O excesso de Kinski (devidamente controlado por Herzog) também de revela perfeito no efeito em Aguirre, o aventureiro, Cobra Verde e, sobretudo, em Woyzeck, o soldado atraiçoado, uma composição magnífica do actor alemão.

Em todos estes filmes, mas também em Sinais de Vida, Herzog explora os limites psicológicos do homem em cenários adversos (a começar pelo seus próprios). Desvela-nos personagens excessivas, desmedidas, loucas, ambiciosas, persistentes ou sonhadoras.

O segundo pacote de filmes está a caminho, naturalmente.


A ver:
Trailer de Fitzcarraldo
Trailer de Aguirre, o aventureiro
Trailer de Cobra Verde

A ler:
Sinais de Vida: Werner Herzog e o Cinema

junho 23, 2009

Chatwin e Herzog

Graças ao mundo, os caminhos de Bruce Chatwin, viajante infatigável, escritor talentoso, e de Werner Herzog, realizador destemido e, em bom rigor, um pouco louco, genialmente louco, cruzaram-se.

Uma vez, foi no Gana, onde Herzog rodava o fantástico Cobra Verde, filme baseado no romance O Vice-Rei de Ajudá, de Chatwin. O escritor inglês deixou contadas, num capítulo do livro (póstumo) O que faço eu aqui, as inúmeras peripécias de Herzog naquele país africano.

A páginas tantas, percebe-se por que Chatwin e Herzog tinham tanto em comum:

«(Herzog) Era também a única pessoa com quem podia conversar de igual para igual sobre o que eu chamaria o aspecto sacramental da marcha. Partilhávamos a crença de que o andar não é uma simples terapia, mas uma actividade poética capaz de curar o mundo dos seus males. Herzog resume o que pensa do assunto através de uma afirmação definitiva: "Andar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal".»

Herzog levava isto muito a sério: um dia, ao saber que Lotte Eisner, uma das fundadoras da Cinemateca francesa, estava a morrer, pôs-se a caminho a pé, de Munique a Paris, «convencido de que daquela maneira a poderia curar. Quando chegou ao apartamento de Lotte, ela já se sentia melhor e viveu ainda uma dezena de anos.»

Conhecer esta faceta do realizador alemão é fundamental para se perceber o seu cinema grandioso.

junho 02, 2009

Tão grande como o mundo

De A Conquista da Felicidade - ensaio brilhante, intemporal, escrito com uma clareza invejável, no qual Bertrand Russel disserta sobre as causas da felicidade e da infelicidade do homem - destacaria a seguinte passagem como a mais inspirada e inspiradora:

«Um homem que tenha alguma vez compreendido, ainda que temporária e resumidamente, o que faz a grandeza da alma, não pode mais ser feliz se permite a si próprio ser mesquinho, egoísta, perturbar-se com acidentes triviais, recear o que o destino lhe possa reservar. O homem capaz de grandeza de alma abrirá completamente as janelas do seu espírito e deixará que por elas entrem livremente os ventos de todos os pontos do Universo. Terá de si mesmo, da vida e do mundo uma imagem tão verdadeira quanto o permitem os nossos limites humanos; ao tomar consciência da brevidade e pequenez da vida humana, compreenderá também que no espírito do homem está concentrado tudo o que pode ter algum valor no Universo por nós conhecido. E verá que o homem cujo espírito reflecte o mundo torna-se, em certo sentido, tão grande como o mundo.»

maio 08, 2009

De leituras recentes

«É evidente que não há nenhum proveito em escarnecer deliberadamente da opinião pública; é ainda estar sob o seu domínio, embora num sentido inverso. Mas ser-lhe francamente indiferente é não só uma força mas uma causa de felicidade. E uma sociedade composta de homens e mulheres que não se verguem demasiado às convenções é muito mais interessante do que uma sociedade em que toda a gente proceda da mesma maneira.»

Bertrand Russel, A Conquista da Felicidade


«Ninguém nos dá ordens morais nem nos impõe obrigações: supor que o dever é o núcleo central do propósito ético é contemplar com olhos de escravo ou pelo menos de funcionário a tarefa da liberdade.»

Fernando Savater, O Meu Dicionário Filosófico


«Continua a ensinar, porque o ensino lhe proporciona uma forma de vida; também porque o ensina a ser humilde, porque o faz compreender quem ele é neste mundo. Compreende a ironia: aquele que vem ensinar aprende a mais interessante das lições, ao passo que aqueles que vêm para aprender não aprendem nada.»

J. M. Coetzee, Desgraça

abril 23, 2009

Tempo, silêncio, paciência. Um livro.

«O que nos faz falta é paciência e silêncio; o que nos faz falta é pura e simplesmente tempo, o que também quer dizer aborrecimento. George Steiner di-lo com toda a clareza: qual será o efeito desta realidade na leitura, na função dos livros tais como os conhecemos e amámos? É já possível constatá-lo no efeito de exotismo cada vez mais estranho suscitado pelo acto silencioso da leitura, o espanto provocado pela decisão de fulano de tal ficar fechado em casa durante três dias para escrever.»

Michel Crépu, in O Silêncio dos Livros

março 10, 2009

O que o Tom faz é isto



«O que eu faço é só, só isto: tentar escrever sobre o que observo. Sou um pouco como um detective. Também não me falta compaixão pela condição humana. Procuro conferir uma certa dignidade a todas as situações que descrevo e às pessoas sobre quem escrevo. Mas, frequentemente, a inspiração para uma canção não tem nada a ver com o que eu descrevo nela. As histórias não são mais do que uma metáfora para qualquer coisa de que quero falar. Sou um 'songwriter', não um jornalista. Cito imensos locais e nomes mas, geralmente, são apenas metáforas para algo de diferente.»

«A música pop é o dinheiro e a música a dormirem juntos na mesma cama.»

dezembro 28, 2008

Livros: um top para quase ninguém

Os meus livros favoritos de 2008 não aparecem em nenhum dos tops que agora inundam a imprensa. Ainda assim, e partilhando com Moretti aquele gosto especial pela companhia das minorias, fica aqui um modesto contributo para a divulgação de obras que, normalmente, andam longe das luzes da ribalta do escaparate e nos antípodas dos equadores e dos segredos e dos mistérios e dos códices de tudo e mais alguma coisa:

dezembro 07, 2008

Fragilidade no ser

«Para um ser humano, qualquer semelhante deve ter escrita na frente esta advertência: «Muito frágil; manejar com cuidado.» As normas desse manejo cuidadoso da fragilidade constituem precisamente aquilo a que chamamos «moral». E a premência destas acentua-se tanto mais quanto mais débil é o semelhante, devido à idade ou à condição, quanto mais frágil e visivelmente mortal se nos apresenta.»

Fernando Savater, A Vida Eterna

novembro 14, 2008

A escrita eterna de Savater

Regresso à escrita de um velho amigo. Amigo de horas sem fim a lê-lo. Com aquele prazer de quem, como dizia Borges, abre os livros em busca de sabedoria.

Em A Vida Eterna, Fernando Savater convida-nos a acompanhá-lo numa reflexão sobre a religião, a razão, a morte e a vida eterna. Vida eterna em que ele, como «modesto ateu» convicto, não acredita: «Estas reflexões incertas acerca da vida eterna são fraternalmente dedicadas a todos os que nela não acreditam».

O livro, naturalmente, "engata-nos" logo nas primeiras levas de leitura. Outra coisa não seria de esperar de uma obra que nos recebe com um excerto da Metafísica, de Alberto Caeiro:

«Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
da minha janela (mas ela não tem cortinas)...»

setembro 28, 2008

Coisas da vida

Em O Significado das Coisas, A.C. Grayling escreve sobre um mundo imenso de assuntos a partir de um ponto de observação filosófico. E fá-lo de modo tão sucinto e bem escrito que ficamos sempre com a sensação de que cada texto sabe a pouco.

A maior parte dos temas tratados por este professor de filosofia (Universidade de Londres) e jornalista literário é eterna: moral, morte, medo, esperança, traição, derrota, amor, ódio, prudência, vingança, castigo, fé, etc..

Através da acumulação da leitura, percebemos que Grayling não tem a mais leve costela conservadora, moralizadora («O homem que moraliza é geralmente um hipócrita», já dizia Oscar Wilde) ou religiosa. Bem pelo contrário. Aliás, os textos em que o autor mostra mais claramente o que pensa, sem rodeios, são sobre religião:

«Mas a moral religiosa não é apenas irrelevante, é também antimoral. As grandes questões morais do nosso tempo dizem respeito aos direitos humanos, à guerra, à pobreza, às grandes diferenças entre ricos e pobres, ao facto de algures no terceiro mundo uma criança morrer em cada dois segundos e meio devido à fome ou a uma doença curável. As obsessões das igrejas acerca das relações sexuais anteiores ao casamento e da possibilidade ou não de os casais divorciados se poderem casar de novo surge como desprezível à luz desta montanha de sofrimento e carência humanos.»

«Mas a religião não é apenas antimoral: consegue frequentemente ser imoral. Noutros pontos do mundo há fundamentalistas e fanáticos religiosos a encarcerar mulheres, a mutilar órgãos genitais, a amputar mãos, a assassinar e a espalhar bombas e terror em nome das suas fés.»

Quando escreve sobre o ensino, Grayling tem algumas tiradas brilhantes. Lembrando, na esteira dos gregos antigos, que «só os cultos são livres», dá algumas alfinetadas naqueles que do ensino têm uma visão utilitarista e tecnocrática, hoje, lamentavelmente, muito em voga um pouco por todo o lado:

«O ensino - e, em especial, o «ensino liberal» - é aquilo que torna possível a sociedade civil. Isto significa que possui uma importância ainda maior do que a sua contribuição para o êxito económico, que, infelizmente, é apenas para que os políticos pensam que serve.»

Ou ainda:

«Aristóteles afirmou que nos cultivávamos para conseguirmos dar uma utilização nobre ao nosso lazer - esta é uma perspectiva completamente oposta à convicção contemporânea de que nos cultivamos para conseguir um emprego.»

O Significado das Coisas é um livrinho precioso. Óptimo para saborear aos poucos e entremear com leituras mais densas.

Não aconselhável a quem nunca tem dúvidas e raramente se engana.

setembro 22, 2008

O clássico fala por si

Como Italo Calvino acerta em cheio, logo a abrir o seu Porquê ler os Clássicos:

«A escola e a universidade deveriam servir para fazer compreender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais que este; aliás, fazem tudo para crer o contrário. Há uma inversão de valores muito difundida pela qual a introdução, o aparato crítico e a bibliografia são usados como uma cortina de fumo para ocultar o que tem a dizer o texto e que só pode dizê-lo se o deixarem falar sem intermediários que pretendam saber mais que ele. Podemos concluir que: Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma vaga de discursos críticos sobre si, mas que continuamente se livra deles.»

Quantos «livros que falam de outros livros» não terão assassinado a vontade de ler os originais...

setembro 10, 2008

A ansiedade do estatuto

Eis um livro que muitas pessoas que se acham importantes deviam ler, mas não lêem porque são demasiado importantes para isso.

Em Status Ansiedade, Alain de Botton escreve sobre as angústias dos indivíduos, de hoje e do passado, com a posição que ocupam na sociedade. A nossa importância aos olhos dos outros, ou seja, o nosso estatuto, sempre foi motivo de preocupação ao longo da história.

O autor define a angústia do Status como «a preocupação, perniciosa a ponto de arruinar boa parte das nossas vidas, com o risco de não conseguirmos conformar-nos aos ideiais de sucesso instituídos pela sociedade envolvente e de podermos, por conseguinte, ser despojados da nossa dignidade e respeito.» Enfim, a preocupação de sermos uns "falhados".

Esta angústia possui uma «extraordinária capacidade de inspirar sentimentos pesarosos.» Em parte, porque as pessoas acham sempre que não têm dinheiro, fama ou influência suficientes. E isto, diria eu, explicaria o facto de muito boa gente se matar (quase literalmente) a trabalhar, a bajular, a aldrabar e a obedecer cegamente para "subir na vida".

Como amante da filosofia que é, Botton relativiza a importância que tanta gente dá ao seu próprio Status, que muitas vezes é conseguido pela mera ostentação de bens materiais. Bem vistas as coisas, o estatuto é algo de efémero, varia consoante as épocas e as sociedades e nem sequer é algo que inspire o amor ou a amizade verdadeiros, como Dostoievski demonstrou à saciedade.

Citando Epicteto: «Não é a minha posição na sociedade que faz o meu bem-estar, mas sim as minhas ideias, e estas posso sempre trazê-las comigo... Só elas são minhas e ninguém mas pode tirar.» Esta frase tem dois mil anos...

Como em outras obras suas, Botton escreve com simplicidade e clareza (um bem raro). Nota-se que é um bom leitor de livros (algo que podemos confirmar também em A Arte de Viajar). Disserta sobre figuras maiores da literatura, da pintura, da música, da filosofia, sem reverência nem floreados. Em suma, o escritor acaba por ser um bom pedagogo do saber.

Status Ansiedade, confirma-se, é um excelente complemento à leitura de Affluenza, de Oliver James, sobre o qual escrevi aqui.

Boas leituras, para quem não se importar com o Status que elas dão ou retiram a quem quer que seja.

julho 31, 2008

O Silêncio dos Livros

O ensaio O Silêncio dos Livros, de George Steiner, começa com uma advertência:

«Temos tendência a esquecer que, por serem altamente vulneráveis, os livros podem ser suprimidos ou destruídos.»

Pelo meio, esta verdadeira declaração de amor aos livros e à leitura faz-nos parar várias vezes para saborear uma releitura:

«Um dos requisitos fundamentais (para a leitura) é, também, o silêncio. À medida que a civilização urbana e industrial foi prevalecendo, o nível de ruído conheceu um aumento exponencial, estando hoje próximo da loucura.»

«Ou, como sussurrava Borges: "A censura é mãe da metáfora". Quando o aparelho de repressão cede aos valores veiculados pelos mass media ou ao matraquear da publicidade, como acontece hoje em dia na Europa ocidental, assistimos ao triunfo da mediocridade.»

Steiner fecha em grande, interrogando-se:

«Enquanto professor, alguém para quem a literatura, a filosofia, a música ou as artes são a verdadeira substância da vida, como poderei eu exprimir a necessidade que sinto de uma lucidez moral, consciente das necessidades humanas e da injustiça que torna possível uma cultura a tal ponto elevada? As torres que nos isolam são mais sólidas que o marfim. Não sei de resposta satisfatória para este problema.
Contudo, temos de encontrar uma resposta. Temos de a encontrar, se quisermos ser merecedores do privilégio desta nossa paixão, do milagre sempre renovado de segurar nas mãos um novo livro.»

O Silêncio dos Livros, George Steiner

julho 08, 2008

Pode alguém ser quem não é?

O livro Affluenza é uma espécie de grande reportagem interpretativa levada a cabo por um psicólogo inglês. Oliver James andou pelos quatro cantos do mundo a entrevistar pessoas para tentar perceber por que razão tanta gente quer ter o que não têm e ser quem não é, ficando deprimida pelo meio. Por que é que cada vez mais indivíduos são afectados pelo vírus da Affluenza?

Este vírus, clarifica o autor, «é constituído por um conjunto de valores que nos tornam mais vulneráveis aos distúrbios emocionais e implica dar mais valor à obtenção de dinheiro e de bens, ter bom aspecto aos olhos dos outros e desejar ter fama.»

Na sua passagem por cidades como Nova Iorque, Sidney, Moscovo, Singapura, Xangai ou Copenhaga, James constatou que o vírus tem alastrado: há cada vez mais homens e mulheres frustrados ou deprimidos por almejarem sempre mais bens e estatuto social ou por quererem ter uma aspecto físico melhor. E, quanto mais querem, mais têm de trabalhar para isso, prejudicando a qualidade de vida e propiciando a degradação das relações familiares (a começar pelos filhos), algo veementemente condenado pelo autor.

James aponta o dedo ao que chama de Capitalismo Egoísta (dá para perceber que o psicólogo não é um tipo de direita, nem tão-pouco vai à missa com a "esquerda" Tony Blair) como grande responsável pela propagação do vírus: «o Capitalismo egoísta dissemina a Affluenza; os EUA são a apoteose do Capitalismo Egoísta; quanto mais americanizada for uma nação, mais Capitalista Egoísta será e infectada pelo vírus da Affluenza.» A Dinamarca é o país apontado como sendo o menos infectado.

Basicamente, uma sociedade Capitalista Egoísta vive num ciclo vicioso e pernicioso: trata de aperfeiçoar as técnicas da criação de necessidades (publicidade) para levar as pessoas a comprar mais produtos e serviços (consumo) para o que, naturalmente, têm de se matar a trabalhar para serem "bem sucedidas" (carreira).

Ao longo das mais de 400 páginas do livro, James usa a sua experiência como psicólogo para analisar as respostas e atitudes das inúmeras pessoas que entrevistou. Entra, inclusivamente, em choque com algumas teorias de colegas de profissão, por sinal norte-americanos.

Oliver, que aos olhos de muitos pragmáticos parecerá um lírico, conta também as suas histórias pessoais e familiares, faz diagnósticos, não esconde as suas preferências políticas e sociais e, no final, deixa algumas propostas, ou "vacinas", para nos imunizar contra o vírus.

É uma pena que o psicólogo não tenha passado por Lisboa ou pelo Porto nesta sua empreitada. Certamente, ficaria abismado com a disseminação do vírus, sobretudo o da estirpe que se apodera, sem dó nem piedade, dos novos-ricos.

Affluenza é um contributo, para nós, simples leitores, muito importante para o questionar de algumas ideias feitas ou práticas adquiridas em relação ao ter e ao ser. Ter para exibir, não. Ser, no respeito pelas nossas motivações intrínsecas, sim.

É uma pena que Oliver James não conheça Sérgio Godinho para, em jeito de epílogo de livro, citar uma das canções do cantor português, rematada assim:

"Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a corda dum outro
serve-me no pé
nos dois punhos, nas mãos,
no pescoço, diz-me:
Pode alguém ser quem não é?"


A ver:
Oliver James explica Affluenza (vídeos)

julho 02, 2008

Os moralizadores



«Quando os moralizadores atacam a legislação liberal sobre a homossexualidade, o aborto, a prostituição, a censura, a blasfémia, a bastardia e outras matérias semelhantes, estão a manifestar hostilidade relativamente a estilos de vida que lhes desagradam pessoalmente, e a tentar impor, no seu lugar, as suas próprias escolhas, geralmente sob a forma de uma fantasia tradicionalista, os "valores de família".»

junho 19, 2008

Ser humano ao telemóvel



«Talvez a crise das relações humanas, desde o casal até à extensão social do grupo pequeno e do grupo grande, explique parcialmente o laço que existe entre um ser humano e um telemóvel, um objecto que, embora pequeno, tem dentro de si um mundo, até ao ponto de se chegar a pensar que é o mundo. E, se o mundo se transformar em medo, eu posso desligá-lo: na verdade, basta premir uma tecla.»

Vittorino Andreoli, O Mundo Digital

maio 28, 2008

Amor e filosofia

Não é um romance sobre o amor. Mas também não é um livro de filosofia sobre o amor. É uma primeira obra de ensaios romanceados sobre o amor, escritos por um ex-professor e actual escritor com queda para a filosofia. Alain de Botton, de seu nome.

Nasceu na Suíça, tem 39 anos e vive em Londres. Tem no currículo vários livros (alguns dos quais, como O Consolo da Filosofia, "best sellers") e séries documentais produzidas para televisão.

Botton tem sentido de humor, escreve de forma muito clara, esquiva-se a rodeios na linguagem e procura, de facto, tornar diversas questões filosóficas acessíveis a um público alargado. Esta é, aliás, uma das imagens de marca da sua escrita.

É isso mesmo que procura fazer em Ensaios de Amor, editado pela primeira vez em Portugal o ano passado, pela Dom Quixote. Cada capítulo é iniciado com uma pequena formulação de teor filosófico (a idealização do amor, o subtexto da sedução, corpo e mente, beleza, intimidade, «terrorismo romântico», amor ou liberalismo, «é a beleza que faz nascer o amor, ou o amor que faz nascer a beleza?», etc.) que o autor depois ilustra com um par romanceado que se enamora, conhece e separa no final. Ela, Chloe, e ele, Will. Um casal de namorados, afinal, como milhões de outros.

É um bom livro para entrar na escrita de Botton. Status Ansiedade, uma obra sobre as angústias contemporâneas provocadas pela busca de estatuto social, está na calha. Será, certamente, um bom complemento ao excelente Affluenza, de Oliver James, sobre o qual escreverei um dias destes.

março 26, 2008

Sobre materialistas invejosos e "autistas digitais"

Dois livros para ler, logo que a disponibilidade de tempo o permita: Affluenza, de Oliver James, e O Mundo Digital, de Vittorino Andreoli. Ambos tratam temas relativamente novos, pertinentes para o entendimento das sociedades contemporâneas. À partida, não parecem ser livros tranquilizadores. Mas, não são os livros do desassossego os melhores?

O primeiro: «Actualmente, há uma epidemia de affluenza em todo o mundo – uma obsessiva e invejosa vontade de ter o que os outros têm – que causou incríveis aumentos de depressão e ansiedade a milhões de pessoas. Ao longo de nove meses, Oliver James viajou pelo mundo para tentar perceber porquê. Descobriu como, apesar das diferentes culturas e níveis de vida, a affluenza se está a propagar.

Visitou cidades como Sydney, Singapura, Moscovo, Copenhaga, Nova Iorque e Xangai e em cada uma delas entrevistou várias pessoas na esperança de perceber a razão deste fenómeno e como podemos aumentar a força do nosso sistema imunitário emocional. Porque é que tantas pessoas querem ter o que não têm e ser quem não são, apesar de serem mais ricas e mais libertas de limitações tradicionais? A resposta a esta pergunta revela como recuperar a ligação ao que realmente interessa e aprender a valorizar o que já se tem.» (Civilização Editora)

O segundo, escrito por um psiquiatra, é resumido assim: «Dentro destas cada vez mais pequenas máquinas digitais estão contidas infinitas possibilidades de comunicar, informar-se, realizar um negócio, ouvir a nossa música favorita ou até mesmo… namorar – tudo isto em tempo real!

É tipicamente o caso do telemóvel, considerado o expoente máximo da tecnologia digital pelo autor, um psiquiatra italiano, que analisa os múltiplos aspectos da inquietante relação entre o ser humano e o seu telemóvel. Sem pôr de parte as oportunidades que o mundo digital nos proporciona, Andreoli alerta para os perigos da perda dos laços afectivos saudáveis com a vida real, sobretudo para os adolescentes que correm o risco de fechar-se num mundo formatado, como verdadeiros «autistas digitais». (Editorial Presença).



Livros lidos recentemente recomendados pelo Travessias:
Deus não é Grande - Como a Religião Envenena Tudo, de Christopher Hitchens
A Felicidade Paradoxal - Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo, de Gilles Lipovestky
Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman
O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire