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setembro 05, 2004

Damásio, Espinosa e Nietzsche

E eis que dois livros, aparentemente sem pontos de contacto, se tocam de raspão numa passagem.

Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, é, em simultâneo, uma interessante abordagem científica às 'emoções sociais e a neurologia do sentir' e uma obra apaixonada pela vida e pensamento de Espinosa.

Por um lado, Damásio explica-nos, numa linguagem acessível (aqui e ali um pouco mais técnica), os mistérios das emoções e dos sentimentos e de como o corpo interage com o cérebro, e vice-versa, de modo a produzir umas e outros. Disserta, não sem deixar de colocar questões especulativas, sobre os mais recentes avanços no campo das neurociências.

Por outro lado, e esta é porventura a parte do livro mais cativante, sobretudo a parte final, o autor de O Erro de Descartes mergulha a fundo, qual detective da história, no mundo do filósofo que, afinal, era filho de um mercador português. Damásio demonstra aqui ser um bom contador da vida de um homem brilhante e que terá sido precursor de algumas 'verdades' hoje tidas como certas no mundo das neurociências.

Depois de lermos este livro, ficam duas certezas: a de termos melhorado o conhecimento sobre nós próprios e a de querer descobrir ainda mais sobre Espinosa.

Despojos de uma Tragédia reúne cartas escritas por Nieztsche a familiares, amigos e colegas, entre 1863 e 1888. Prosas únicas, cartas à moda antiga, muito bem escritas, para vermos de muito perto o filósofo alemão, um homem desprezado pelos seus compatriotas, sobretudo a partir do momento em que começou a publicar as suas obras 'a doer'. E essa é uma das mágoas que ele demonstra em várias cartas, a de ser incompreendido no seu tempo.

Uma carta a Overbeck, seu amigo, datada de 1881, começa assim: «Estou assombrado! Tenho um precursor. E de que género! Quase não conhecia Espinosa e o que me trouxe agora desejos de lê-lo foi qualquer coisa realmente instintiva.»

E eis como três bons cérebros se deram as mãos em dois belos livros de cabeceira.

fevereiro 28, 2004

É a vida...

«Os homens de mais espírito, suponho que são os mais ousados, experimentam também, de longe, as mais dolorosas tragédias; precisamente por isso honram a vida, porque esta lhes contrapõe o seu máximo antagonismo.»

Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos.

novembro 20, 2003

Nietzsche: Eis o homem

O eterno retorno aos escritos de Nietzsche é sempre um imenso prazer. Ecce Homo é de verbo fortíssimo, na primeira pessoa. O filósofo convida-nos - ou antes, desafia-nos, em tom por vezes altivo e provocador - a acompanhar o seu poderoso e, para altura, meados do século XIX, radical labirinto de ideias. Logo no prefácio, não deixa dúvidas quanto à sua individualidade, vincada e de ruptura: «Escutai-me! Pois, sou assim e assado. Sobretudo, não me confundam com outro.» Em tom autobiográfico, o pensador não deixa pedra sobre pedra nas suas críticas, sobretudo quando ataca o «espírito alemão» e os alemães em geral e a moral cristã («O cristianismo, a religião transformada em negação da vontade de viver!»).

Mas nem só da complexidade de referências à «transmutação de todos os valores» respira Ecce Homo. Nietzsche discorre também sobre aspectos muito pessoais: a sua doença, as viagens a Itália, as paisagens, a importância de amigos como Wagner ou Lou Andreas-Salomé na sua vida, a música, a poesia. Este livro, onde o autor passa em revista os 'bastidores' da produção de obras suas, como O Crepúsculo dos Ídolos, Assim falou Zaratustra, A Gaia Ciência ou Para além do Bem e do Mal, entre outras, talvez seja o melhor ponto de partida para se entrar no seu mundo peculiar. Sempre tendo em conta que os seus escritos nem sempre são de fácil digestão.

Independentemente de se concordar ou não com ele, há no mínimo que reconhecer-lhe a enorme coragem, a frontalidade total, no afrontar de dogmas enraizados de modo muito profundo na sociedade de então. Só mesmo quem de si próprio diz «Não sou um homem, sou dinamite!» pode aguentar as altas pressões de uma solidão de génio.