«Despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro: eis uma tripla aventura como nenhuma outra.» George Steiner
Dizer «um dos maiores filmes de sempre», é um risco. Elevadíssimo. Não vá os críticos caírem-nos em cima evocando Ran, Os Sete Samurais, Rashomon e muitos outros que o mestre Kurosawa nos ofereceu ao longo da sua riquíssima carreira. Mas afirmar que Sonhos «é um dos mais belos filmes de sempre», para mim, serve. O maior cinema é aquele que amamos com mais força.
Wittgenstein é um filme sobre um filósofo "difícil": Ludwig Wittgenstein. Derek Jarman, já em final de vida, com recursos financeiros diminutos, mas com uma criatividade imensa, conseguiu produzir uma obra de câmara cativante a partir de um tema aparentemente árido.
Jarman filmou tudo num estúdio de Waterloo. Os cenários são minimalistas e estilizados, as cores garridas, o fundo invariavelmente negro. Há muito Caravaggiopintado aqui. Aliás, muitas das imagens assemelham-se a verdadeiras pinturas.
O actor Karl Johnson dá corpo, de forma magistral, a um Wittgenstein excêntrico, temperamental, intolerante para com a imperfeição, e sexualmente ambíguo. Wittgenstein buscava a perfeição e a lógica num mundo imperfeito e irracional. E a filosofia, dizia, só ajudava a turvar ainda mais as coisas. Neste excerto, diz que se vai suicidar só porque lhe fizeram um gesto obsceno na rua:
Wittgenstein (1993) é pouco linear na concretização da biografia do conhecido filósofo austríaco. Jarman pega no refrão, isto é, no argumento, e vai por ali fora, como um músico de jazz, construindo um solo ao sabor do seu talento.
Como evoluiu a representação do rosto feminino na pintura dos últimos 500 anos? Em menos de três minutos, com recurso à técnica de morphing, um vídeo colocado no YouTube (dica de Ponto de Análises) dá uma pequena, e preciosa, ajuda. Um trabalho de artesanato digital de se lhe tirar o chapéu.
Se gostar do tema e quiser aprofundar conhecimentos, sugiro a leitura do livro História do Rosto, de Jean-Jacques Courtine e Claudine Haroche.
Em muito boa hora, pela mão da nova editora Midas, chegaram ao mercado de DVD dois dos mais conhecidos filmes de Derek Jarman: Caravaggio e Wittgenstein.
Rever Caravaggio é uma festa para os sentidos. Um filme chiaroescuro, tal como as telas do pintor italiano do século XVII. Paredes nuas, luz oblíqua, vermelhos fortes, fundos pretos. Todo o filme respira Caravaggio. Ou não fosse o provocador realizador inglês formado em pintura.
Aqui e ali, um toque de Pasolini. Nos rostos, nos enquadramentos, nos ritmos, nas personagens fora das leis, artísticas e não só, do seu tempo. Caravaggio e Jarman viveram um pouco assim.
Os extras que a Midas fez incluir no DVD são óptimos, com destaque para um documentário sobre a vida de Jarman, que morreu de Sida, em 1994. Numa entrevista, o realizador diz que fez este filme virado para a tradição cinematográfica europeia (com destaque para a italiana) e não a dos Estados Unidos. Percebe-se que não ia à missa com os enlatados de Hollywood...
Segue-se um pequeno excerto do filme e um trabalho interessante que encontrei no YouTube com imagens de belíssimos quadros de Michelangelo Merisi da Caravaggio.: