Mostrar mensagens com a etiqueta jornalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jornalismo. Mostrar todas as mensagens

novembro 17, 2006

agosto 09, 2006

Em defesa do "slow journalism"

Já é bem conhecido o movimento internacional "slow food", que defende a boa comida tradicional contra a avassaladora "fast food" de plástico e gorduras em excesso. Comer não é apenas deglutir apressadamente. É também um ritual de degustação e prazer. E assim é que está certo. Viva a "comida lenta", portanto.

Depois de ler uma notícia que vem hoje no Público, acerca de dois jornalistas de investigação veteranos - conhecidos por publicarem pouco mais de duas grandes estórias por ano, algumas galardoadas com o prémio Pulitzer - dispensados pela revista norte-americana Time, fico com vontade de subscrever um abaixo-assinado a favor da criação do movimento "slow journalism".

"Slow jornalism": jornalismo com o tempo que for preciso para investigar a sério uma boa estória. Jornalistas com gosto pela degustação do rigor, do pormenor, da profundidade, da persistência, da descoberta daquilo que outros querem esconder do (bem) público. Jornalismo de "chefes de mesa" com a espinha no sítio para aguentar a pressão do piri-piri das manchetes. Jornalismo nos antípodas do "fast journalism" que por aí abunda, gordo mórbido de notícias requentadas, de press-releases encapotados e de fretes consumados.

maio 12, 2006

Watergates

Agora que o "Watergate francês", como lhe chama a imprensa, está ao rubro, mostrando a parte mais sórdida e sinistra da política contemporânea, é uma boa altura para revisitar Os Homens do Presidente.

Este filme, realizado por Alan J. Pakula, é um clássico absoluto na relação entre o jornalismo e o cinema e acaba, finalmente, de ser lançado em DVD no mercado português pela mão da Warner.

Um mergulho minucioso no jornalismo de investigação (o mais nobre, o mais desprezado...) e na podridão total do sistema na era Nixon.

E a história repete-se.

março 02, 2006

Jornalismo e cinema: Clooney e Boorman

Este é dos tais filmes que dá para recomendar, sobretudo a jornalistas, estudantes de comunicação e docentes nesta área, de olhos fechados, isto é, sem ainda se ter visto: Boa Noite, e Boa Sorte, sob a batuta de George Clooney, teve uma estreia auspiciosa em Veneza. Estreia hoje nas salas portuguesas.

Eis a sinopse, retirada do Cinecartaz do Público.pt: «A acção de "Boa Noite, e Boa Sorte" decorre nos primórdios do jornalismo televisivo, na América dos anos 50. O filme retrata o conflito verídico entre Edward R. Murrow, um "pivot" pioneiro na América dos anos 50, e o Senador Joseph McCarthy e a Comissão do Senado das Actividades Anti-Americanas. Graças à sua vontade de esclarecer o público, o inovador Murrow e a sua dedicada equipa da CBS desafiam pressões da empresa e dos patrocinadores ao analisar as mentiras e as tácticas rasteiras de McCarthy durante a sua "caça às bruxas" aos comunistas.»

Já agora, para quem se interessa pela temática dos media e do jornalismo, recomendo ainda dois filmes que chegaram recentemente ao mercado de DVD de aluguer: Crónicas, uma produção México/Equador, realizada por Sebastián Cordero, e o horripilantemente titulado Um Amor em África, cujo título no original é bem mais decente, In My Country, realizado por John Boorman.

O que poderá ver no interessante Crónicas: «O programa de televisão “Uma hora com a Verdade” é transmitido todas as noites de Miami para toda a América Latina, com as histórias sensacionalistas mais fortes que se podem encontrar. Para um desses programas, o apresentador Manolo Bonilla (John Leguizamo) voa para o Equador, na companhia da produtora Marisa (Leonor Watling) e o operador de imagem Ivan (José Maria Yazpik), seguindo a pista de um violador e assassino de crianças, conhecido como “O Monstro de Babahoyo”. A morte acidental de uma criança leva os habitantes de uma pequena povoação a quase linchar Vinicio Cepeda (Damián Alcázar), um humilde vendedor de Bíblias. A intervenção de Manolo salva a vida do homem. É uma grande história para o programa. Vinicio é mesmo encarcerado, por homicídio involuntário, e oferece a Manolo informações sobre o “Monstro”, a troco de uma reportagem sobre a sua injusta situação. Manolo aceita, atraído pelo lado obscuro que pressente em Vinicio, e começa a quebrar todas as regras, decidido a ser ele o herói que detém o assassino com as suas próprias mãos.» (PT Gate)

E em Um Amor em África, um filme mediano, onde Juliette Binoche enche, uma vez mais, todo o ecrã: «Langston Whitfield (Samuel L. Jackson) é um jornalista do Washington Post, enviado à Africa do Sul para cobrir as sessões da Comissão da Verdade e Reconciliação. Ele está apreensivo em relação à viagem, tal como está céptico relativamente ao processo de reconciliação, sentindo que é apenas uma forma de os perpetradores escaparem ao castigo. Anna Malan (Juliette Binoche) é uma poetisa africana que cobre as sessões para a rádio estatal sul africana e NPR nos Estados Unidos. Anna é uma entusiasta do processo, tem um grande respeito pelas tradições africanas nativas e tem grandes esperanças relativamente ao seu país. Como membros da imprenssa internacional, Anna e Langston encontram-se e estão instantaneamente em desacordo relativamente às suas perspectivas opostas das sessões. Mas, com o tempo, a experiência compartilhada de ouvir os testemunhos comoventes e dolorosos aproxima-os cada vez mais.» (PTGate)

janeiro 03, 2006

Votos impressos para 2006

Em 2006, gostava que os jornais portugueses que leio (Público, DN e Expresso à cabeça) fizessem mais jornalismo de investigação (já ouço as gargalhadas do pessoal nas redacções...); contextualizassem melhor os assuntos; me chapassem muito menos com o telejornal da noite anterior nas páginas; mandassem a agenda das conferências de imprensa e dos bitaites dos políticos de serviço às malvas; mandassem alguns colunistas profundamente chatos, nuns casos, e altamente duvidosos, noutros casos, dar uma volta ao bilhar grande do 24 Horas, esse excelente diário de trágica qualidade; apostassem, a sério, na reportagem fotográfica e na infografia; abandonassem de vez as tentações fashion, people e de humor de pechisbeque, do tipo que o Expresso faz na sua Revista; abrissem as páginas a novas áreas temáticas.

Enfim, já sei, são votos de um simples leitor. Do outro lado, isso exigiria bons "patrões", bons directores, bons editores, bons repórteres... E, do lado de cá, bons leitores, claro.

Mas esse país assim ainda está por inventar.

dezembro 15, 2005

Cinema e jornalismo à grande e à francesa

Para quem gosta muito de jornalismo e outro tanto de cinema, esta é uma publicação a colocar desde já no topo das prioridades de Natal: Print the Legend - Cinéma et Journalisme, editada pelos Cahiers du Cinéma.

Trata-se de uma obra colectiva, com diversos textos sobre muitos dos maiores filmes em que o jornalismo é o tema central. Estão lá os grandes clássicos, da envergadura de um Citizen Kane ou de um Blow Up, mas também filmes mais recentes, como O Informador, Shattered Glass - Verdade ou Mentira ou Live from Bagdad (ainda não disponível em Portugal).

Nas páginas finais, encontramos uma lista com mais de 300 obras, abrangendo os séculos XIX, XX e XXI! Imperdível.

novembro 04, 2004

Dedo em feridas do jornalismo

O constitucionalista Vital Moreira pôs hoje o dedo nalgumas feridas do jornalismo que os próprios jornalistas parecem, por vezes, nem sequer reconhecer que as têm.

Primeiro: há uma relação de "promiscuidade" entre os jornalistas e os governos. Não serão todos os jornalistas, nem sequer a maioria, mas os que existem são em número suficiente para dar cabo do bom nome da profissão. O recente desfile de misérias na Alta Autoridade para a Comunicação Social trouxe muito deste lixo à superfície. Entretanto, a passeata obscena entre redacções e assessorias de todo o tipo prossegue, perante a apatia inexplicável, e escandalosa, do Sindicato dos Jornalistas.

Segundo: Vital Moreira defende a criação de uma entidade reguladora e fiscalizadora dos profissionais da comunicação social. É evidente que essa entidade já há muito deveria existir. Talvez não se tivesse chegado ao pântano em que hoje boa parte do jornalismo nacional está enterrado. O jornalismo anda hoje em roda livre, entregue a si próprio e a uma mirífica "auto-regulação" que só serve para os jornalistas se enganarem a si próprios, enquanto as condições de exercício da profissão se vão deteriorando gravemente a vários níveis. É uma verdade tão simples quanto estapafúrdia: o jornalista que viola o código deontológico da profissão não tem qualquer sanção. Pelo menos, que se veja...

outubro 26, 2004

O comissariado mata

Quando, há quase um ano, bati com a porta no DN, por discordar da nomeação do assessor-"jornalista" Fernando Lima para director e dos nomes que escolheu para a sua equipa directiva, nomeadamente no Porto, sabia que o que ali vinha para o jornal era mau. A escola do comissariado político no jornalismo tem barbas e raramente surpreende. Não surpreendeu, uma vez mais.

Só não imaginava é que esta gente, em onze meses, conseguisse a proeza de enterrar o jornal num lodo imenso de falta de credibilidade, de servilismo acéfalo, de incompetência jornalística estonteante. Os danos que estas luminárias, a começar pelo conde da PT e a acabar nos directores, causaram ao título podem, como dizem os elementos do Conselho de Redacção no seu comunicado de hoje, tornar-se irreversíveis.

Como pode um grupo de comunicação deste calibre cometer tantos disparates juntos num espaço de tempo tão curto? Como é possível que, ao fim de tanta asneira, ainda consigam piorar as coisas com a novela inenarrável do convite e recusa a Clara Ferreira Alves? Que raio de director é aquele que está ali a fingir que não é nada com ele ao mesmo tempo que a "sua" redacção se esfrangalha? Os patrões da PT e os seus amigos do governo ensandeceram de vez?

Vale a pena ler o comunicado de hoje do Conselho de Redacção do DN, que o Público.pt transcreve na íntegra. É assustador.

Cadeira eléctrica

Clara Ferreira Alves recusou o convite para dirigir o DN, «por não acreditar que a Lusomundo Media e a Global Notícias estivessem dispostas a reunir as condições necessárias para voltar a fazer do 'Diário de Notícias' um diário de referência, isenção e aceitação pública».

O cargo de director do DN é agora uma cadeira eléctrica. Quem para lá for, queima-se.

outubro 23, 2004

Uma escolha intrigante

Há qualquer coisa que não bate bem nisto. É uma «fonte governamental» a confirmar ao Expresso que Clara Ferreira Alves vai ser a nova directora do DN? É o governo que já tem a certeza, que garante, mesmo antes dos administradores do DN (o próprio director diz estar a leste), a nomeação de Ferreira Alves?

Das duas uma: ou a notícia tem um lead propositadamente venenoso, conduzindo o leitor para a conclusão de que Clara Ferreira Alves é, antes de mais, uma escolha do governo, ou, de facto, o DN vai persisitir no erro de ter a sua imagem colada a boletim oficial dos poderes no activo, imagem essa que lhe tem saído muito caro em termos de credibilidade e vendas.

De qualquer modo, Clara Ferreira Alves irá partir para o cargo com um rótulo pouco abonatório nos dias que correm: a de ter boas relações com Santana Lopes, que a escolheu para dirigir a Casa Fernando Pessoa. Somado a tudo o resto a que temos assistido, sobretudo em termos de tentativas de controlo da comunicação social por parte do governo, a nova directora do DN, independentemente das suas qualidades profissionais, vai ter um trabalho dos diabos para se livrar do carimbo que se lhe começa a colar à pele.

setembro 27, 2004

TV sem remédio

Chega a ser obsceno o nível a que o jornalismo televisivo estatal desce. Chega a ser deprimente constatar que, em vez de arrepiar caminho a partir de um exercício crítico em relação a si própria, a RTP insista em acompanhar as privadas na descida ao inferno do share vincadamente tablóide.

O telejornal das 20 horas de ontem gastou nada menos que a meia hora inicial com o caso da menina alegadamente assassinada no Algarve. O canal 1 serviu a dose rasca do costume, com as entrevistas aos 'populares' irados e, nalguns casos, a roçar a demência, os directos em directo da cozinha da casa dos alegados assassinos, etc.. Não perder pitada, espremer o 'sangue' até à última gota das audiências. Isto já mete nojo, gente!

O jornalismo televisivo está definitivamente paranóico. Ouça-se jornalistas de TV a falar e quase só se lhes ouve a música do share a sair pela boca fora. É triste, mas hoje em dia é regra, não é excepção. Proprietários (a fonte dos maiores problemas do jornalismo contemporâneo), directores e editores são, naturalmente, os maiores instigadores da luta pelas audiências. Mesmo os melhores, isto é, os mais profissionais, são deixados sem alternativa. Triunfa a regra inelutável do "fazer ou morrer".

Os actuais responsáveis pelo jornalismo da RTP parecem ter metido na cabeça o dogma pimba segundo o qual serviço público é sobretudo dar ao povo aquilo que o povo gosta. De que gosta o povo? Bola (os telejornais abarrotam dela) e sangue. Numa palavra, emoções fortes. É o populismo, versão televisão.

Os estados responsáveis (infelizmente, não é o caso do nosso) deviam fazer com a televisão o mesmo que se faz com o tabaco: obrigar a anunciar, neste caso em prime time, que o consumo de certa televisão provoca o cancro.

setembro 24, 2004

Um muro na imprensa

Na sua coluna de hoje no Público, Miguel Sousa Tavares quebra o quase total muro de silêncio mediático (será por medo puro e simples?) sobre a galopante governamentalização laranja dos media da Lusomundo. Bons nacos de prosa como o que se segue são cada vez mais raros na imprensa mainstream, que parece derrapar paulatinamente para um tipo de domesticação demasiado óbvia, parda e incompetente:

«Confesso que ultimamente o "Diário de Notícias" anda muito arredado das minhas leituras diárias. Abro, por exemplo, a edição de anteontem na página 9, e ela é inteiramente constituída por três colunas de opinião de três propagandistas do Governo. É um bocado demais para a minha capacidade digestiva. Agora, com Henrique Granadeiro saneado politicamente e todo o grupo Lusomundo entregue a Luís Delgado, temo que a tendência seja para se reviverem os tempos - ideologicamente opostos, mas deontologicamente semelhantes - em que o "Diário de Notícias" era dirigido por Augusto de Castro ou pela dupla Luís de Barros/José Saramago. Desgraçada vocação!»

setembro 15, 2004

De leituras: jornalismo e aceleração

«O nosso problema mais profundo é que, baseado em tudo o que sabemos, a inovação tecnológica está a acelerar. Estamos a entrar num período em que o ritmo de mudanças das ferramentas com que trabalhamos enquanto jornalistas é maior que nunca, e a autenticidade, atribuição e verificação são mais importantes que nunca porque as ferramentas são tão poderosas.»

Adam Clayton Powell III, in Digital Journalism - Emerging Media and the Changing Horizons of Journalism.

agosto 19, 2004

Brincar aos jornais

O Diário de Notícias continua a pregar pregos no seu próprio caixão. Desde que foi, há quase um ano, vítima de um golpe de estado 'laranja', o percurso do velho diário não era difícil de prever. A estória que hoje vem relatada nalguns jornais, sobre a decisão da Direcção editorial de retirar de página uma notícia incómoda para o governo, tem o mérito de ser absolutamente previsível.

O actual director não foi posto por acaso, e contra tudo o que um mínimo de bom senso recomendaria, à frente do jornal. O ex-assessor de Cavaco e de Martins da Cruz foi posto lá para rentabilizar o seu capital de experiência acumulada. Na assessoria, evidentemente. O custo de credibilidade, como se sabe, foi, e continua a ser, muito elevado para o jornal. As vendas aí estão para o demonstrar. Nenhum jornal do mundo que se queira de referência pode cometer um erro tão básico e grosseiro como este.

Enfim, a história não ensina nada a esta gente, que se entretém a domesticar jornais como quem brinca às casinhas, marimbando-se por completo para a função social que o jornalismo deve ter. O problema é que, democraticamente falando, é uma brincadeira muito séria, pois o país precisa como pão para a boca de jornais sólidos e credíveis, sobretudo agora que as televisões destrambelharam por completo. Precisa de um DN e um Público fortes, a competir pela excelência, e não pelas migalhas de S. Bento.

Neste episódio da notícia 'impublicável', nem tudo é mau. Graça Henriques, editora-adjunta do Nacional, percebeu que houve cedência a pressões políticas e demitiu-se. Fez muitíssimo bem. A maior parte dos jornalistas da secção pôs-se ao lado dela. O seu editor pôs-se ao lado da Direcção. Pois...

janeiro 07, 2004

Perigosas tentações

A justiça e o jornalismo. Os exageros, bem como os erros grosseiros, de parte a parte acabam por redundar nestas tentações perigosas assumidas pela deputada Assunção Esteves: os políticos são achincalhados ao mais alto nível num processo do calibre da Casa Pia, mude-se a Lei de Imprensa, repense-se a «liberdade de comunicação».

Para se chegar a este ponto, muitos estragos de monta foram feitos. Na justiça, o «segredo» respectivo transformou-se numa anedota. Há violações e fugas a toda a hora, que parecem orquestradas milimetricamente por «mãos invisíveis». Letal para qualquer Estado de direito. E os advogados continuam a falar pelos cotovelos. No jornalismo, poucos escapam a tentação de serem os primeiros, mesmo que mal, mesmo que muito mal, para já não falar nos casos de jornalismo de esgoto, em que todos os limites de equilíbrio e bom senso são mandados às malvas em nome da sacrossanta concorrência ou de eventuais interesses mais obscuros do que aquela.


Sejamos claros: em casos-limite, boa parte dos media portugueses não se sabe «auto-regular» sob o ponto de vista jornalístico. Talvez quando levarem com uma revista Lei de Imprensa na cabeça acordem de vez.