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dezembro 15, 2006

Parar para ver cinema

Greenaway tem razão: grande parte do cinema ocidental é demasiado verborreico. Tem texto a mais a impor-se à imagem. Poucas vezes se verifica o contrário. O povo é entretido com guiões romanceados ilustrados com fotografias em movimento.

O cinema (não confundir com filmes produzidos a martelo ou golpe marcial) que nos tem chegado do Oriente tem reposto uma certa, e refrescante, primazia da imagem.

Um exemplo recente é Ferro 3, do sul-coreano Kim Ki-duk. Passou discretamente nas salas e chegou há pouco tempo a DVD. Dois jovens invulgares conhecem-se, apaixonam-se, vivem uma vida estranha, quase sem proferirem uma palavra.

É um cinema sibilino. Vive do pequeno gesto, do toque à superfície, da eloquência do olhar, da placidez dos rostos. Deixa-nos um espaço amplo para a construção das personagens, que ora nos parecem vazias de sentido, ora nos fazem adivinhar um complexidade psicológica muito pouco óbvia. Permite-nos, para além disso, saborear a fotografia, o enquadramento, a cor, o contraste, a profundidade.

Em certo sentido, estamos perante um cinema purificador. Como o que Wong Kar-Wai, de Hong Kong, faz, de forma tocante, em Disponível para Amar.

Numa época de ditadura da actualidade, de urgência sem demora do "já e agora", de juventude hiperactiva e multitarefeira, de civilização "fast tudo", de cultura visual Playstation, às vezes, e parafraseando aquele anúncio da Becel, é bom parar, escutar o coração e ver filmes destes.


novembro 15, 2004

Um conto budista

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera é, a todos os títulos, um belo filme. Dele dizem tratar-se de um conto budista. Talvez seja uma boa síntese.

O realizador, o sul-coreano Kim Ki-duk, sintetiza desta maneira: «Tentei retratar a alegria, a ira, a tristeza e o prazer das nossas vidas através de quatro estações e através da vida de um monge que vive num templo rodeado apenas pela natureza.»

Desta obra muito haveria a dizer e a escrever, sendo certo que alguns sentidos da espiritualidade oriental nos escapam, certamente, a nós, ocidentais. Mas o mínimo que se pode dizer é que este é um filme que nos lava a alma.

A não perder, portanto. Está em exibição no Porto, no (em muito boa hora) renovado cinema Passos Manuel. O site que a Sony fez para Primavera, Verão, Outono... e Primavera merece também uma espreitadela.