maio 28, 2008

Amor e filosofia

Não é um romance sobre o amor. Mas também não é um livro de filosofia sobre o amor. É uma primeira obra de ensaios romanceados sobre o amor, escritos por um ex-professor e actual escritor com queda para a filosofia. Alain de Botton, de seu nome.

Nasceu na Suíça, tem 39 anos e vive em Londres. Tem no currículo vários livros (alguns dos quais, como O Consolo da Filosofia, "best sellers") e séries documentais produzidas para televisão.

Botton tem sentido de humor, escreve de forma muito clara, esquiva-se a rodeios na linguagem e procura, de facto, tornar diversas questões filosóficas acessíveis a um público alargado. Esta é, aliás, uma das imagens de marca da sua escrita.

É isso mesmo que procura fazer em Ensaios de Amor, editado pela primeira vez em Portugal o ano passado, pela Dom Quixote. Cada capítulo é iniciado com uma pequena formulação de teor filosófico (a idealização do amor, o subtexto da sedução, corpo e mente, beleza, intimidade, «terrorismo romântico», amor ou liberalismo, «é a beleza que faz nascer o amor, ou o amor que faz nascer a beleza?», etc.) que o autor depois ilustra com um par romanceado que se enamora, conhece e separa no final. Ela, Chloe, e ele, Will. Um casal de namorados, afinal, como milhões de outros.

É um bom livro para entrar na escrita de Botton. Status Ansiedade, uma obra sobre as angústias contemporâneas provocadas pela busca de estatuto social, está na calha. Será, certamente, um bom complemento ao excelente Affluenza, de Oliver James, sobre o qual escreverei um dias destes.

maio 19, 2008

Stalker

Em 1982, Stalker venceu o Prémio do Júri Ecuménico de Cannes. Que lugar teria hoje um filme destes - denso, complexo, rigoroso, lento, longo, poético, angustiante, "existencial", belo - num festival onde se passeiam Mike Tyson e Angelina Jolie?
E onde cabe hoje o cinema de Tarkovski no nosso país? Tirando a Cinemateca e uns poucos resistentes cineclubes, em quase lado nenhum. O lado nenhum jaz soterrado em toneladas de pipocas.

Quem, onde, como se cultiva e desenvolve hoje o gosto pelas cinematografias de autor? Como fazer chegar às novas gerações, "educadas" a doses cavalares de detritos mercantis com o carimbo de Hollywood, um outro cinema? Missão Impossível.

Escrever sobre o assombroso Stalker, que nos surge sob nova luz a cada revisão, dava um tese de mestrado. Valha-nos a simplicidade do próprio Tarkovski. Citação retirada do seu livro Esculpir o Tempo:

«Em Stalker, faço uma espécie de afirmação cabal: isto é, a de que basta o amor pela humanidade - milagrosamente - para provar que é falsa a suposição grosseira de que não há esperança para o mundo. Este sentimento é o nosso maior valor comum e indiscutivelmente positivo. Apesar de já quase não sabermos amar...».



maio 13, 2008

Sylvain Chauveau leva Depeche Mode às cordas

Sylvain Chauveau pegou num punhado de grandes canções dos Depeche Mode, despiu-as de batida electrónica, juntou-lhes um generoso ensemble de cordas (Ensemble Nocturne) e produziu um disco magnífico: Down to the Bone - An Acoustic Tribute to Depeche Mode.

Neste álbum, datado de 2005, a linearidade acústica é entremeada, aqui e ali, com piscadelas fragmentárias de som de computador, um pouco ao jeito de Alva Noto. Nada que prejudique o equilíbrio melancólico geral dos temas.

Ajuda muito a apreciar esta colheita o conhecimento prévio dos temas originais dos Depeche Mode, escritos, como quase todos, por Martin L. Gore.

Como este Never Let Me Down Again:

(dica de Naná)

maio 08, 2008

A Ronda da Noite no escuro de Lisboa

A estreia de um filme de Peter Greenaway devia ser motivo de júbilo e alarde. Mas não é. Bem pelo contrário. A Ronda da Noite estreia hoje e só em... Lisboa. No Porto, cidade-cemitério cinéfilo, nem vê-lo (longe vão os tempos em que podíamos ver filmes do Greenaway na capela de Serralves, imagine-se). E, como se sabe, o cine-pipoca de shopping dos arrabaldes da "capital do norte" devora hoje todas as salas disponíveis.

O principal diário de referência do país também não deu pela estreia. Pelo menos, na edição da "província". Nem uma referência, por pequenita que fosse, no P2. Na edição online, no Cinecartaz, vá lá, temos direito ao resumo do filme:

«O ano 1642 marca uma viragem na vida do famoso pintor holandês Rembrandt, que perde o seu estatuto de respeitada celebridade e se transforma num pobre desacreditado. Perante a insistência da sua mulher grávida, Saskia, Rembrandt aceita pintar a Milícia dos Mosqueteiros de Amesterdão, num retrato de grupo que mais tarde ficará conhecido como "A Ronda da Noite". Rembrandt rapidamente se apercebe que há uma conspiração em marcha e através dessa pintura encomendada está disposto a pôr a nu os conspiradores, construindo a sua acusação sob a forma de um quadro que desvela o lado hipócrita e negro da época de ouro da sociedade holandesa.»

Por isso, subscrevo por inteiro a "petição ao mercado" feita por João Lopes no Sound + Vision a propósito da estreia de A Ronda da Noite:

«A petição é muito simples: 1) - não abandonem comercialmente o filme; 2) - não o estreiem sem promoção; 3) - não o tratem como se estivesse obrigado a comportar-se como um blockbuster...»


Já agora, deixo aqui a minha modesta petição, dirigida às editoras de filmes: coloquem no mercado de DVD, com carácter de urgência, pois já estão muitíssimo atrasadas, algumas das obras marcantes de Greenaway, tais como: Os Livros de Próspero, O Livro de Cabeceira, O Bebé de Macon ou O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela.

abril 27, 2008

Diálogo mínimo para entender "Pola X"



Pierre: "Onde estamos nós?"
Isabelle: "Estamos fora de tudo".

abril 17, 2008

Ensaio fotográfico sobre locomotiva decadente

(dicas para visualização: clicar com o rato sobre as fotos para zoom; avançar o ecrã para a direita clicando sobre a seta; ver, de preferência, em modo "full screen").

abril 16, 2008

Fim de linha

Comboio no Pocinho
© Helder Bastos
Pocinho, 2007

abril 13, 2008

Noite na Terra

As personagens principais de Noite na Terra são actores secundários na vida. Giram no lado B da sociedade. Vivem e sonham acordados enquanto as cidades dormem. Jarmusch gosta delas (e nós, no final do filme, vamos pelo mesmo caminho). Entrega-lhes o palco principal. Leva-nos a ver com outros olhos os desafortunados, como, aliás, já fizera em Vencidos pela Lei.

Cinco cidades, cinco taxistas. O sonho da taxista de Los Angeles (Winona Ryder) é ser mecânica de automóveis, tal como os seus irmãos. Mesmo quando lhe oferecem de bandeja a possibilidade de ser actriz de cinema em Hollywood.

O taxista de Nova Iorque é um alemão de leste (Armin Mueller-Stahl), um ex-palhaço. Pega pela primeira vez no táxi e mal sabe conduzir. Está-se a marimbar para dinheiro. Vê felicidade nas coisas mais simples. Diverte-se como uma criança, ingénuo numa cidade ameaçadora.

O taxista de Paris é um negro que apenas quer ser respeitado. A sua passageira da noite, que lhe vai desfazer alguns preconceitos, é cega, diz que vai ao cinema para "sentir os filmes" (lindo) e passeia-se junto ao Sena, madrugada fora.

O de Roma é um total passado dos carretos encarnado por Roberto Benigni (só podia ser ele). O padre que leva atrás acaba por ter um ataque cardíaco fatal, ajudado por uma confissão do taxista sobre as suas primeiras experiências sexuais, que haviam envolvido uma abóbora e uma ovelha chamada Lola...

O taxista de Helsínquia tem uma história deprimente para contar a um grupo de amigos bêbados e falhados que lhe entra no táxi, numa noite gélida de neve. O filme acaba aqui, simbólica e melancolicamente, no amanhecer ressacado de um novo dia.

Tom Waits, aquele que canta que o piano é que andou a beber, não ele, toma conta da banda sonora:

abril 03, 2008

Chegar a Purcell pela voz de Nomi

Haverá muitas maneiras de chegar à música de Henry Purcell (1659-1695), um dos expoentes do barroco inglês. Pela voz do alemão Klaus Nomi será, certamente, uma das mais improváveis.

Nomi, com a sua voz aguda, quase de castrato, foi um objecto meio alienígena no panorama musical do início dos anos 80. Misturava rock com disco e metia temas clássicos e ópera pelo meio. Vestia roupas estranhas, puxava pela maquilhagem e dava espectáculos bizarros. Um tipo interessante, portanto. Foi uma das primeiras pessoas famosas no meio a morrer de Sida, em 1983. Deixou apenas três álbuns editados.

Num deles, Encore!, está incluída uma passagem, absolutamente magnífica, da semi-ópera King Arthur, de Purcell. Neste vídeo, vemos um Klaus Nomi já debilitado pela doença interpretar Cold Song, onde, no final, é cantada a frase «Let me, let me, Freeze again to death!». Nomi morreria seis meses depois:


(dica de Naná)

março 31, 2008

"Les femmes qui lisent sont dangereuses"

Cannes
© Helder Bastos
Cannes, 2007