maio 08, 2008

A Ronda da Noite no escuro de Lisboa

A estreia de um filme de Peter Greenaway devia ser motivo de júbilo e alarde. Mas não é. Bem pelo contrário. A Ronda da Noite estreia hoje e só em... Lisboa. No Porto, cidade-cemitério cinéfilo, nem vê-lo (longe vão os tempos em que podíamos ver filmes do Greenaway na capela de Serralves, imagine-se). E, como se sabe, o cine-pipoca de shopping dos arrabaldes da "capital do norte" devora hoje todas as salas disponíveis.

O principal diário de referência do país também não deu pela estreia. Pelo menos, na edição da "província". Nem uma referência, por pequenita que fosse, no P2. Na edição online, no Cinecartaz, vá lá, temos direito ao resumo do filme:

«O ano 1642 marca uma viragem na vida do famoso pintor holandês Rembrandt, que perde o seu estatuto de respeitada celebridade e se transforma num pobre desacreditado. Perante a insistência da sua mulher grávida, Saskia, Rembrandt aceita pintar a Milícia dos Mosqueteiros de Amesterdão, num retrato de grupo que mais tarde ficará conhecido como "A Ronda da Noite". Rembrandt rapidamente se apercebe que há uma conspiração em marcha e através dessa pintura encomendada está disposto a pôr a nu os conspiradores, construindo a sua acusação sob a forma de um quadro que desvela o lado hipócrita e negro da época de ouro da sociedade holandesa.»

Por isso, subscrevo por inteiro a "petição ao mercado" feita por João Lopes no Sound + Vision a propósito da estreia de A Ronda da Noite:

«A petição é muito simples: 1) - não abandonem comercialmente o filme; 2) - não o estreiem sem promoção; 3) - não o tratem como se estivesse obrigado a comportar-se como um blockbuster...»


Já agora, deixo aqui a minha modesta petição, dirigida às editoras de filmes: coloquem no mercado de DVD, com carácter de urgência, pois já estão muitíssimo atrasadas, algumas das obras marcantes de Greenaway, tais como: Os Livros de Próspero, O Livro de Cabeceira, O Bebé de Macon ou O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela.

abril 27, 2008

Diálogo mínimo para entender "Pola X"



Pierre: "Onde estamos nós?"
Isabelle: "Estamos fora de tudo".

abril 17, 2008

Ensaio fotográfico sobre locomotiva decadente

(dicas para visualização: clicar com o rato sobre as fotos para zoom; avançar o ecrã para a direita clicando sobre a seta; ver, de preferência, em modo "full screen").

abril 16, 2008

Fim de linha

Comboio no Pocinho
© Helder Bastos
Pocinho, 2007

abril 13, 2008

Noite na Terra

As personagens principais de Noite na Terra são actores secundários na vida. Giram no lado B da sociedade. Vivem e sonham acordados enquanto as cidades dormem. Jarmusch gosta delas (e nós, no final do filme, vamos pelo mesmo caminho). Entrega-lhes o palco principal. Leva-nos a ver com outros olhos os desafortunados, como, aliás, já fizera em Vencidos pela Lei.

Cinco cidades, cinco taxistas. O sonho da taxista de Los Angeles (Winona Ryder) é ser mecânica de automóveis, tal como os seus irmãos. Mesmo quando lhe oferecem de bandeja a possibilidade de ser actriz de cinema em Hollywood.

O taxista de Nova Iorque é um alemão de leste (Armin Mueller-Stahl), um ex-palhaço. Pega pela primeira vez no táxi e mal sabe conduzir. Está-se a marimbar para dinheiro. Vê felicidade nas coisas mais simples. Diverte-se como uma criança, ingénuo numa cidade ameaçadora.

O taxista de Paris é um negro que apenas quer ser respeitado. A sua passageira da noite, que lhe vai desfazer alguns preconceitos, é cega, diz que vai ao cinema para "sentir os filmes" (lindo) e passeia-se junto ao Sena, madrugada fora.

O de Roma é um total passado dos carretos encarnado por Roberto Benigni (só podia ser ele). O padre que leva atrás acaba por ter um ataque cardíaco fatal, ajudado por uma confissão do taxista sobre as suas primeiras experiências sexuais, que haviam envolvido uma abóbora e uma ovelha chamada Lola...

O taxista de Helsínquia tem uma história deprimente para contar a um grupo de amigos bêbados e falhados que lhe entra no táxi, numa noite gélida de neve. O filme acaba aqui, simbólica e melancolicamente, no amanhecer ressacado de um novo dia.

Tom Waits, aquele que canta que o piano é que andou a beber, não ele, toma conta da banda sonora:

abril 03, 2008

Chegar a Purcell pela voz de Nomi

Haverá muitas maneiras de chegar à música de Henry Purcell (1659-1695), um dos expoentes do barroco inglês. Pela voz do alemão Klaus Nomi será, certamente, uma das mais improváveis.

Nomi, com a sua voz aguda, quase de castrato, foi um objecto meio alienígena no panorama musical do início dos anos 80. Misturava rock com disco e metia temas clássicos e ópera pelo meio. Vestia roupas estranhas, puxava pela maquilhagem e dava espectáculos bizarros. Um tipo interessante, portanto. Foi uma das primeiras pessoas famosas no meio a morrer de Sida, em 1983. Deixou apenas três álbuns editados.

Num deles, Encore!, está incluída uma passagem, absolutamente magnífica, da semi-ópera King Arthur, de Purcell. Neste vídeo, vemos um Klaus Nomi já debilitado pela doença interpretar Cold Song, onde, no final, é cantada a frase «Let me, let me, Freeze again to death!». Nomi morreria seis meses depois:


(dica de Naná)

março 31, 2008

"Les femmes qui lisent sont dangereuses"

Cannes
© Helder Bastos
Cannes, 2007

março 26, 2008

Sobre materialistas invejosos e "autistas digitais"

Dois livros para ler, logo que a disponibilidade de tempo o permita: Affluenza, de Oliver James, e O Mundo Digital, de Vittorino Andreoli. Ambos tratam temas relativamente novos, pertinentes para o entendimento das sociedades contemporâneas. À partida, não parecem ser livros tranquilizadores. Mas, não são os livros do desassossego os melhores?

O primeiro: «Actualmente, há uma epidemia de affluenza em todo o mundo – uma obsessiva e invejosa vontade de ter o que os outros têm – que causou incríveis aumentos de depressão e ansiedade a milhões de pessoas. Ao longo de nove meses, Oliver James viajou pelo mundo para tentar perceber porquê. Descobriu como, apesar das diferentes culturas e níveis de vida, a affluenza se está a propagar.

Visitou cidades como Sydney, Singapura, Moscovo, Copenhaga, Nova Iorque e Xangai e em cada uma delas entrevistou várias pessoas na esperança de perceber a razão deste fenómeno e como podemos aumentar a força do nosso sistema imunitário emocional. Porque é que tantas pessoas querem ter o que não têm e ser quem não são, apesar de serem mais ricas e mais libertas de limitações tradicionais? A resposta a esta pergunta revela como recuperar a ligação ao que realmente interessa e aprender a valorizar o que já se tem.» (Civilização Editora)

O segundo, escrito por um psiquiatra, é resumido assim: «Dentro destas cada vez mais pequenas máquinas digitais estão contidas infinitas possibilidades de comunicar, informar-se, realizar um negócio, ouvir a nossa música favorita ou até mesmo… namorar – tudo isto em tempo real!

É tipicamente o caso do telemóvel, considerado o expoente máximo da tecnologia digital pelo autor, um psiquiatra italiano, que analisa os múltiplos aspectos da inquietante relação entre o ser humano e o seu telemóvel. Sem pôr de parte as oportunidades que o mundo digital nos proporciona, Andreoli alerta para os perigos da perda dos laços afectivos saudáveis com a vida real, sobretudo para os adolescentes que correm o risco de fechar-se num mundo formatado, como verdadeiros «autistas digitais». (Editorial Presença).



Livros lidos recentemente recomendados pelo Travessias:
Deus não é Grande - Como a Religião Envenena Tudo, de Christopher Hitchens
A Felicidade Paradoxal - Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo, de Gilles Lipovestky
Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman
O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire


março 19, 2008

Antony para dançar


Há três anos, no final de um concerto em Madrid, Antony virou-se para a assistência e desabafou: «Estou tão contente que me apetecia poder cantar uma canção alegre para comemorar... mas não tenho nenhuma.» Agora já tem.

Antony, dono de um belo repertório de canções tristes e melancólicas, deu uma guinada dançável. Juntou-se ao projecto do norte-americano Andrew Butler, Hercules & Love Affair, para dar voz a temas que parecem saídos das pistas de dança dos anos 80, com disco sound, tipo Village People, à mistura. Uma delícia de leveza retro.

março 16, 2008

Casa no céu

Casa da Música
© Helder Bastos
Porto, 2007