novembro 26, 2007

Casa da Música

Casa da Música
© Helder Bastos
Porto, 2007

novembro 21, 2007

Ou de como como a religião envenena tudo

Há dias, o Público fez uma pré-publicação de Deus não é grande - Como a religião envenena tudo, um livro de Christopher Hitchens, jornalista, colaborador da revista Vanity Fair e professor convidado de estudos liberais na New School.

O título, ajudado pelo texto pré-publicado, é um toque a rebate para a leitura da obra. O resumo, então, acaba com qualquer margem para hesitações, sobretudo para quem é laico e se identifica de imediato com a formulação, propícia a causar azia nos crentes, seja de que religião forem:

«Neste eloquente debate com os crentes, Christopher Hitchens apresenta argumentos contundentes contra a religião (e a favor de uma abordagem mais laica da vida), através de uma leitura atenta e erudita dos textos religiosos mais importantes.

Hitchens conta a história pessoal dos seus encontros perigosos com a religião e descreve a sua viagem intelectual para uma visão laica da vida, baseada na ciência e na razão, na qual o Céu é substituído pela panorâmica maravilhosa que o telescópio Hubble nos proporciona do universo, e Moisés e o arbusto em chamas dão lugar à beleza e simetria da hélice dupla. «Deus não nos fez», escreve ele. «Nós fizemos Deus.»

Explica que a religião é uma distorção das nossas origens, da nossa natureza e do cosmos.

Prejudicamos os nossos filhos – e colocamos o nosso mundo em perigo – ao doutriná-los.» (Dom Quixote)

Este, é o livro que se segue. Para ver se a prosa está à altura da grandeza do título.


A ver:
Palestra de Christopher Hitchens sobre religião

novembro 20, 2007

Um livro para os outros*

Os tempos são de individualismo e consumismo. Cada um por si. Alguém que se preocupe com os outros. Mas, serão felizes as pessoas que vivem apenas para si ou, quando muito, para os que lhes são mais próximos? Peter Singer acha que não. E escreveu um livro sobre o assunto.

O professor de bioética na Universidade de Princeton parte de perguntas retóricas simples: Como havemos de viver? Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? A resposta é: sim. Como? Vivendo «uma vida ética».

Para percebermos, com rigor, o que é, na visão do autor, «viver uma vida ética», temos de perceber as suas posições relativamente à avidez generalizada pelo dinheiro, ao consumismo impulsivo e desenfreado, ao vazio deixado pelo recuo da moral, ao egoísmo natural (ou não) dos homens, à natureza da ética. Estes temas são percorridos, com desenvoltura e clareza, ao longo de toda a obra.

Então, ”Como havemos de viver?” «Aqueles que agem eticamente escolhem um modo de vida alternativo, contrário à procura tacanha, acumuladora e competitiva do interesse próprio, que, como vimos, domina agora o Ocidente e já não é posta em causa nem nos antigos países comunistas.»

Moral da história deste livro: pensem um pouco mais nos outros para o bem-estar de todos.


*Texto publicado originalmente no jornal universitário À Letra

novembro 17, 2007

Fotograma: Irène Jacob e Philippe Volter

Irène Jacob e Philippe Volter fotografados por Slawomir Idziak no filme A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.

novembro 13, 2007

novembro 12, 2007

O regresso de Lipovestky

Certos autores são como velhos amigos: a garantia de um prazer renovado a cada novo encontro. Lipovestky é um deles. O ensaio A Felicidade Paradoxal chegou-nos há pouco:

«Numa sociedade em que a melhoria contínua das condições de vida materiais praticamente ascendeu ao estatuto de religião, viver melhor tornou-se uma paixão colectiva, o objectivo supremo das sociedades democráticas, um ideal nunca por demais exaltado.

Entrámos assim numa nova fase do capitalismo: a sociedade do hiperconsumo. Eis que nasce um terceiro tipo de Homo consumericus, voraz, móvel, flexível, liberto da antiga culturas de classe, imprevisível nos seus gostos e nas suas compras e sedento de experiências emocionais e de (mais) bem-estar, de marcas, de autenticidade, de imediatidade, de comunicação.

Tudo se passa como se, doravante, o consumo funcionasse como um império sem tempos mortos cujos contornos são infinitos. Mas estes prazeres privados originam uma felicidade paradoxal: nunca o indivíduo contemporâneo atingiu um tal grau de abandono.» (Edições 70).

novembro 10, 2007

Björk com toque dos Radiohead

Os trabalhos de Björk em vídeo são, como é sabido, espantosos. Ela coloca um cuidado plástico extremo e refinado nas imagens em movimento que escolhe para as suas músicas. Exemplo acabado é este vídeo produzido para o tema, soberbo, Unravel, extraído de Homogenic, um dos melhores álbuns da cantora islandesa:

Agora, atente-se nesta versão, produzida no âmbito da preparação para um webcast e manifestamente bem conseguida, dos Radiohead para este mesmo tema de Björk:

novembro 05, 2007

O professor de arte

Letra inspirada, uma boa história contada. Ao piano, paleta de sons de inspiração Philip Glass. A canção é simples. O resto é Rufus.

novembro 02, 2007

Um dia para recordar Chick Corea


Chick Corea: piano
John Patitucci: contrabaixo
Dave Weckl: bateria

outubro 29, 2007

Zygmunt Bauman: como sobreviver à morte

É por causa do conhecimento que temos da morte que contamos os dias, que os dias contam, diz Zygmunt Bauman. Num excerto de um documentário disponível no YouTube (que muito provavelmente jamais teremos oportunidade de ver nos nossos prolíferos canais televisivos), o sociólogo polaco fala sobre a equação impossível: como sobreviver à morte.

outubro 26, 2007

Sobre a fragilidade dos laços humanos

O texto de Zygmunt Bauman faz jus ao título do livro: é líquido. Nem sempre é fácil acompanhar a liquidez de raciocínio e de escrita do autor de Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Os temas tratados, esses, são sólidos quanto baste: a fragilidade, a volatilidade, a descartabilidade dos laços e afectos que marcam as relações humanas da nossa "modernidade líquida".

Não é fácil discordar com Bauman no tocante ao que define como «amor líquido». Basta olhar para o que se passa à nossa volta: divórcios em catadupa, triunfo das relações efémeras, cultivo de amizades instantâneas, tipo "Hi5", e, sobretudo, nada de grandes compromissos. Relacionamentos para toda a vida? Passou à história.

Logo no início do livro, que o sociólogo polaco dedica aos riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, lê-se: «No nosso mundo de furiosa "individualização", os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Durante a maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam - embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos de ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto e no topo da sua agenda existencial.»

Bauman não se limita a identificar padrões de comportamento ou tendências em vias de consolidação: sobre ambos tem uma perspectiva, diríamos, sem qualquer teor pejorativo, conservadora. Percebe-se que valoriza relações mais sólidas, sobretudo quando escreve sobre quem passa a vida a mudar de parceiros ou a ter relações sexuais tipo "fast food". É o vazio que os espera no final de cada experiência efémera.

Nalgumas passagens, em que fala sobre amor filial, Bauman é quase provocador: «Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objecto de consumo emocional.» Difícil de digerir, ou de reconhecer, para muitos pais. Mas pertinente.

Mais à frente, Bauman procura relacionar os hábitos consumistas, triunfantes, com os novos hábitos de “consumir” pessoas como se fossem produtos, para usar e descartar de seguida de forma a abrir espaço a novos produtos. Os relacionamentos como aquisição, o outro como objecto de consumo:

"O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objectos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objectos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos do seu "valor monetário". Na melhor das hipóteses, os outros são avaliados como companheiros na actividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas presença e participação activa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por essa singularidade) estão quase a desaparecer de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.»

Nada meigo, este Bauman.

A parte final do livro é um libelo contra a xenofobia e uma análise do medo em relação ao estranho, aos que vêm de longe, os “sem território”. Paulo Portas aparece citado. Pelas piores razões, como seria de calcular.

outubro 25, 2007

David Sylvian, inglês suave

Pedro Rios assina hoje, no Público, uma crítica primorosa ao concerto, anteontem, no Theatro Circo, de David Sylvian.

«Com poucas palavras, porventura ainda a recuperar da doença, Sylvian tocou durante quase 90 minutos, confirmando os seus créditos de esteta pop capaz de aglutinar diferentes géneros, como o jazz e a electrónica ambiental. Em concerto, sobressaiu a evolução coerente da carreira do músico, apesar da sua busca criativa sem concessões.»



A ler:
O triunfo suave de David Sylvian (caderno P2)