«Despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro: eis uma tripla aventura como nenhuma outra.» George Steiner
Robert Wyatt, o inglês com «a voz mais triste do mundo» (Sakamoto dixit), em entrevista ao Público, sexta-feira passada, suplemento Ípsilon:
«No fim de contas, criar uma canção, para mim, é como seguir uma montanha de sons e tentar completar uma composição com eles, quase como se fosse um pintor e, no final, esperar pacientemente que tudo funcione da melhor forma.»
Dizer «um dos maiores filmes de sempre», é um risco. Elevadíssimo. Não vá os críticos caírem-nos em cima evocando Ran, Os Sete Samurais, Rashomon e muitos outros que o mestre Kurosawa nos ofereceu ao longo da sua riquíssima carreira. Mas afirmar que Sonhos «é um dos mais belos filmes de sempre», para mim, serve. O maior cinema é aquele que amamos com mais força.
Que acontece quando dois bons malandros geniais se encontram? Momentos geniais. A ligação entre Jim Jarmusch, o realizador, e Tom Waits, o músico/actor, tem sido bastante profícua. Não apenas no grande ecrã, mas também nos clips de vídeo.
É o caso deste adorável I Don't Wanna Grow Up (tema do álbum Bone Machine). O Tom canta, o Jim filma:
Na sua terceira longa-metragem, Jim Jarmusch agarrou em Tom Waits, Roberto Benigni e John Lurie e meteu-os numa prisão de Nova Orleães. O resultado só podia ser um filme estranho, mas irresistível.
Filmado num preto e branco impecável, fotografado com rigor, por Robby Muller, Vencidos pela Lei, considerado um dos mais importantes filmes do cinema independente norte-americano dos anos 80, respira música.
As canções são do próprio Waits, aqui um DJ de rádio desempregado apanhado a roubar um carro, e de Lurie, um proxeneta caído numa cilada. Benigni, em início de carreira, faz de Benigni e está tudo dito sobre a sua personagem, Roberto, que matara um homem atirando-lhe com uma bola de bilhar à cabeça.
Os três acabam por fugir da cadeia. Mas o filme, em vez de se centrar na "fuga", joga com a dinâmica, por vezes delirante, entre as três personagens. A certa altura, de forma sibilina, Jarmusch confunde-nos: terão mesmo conseguido fugir da cadeia ou aquilo não passaria de uma fantasia de Roberto, que, a certa altura, desenha uma janela na parede da cadeia? O terreno nas imediações da prisão é pantanoso.
Em Evidence, uma "curta", de quase 8 minutos, Godfrey Reggio, realizador da trilogia Qatsi, convida-nos a olhar para rostos de crianças. Que estarão elas a ver? Como explicar aquelas expressões faciais ausentes? E a estranha fixação em algo que lhes transfigura o olhar? É preciso esperar pelo fim para obter a resposta.
Dia bonito, tempo óptimo. A cidade está, ainda, cheia de turistas. Os "novos" eléctricos transbordam de gente a experimentar a nova linha que dá uma boa volta ao Porto. Reencontro da urbe com uma parte valiosa da sua paisagem e da sua história.
Wittgenstein é um filme sobre um filósofo "difícil": Ludwig Wittgenstein. Derek Jarman, já em final de vida, com recursos financeiros diminutos, mas com uma criatividade imensa, conseguiu produzir uma obra de câmara cativante a partir de um tema aparentemente árido.
Jarman filmou tudo num estúdio de Waterloo. Os cenários são minimalistas e estilizados, as cores garridas, o fundo invariavelmente negro. Há muito Caravaggiopintado aqui. Aliás, muitas das imagens assemelham-se a verdadeiras pinturas.
O actor Karl Johnson dá corpo, de forma magistral, a um Wittgenstein excêntrico, temperamental, intolerante para com a imperfeição, e sexualmente ambíguo. Wittgenstein buscava a perfeição e a lógica num mundo imperfeito e irracional. E a filosofia, dizia, só ajudava a turvar ainda mais as coisas. Neste excerto, diz que se vai suicidar só porque lhe fizeram um gesto obsceno na rua:
Wittgenstein (1993) é pouco linear na concretização da biografia do conhecido filósofo austríaco. Jarman pega no refrão, isto é, no argumento, e vai por ali fora, como um músico de jazz, construindo um solo ao sabor do seu talento.
Como evoluiu a representação do rosto feminino na pintura dos últimos 500 anos? Em menos de três minutos, com recurso à técnica de morphing, um vídeo colocado no YouTube (dica de Ponto de Análises) dá uma pequena, e preciosa, ajuda. Um trabalho de artesanato digital de se lhe tirar o chapéu.
Se gostar do tema e quiser aprofundar conhecimentos, sugiro a leitura do livro História do Rosto, de Jean-Jacques Courtine e Claudine Haroche.