setembro 25, 2007

Que estão elas a ver?

Em Evidence, uma "curta", de quase 8 minutos, Godfrey Reggio, realizador da trilogia Qatsi, convida-nos a olhar para rostos de crianças. Que estarão elas a ver? Como explicar aquelas expressões faciais ausentes? E a estranha fixação em algo que lhes transfigura o olhar? É preciso esperar pelo fim para obter a resposta.

setembro 22, 2007

Postais do Porto: eléctrico na Batalha


Dia bonito, tempo óptimo. A cidade está, ainda, cheia de turistas. Os "novos" eléctricos transbordam de gente a experimentar a nova linha que dá uma boa volta ao Porto. Reencontro da urbe com uma parte valiosa da sua paisagem e da sua história.

setembro 16, 2007

Wittgenstein: um filme sobre um homem difícil

Wittgenstein é um filme sobre um filósofo "difícil": Ludwig Wittgenstein. Derek Jarman, já em final de vida, com recursos financeiros diminutos, mas com uma criatividade imensa, conseguiu produzir uma obra de câmara cativante a partir de um tema aparentemente árido.

Jarman filmou tudo num estúdio de Waterloo. Os cenários são minimalistas e estilizados, as cores garridas, o fundo invariavelmente negro. Há muito Caravaggio pintado aqui. Aliás, muitas das imagens assemelham-se a verdadeiras pinturas.


O actor Karl Johnson dá corpo, de forma magistral, a um Wittgenstein excêntrico, temperamental, intolerante para com a imperfeição, e sexualmente ambíguo. Wittgenstein buscava a perfeição e a lógica num mundo imperfeito e irracional. E a filosofia, dizia, só ajudava a turvar ainda mais as coisas. Neste excerto, diz que se vai suicidar só porque lhe fizeram um gesto obsceno na rua:

Wittgenstein (1993) é pouco linear na concretização da biografia do conhecido filósofo austríaco. Jarman pega no refrão, isto é, no argumento, e vai por ali fora, como um músico de jazz, construindo um solo ao sabor do seu talento.

setembro 13, 2007

O rosto feminino na pintura

Como evoluiu a representação do rosto feminino na pintura dos últimos 500 anos? Em menos de três minutos, com recurso à técnica de morphing, um vídeo colocado no YouTube (dica de Ponto de Análises) dá uma pequena, e preciosa, ajuda. Um trabalho de artesanato digital de se lhe tirar o chapéu.

Se gostar do tema e quiser aprofundar conhecimentos, sugiro a leitura do livro História do Rosto, de Jean-Jacques Courtine e Claudine Haroche.

setembro 10, 2007

'Tour de France' 2007: Bordéus, Arles, Aix-en-Provence, Saint-Paul-de-Vence, Cannes


(dica: para ver onde cada foto foi tirada basta clicar sobre a imagem pretendida)

setembro 07, 2007

Arles 1
© Helder Bastos
Arles, 2007

agosto 26, 2007

agosto 25, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (III)

Naqoyqatsi, o último filme/documentário da trilogia Qatsi (ver as duas entradas anteriores), é uma experiência alucinante. A sucessão de imagens, trabalhadas ao pormenor, por vezes de uma complexidade extrema, deixa-nos quase sem fôlego. Chegamos ao fim com o prazer e a sensação de que é necessário voltar ao princípio.

Ao contrário de Koyaanisqasti e Powaqqatsi, Naqoyqatsi não foi filmado em cenários naturais. A imagem é o próprio cenário. Aquelas imagens que são o "papel de parede" de todos os dias (spots publicitários, noticiários, documentários históricos e de bibliotecas científicas, educacionais e de computação) são trazidas por Godfrey Reggio para primeiro plano. Nestes cenários, os seres humanos não usam a tecnologia como ferramenta: a tecnologia é uma forma de vida.

Reggio, tal como nos dois anteriores filmes/documentários Qatsi, parte de um ponto de vista, espelhado no título: Naqoyqatsi significa «uma vida de matar-se uns aos outros»; «a guerra como modo de vida»; «violência civilizada». Trata-se, obviamente, de um olhar céptico, embora algo distanciado, sobre as nossas "tecno-lógicas" e "naturalmente" violentas sociedades contemporâneas. A natureza cede o lugar à tecnologia. A imagem subjuga o texto. A violência domina o dia-a-dia.

Como o próprio Reggio explica nesta entrevista, Naqoyqatsi «lida com o momento globalizante que vivemos, onde computadores, a Internet, a tecnologia, se tornam alguma coisa que nós não mais usamos, mas algo que vivemos.»

A banda sonora, tal como nos dois outros Qatsi, é um deslumbre. Desta vez, o célebre violoncelista Yo-Yo Ma dá uma preciosa ajuda à já de si fabulosa música de Philip Glass.

Por que vale a pena ver Koyaanisqasti, Powaqqatsi e Naqoyqatsi? Entre muitíssimas outras razões, porque é um olhar - um outro olhar que não o do ambiente mediático em que vivemos mergulhados (submergidos?) - sobre nós próprios, os nossos hábitos, comportamentos, formas de estar e de nos relacionarmos com o mundo que nos rodeia. Dá que pensar. Só não tem final feliz.

agosto 22, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (II)

Enquanto Koyaanisqatsi (ver entrada anterior) lida com o desequilíbrio entre a natureza e as sociedades modernas do (rico) hemisfério norte, Powaqqatsi mostra-nos a escala humana, o trabalho, a diversidade cultural, as tradições e, sim, a pobreza de povos de África, da Índia, do Médio Oriente, da América do Sul.

Reggio deixa a cada um de nós, espectadores, a interpretação do sentido das imagens. O realizador explica apenas que quis filmar a forma como a vida está a mudar naquelas partes do planeta. Uma mudança que passa pelo choque entre a tradição e os novos modos de vida provocados pela industrialização.

Este segundo documentário da trilogia Qatsi junta as palavras índias Powaqa (uma espécie de feiticeiro mau que vive à custa dos outros) e Qatsi (vida).

O início de Powaqqatsi é fulgurante. Imagens, em câmara lenta, com um fundo bem ritmado de Philip Glass, de milhares de homens a carregar sacos de terra na mina de ouro de Serra Pelada, Brasil:

agosto 21, 2007

Qatsi: a trilogia da vida (I)

A trilogia de documentários Qatsi, do realizador Godfrey Reggio, demorou mais de duas décadas a ficar completa. Koyaanisqatsi (1982), Powaqqatsi (1998) e Naqoyqatsi (2002) são um verdadeiro monumento, em sons e imagens, erguido ao nosso desequilibrado, massacrado, perigoso e fascinante planeta.

Nos três Qatsi (palavra que significa "vida" na língua dos Hopi, uma nação índia do nordeste do Arizona), não há diálogos nem narrador. Só imagens, muitas em câmara lenta, outras em passo acelerado, todas elas muitíssimo bem escolhidas. A fotografia é um espanto: imagine-se um Sebastião Salgado a fotografar a cores.

Elemento essencial para o ritmo das sequências é a música de Philip Glass. Aliás, nalgumas partes, antes das filmagens a banda sonora já estava pronta, para servir de inspiração ao realizador. Glass tem aqui um dos grandes momentos da sua longa carreira.

Para além da beleza das imagens (mesmo quando nos mostram o lado horroroso do mundo), os Qatsi têm a virtude de nos pôr a pensar sobre o estado brutal de desequilíbrio em que vivemos na relação com a natureza, sobretudo no hemisfério norte, rico, acelerado, consumista, tecnológico, poluidor, destruidor.

Num "making off" disponível num dos DVD, Reggio assume que o objectivo da trilogia é provocar o espectador, proporcionando-lhe uma «experiência» em vez de uma «história», como nos filmes.

Koyaanisquatsi, o primeiro documentário da trilogia, significa "vida sem equilíbrio". Uma visão apocalíptica da colisão entre dois mundos diferentes: a vida urbana e a tecnologia contra o ambiente:

agosto 17, 2007

Max Roach: 1924-2007

Incorrecto para a eternidade

Ninguém melhor do que Frank Zappa para a estreia do novo visual do Travessias. Aliás, se este blogue tivesse um patrono, padrinho, guru ou qualquer coisa do género, seria o meu velho Zappa o escolhido.

Neste teledisco, obviamente politicamente incorrecto, vemos um actor a fazer de Ronald Reagan (uma catástrofe presidencial só superada pelo Bush infante) sentado numa cadeira eléctrica, a pôr creme no cabelo e a cantar. Na altura (1984), a politicamente correcta MTV achou por bem não passar o vídeo. Podia fazer mal à cabecinha dos jovenzinhos habituados aos telediscos inanes dos Duran Duran.

Se Zappa fosse vivo, só imagino as letras, os vídeos, as entrevistas corrosivas que ele não faria à conta do actual presidente dos States. You are what you is e não há volta a dar-lhe:

agosto 11, 2007

O baile de máscaras de Kubrick

A palavra-chave para a entrada no estranho ritual pré-orgíaco prestes a iniciar-se é Fidelio, nome de uma ópera de Beethoven. O cenário é uma mansão luxuosa, nos arredores de uma grande cidade. Os frequentadores são ricos, muito ricos, exclusivos, requintados, um mundo à parte. Depravados? Usam máscaras venezianas. A estranha e hipnótica música de fundo, Masked Ball, própria para claustros, evocadora de tempos remotos e rituais religiosos sinistros, é de Jocelyn Pook. Diz-se que é cantada em língua romena ao contrário. Por isso, não se percebe patavina. Mas resulta. Eis o momento mais extraordinário de cinema que Kubrick nos deixou antes de partir:


(dica: clique onde diz "zoom" para ver em ecrã inteiro)