«Despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro: eis uma tripla aventura como nenhuma outra.» George Steiner
«A mentira é a alma da arte do espectáculo, e eu adoro o espectáculo.»
«Reivindico o direito de me contradizer. Não quero estar privado do direito de dizer tolices e peço humildemente licença para me enganar algumas vezes.»
«O meu sistema é não ter sistema: vou para uma história para descobrir o que ela tem para me contar.»
«Luto para obter as condições de que necessito para trabalhar em paz. Isto é, provavelmente, uma consequência directa do meu egoísmo: se não posso fazer o que quero, prefiro não fazer nada.»
«Creio que seria uma boa ideia os críticos verem filmes como se fossem espectadores normais.»
O cinema de Fellini é maior que o próprio cinema. Embora grandiloquente e algo exagerada, é a única frase decente que me ocorre depois de ver O Casanova de Federico Fellini.
Bem vistas as coisas, para qualquer cinéfilo que se preze, Fellini, que dizia que seria uma boa ideia os críticos verem os filmes como se fossem espectadores normais, é um chato. Põe a fasquia de tal modo elevada que nos deixa com a impressão de que todos os filmes que vimos nas últimas 37 semanas não passam de fancaria cinéfila. Perda de tempo. Desperdício visual. Penúria estética.
Donde, paradoxalmente, é preciso resistir aos filmes do Fellini. Lutar contra a vontade de os ver. Pelo menos, durante as próximas 37 semanas. Quanto mais não seja porque nos deixam à beira do abismo de atirar com o cartão de sócio da Blockbuster pela janela fora.
«Casanova é um veneziano, libertino, cuja vida é uma sequência de aventuras amorosas. Após um caso com uma freira, é condenado e preso. Consegue depois fugir da prisão e percorre várias cortes e cidades europeias, coleccionando seduções, paixões e orgias sexuais. A mulher gigante numa feira em Londres, uma cientista na Suíça, uma mulher mecânica em Gotemburgo, por todas se apaixona, até acabar os dias como bibliotecário na Boémia. Este filme é baseado livremente na obra autobiográfica do próprio Giacomo Casanova intitulada “A história da minha vida”.»
Este acabou de chegar. Em vinil, gravação excelente, preço de saldo. É considerada uma das melhores bandas sonoras criadas por Philip Glass, que tocou para nós, há pouco tempo, no Theatro Circo.
Desta vez, Glass compôs para um grande filme, esquecido pelas editoras portuguesas de DVD: Mishima, de Paul Schrader. O álbum é enriquecido pelas cordas do famoso Kronos Quartet.
Mishima (1985), produzido por Francis Ford Coppola e George Lucas, conta a história da vida, trágica, de um dos maiores escritores japoneses do século XX, Yukio Mishima.
Laurie Anderson é uma sessentona fascinante, única, inimitável. Artista visual, compositora, poeta, fotógrafa, realizadora, perita em electrónica, vocalista e instrumentista, experimentalista, excelente contadora de histórias, dona de um sentido de humor irresistível e de um sorriso adoravelmente matreiro, esta nova-iorquina anda há quase trinta anos a explorar os caminhos da tecnologia na criação musical. Excertos do álbum, belíssimo, Life on a String:
O seu primeiro álbum, Big Science (1982), faz agora 25 anos e, por isso, acaba de ser lançada uma edição comemorativa. Trata-se de um álbum intemporal. Tem um quarto de século como podia ter 25 dias. É de lá que sai este clássico absoluto, O Superman:
Hoje à noite, Laurie leva ao Theatro Circo, Braga, o espectáculo Homeland, título do seu próximo álbum. Algures entre um poema épico, uma peça e um concerto multimédia, Homeland fala «da cultura dos automóveis todo-o-terreno, dos bloggers, da solidão e da vigilância através de circuitos de televisão, usando as linguagens sintéticas da tecnologia e a linguagem sensual da escrita de canções e da poesia para olhar para os reality shows, o totalitarismo de estilo americano, o sentimentalismo, as imagens fugazes do império.»
Quando um livro, logo a abrir, nos faz perguntas certeiras e pertinentes, só há uma coisa a fazer: comprá-lo logo e lê-lo sem demora:
«Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? Falar de «algo pelo qual viver» tem um certo travo vagamente religioso, mas muitas pessoas que não são absolutamente nada religiosas têm uma sensação incómoda de poderem estar a deixar escapar qualquer coisa básica que conferiria às suas vidas uma importância que, de momento, lhes escapa.»
Peter Singer, Como havemos de viver?: A ética numa época de individualismo
Pedro Almodóvar tem um ouvido muito certeiro na escolha das músicas para os seus filmes. Numa das suas obras maiores, Tudo sobre a minha mãe, há um pedaço em que o realizador espanhol nos brinda com uma canção soberba do músico senegalês Ismaël Lo (em destaque no post abaixo).
Uma personagem em perda, uma Barcelona que nos aparece iluminada e marginal, o ambiente sonoro perfeito de Tajabone:
Em 2001, o Porto, ainda longe de apanhar com a catástrofe cultural Rui Rio em cima, foi Capital Europeia da Cultura. No actual Rivoli "Superstar" (Jesus Christ!), dançava gente como Bill T. Jones. A cidade fervilhava de espectáculos e cosmopolitismo, a par de obras e buracos por todo o lado, é verdade. Que saudades...
Um dos espectáculos inesquecíveis aconteceu no Coliseu. A Cinematic Orchestra tocou ao vivo, enquanto numa tela gigante passava o assombroso e espectacular filme O Homem da Câmara de Filmar, do russo Dziga Vertov.
Datada de 1929,esta fita, editada em Portugal pela Costa do Castelo Filmes, é um prodígio de técnicas cinematográficas, "efeitos especiais" e montagem. Um marco incontornável na história do cinema. A Cinematic Orchestra conseguiu criar um ambiente perfeito para a fruição destas imagens. Como se pode constatar neste excerto:
Anos mais tarde, Michael Nyman veio à Casa da Música acompanhar com a sua música o mesmo filme. Mas o espectáculo não resultou tão bem. As paisagens sonoras da Cinematic levam a melhor.
Philip Glass actua hoje no CCB, em Lisboa, e amanhã, na nova meca dos melómanos do norte, o Theatro Circo, em Braga. Lá estaremos, como é evidente.
Glass tem 70 anos e uma obra imensa e diversificada. É considerado, a par de Steve Reich, Terry Reily e John Adams, uma das figuras mais proeminentes da chamada escola minimalista.
O piano de Glass já entrou, muitas vezes discretamente, por muitos ouvidos adentro nas salas de cinema, em filmes como The Truman Show, As Horas, Kundun ou Mishima. Talvez tenha sido, para muita gente, o primeiro e único contacto com a música deste compositor norte-americano.
Aliás, neste excerto do Truman Show, é ele mesmo que vemos a tocar ao piano:
Outra área que tem atraído Glass é o multimédia, como podemos ver nesta vídeo-instalação produzida para o drama musical em três partes (peça, dança e concerto) The Photographer:
Uma das mais recentes bandas sonoras que produziu foi a do filme Diário de um Escândalo, estreado há pouco tempo em Portugal. Neste vídeo, o próprio Glass explica como foi o processo de composição:
Leonard Cohen anda há quase 40 anos na vida dos discos. Continua a ser um dos mais «fascinantes e enigmáticos» poetas/cantores/compositores vivos. Tem uma obra monumental, este canadiano. Impossível de resumir num qualquer post blogueiro.
Há não muito tempo, lembraram-se de lhe prestar homenagem em forma de documentário. Entregaram a realização a Lian Lunson. Para quem não conhece ou conhece mal Cohen, o DVD, I'm your man, é uma excelente introdução:
Podemos ver e escutar o compositor, que chegou a ser monge budista, no difícil exercício de se explicar um pouco melhor a si próprio, enquanto homem e artista, mas também o podemos ouvir a cantar ao lado dos U2. Como se isso não bastasse, entram em palco músicos como Rufus Wainwright, Nick Cave, Antony, Jarvis Cocker e Beth Orton para dar uma nova roupagem a temas clássicos, inesquecíveis, de Cohen.
Um deles, If it be your will, fica arrasador na voz de Antony: