julho 09, 2007

Como havemos de viver?

Quando um livro, logo a abrir, nos faz perguntas certeiras e pertinentes, só há uma coisa a fazer: comprá-lo logo e lê-lo sem demora:

«Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? Falar de «algo pelo qual viver» tem um certo travo vagamente religioso, mas muitas pessoas que não são absolutamente nada religiosas têm uma sensação incómoda de poderem estar a deixar escapar qualquer coisa básica que conferiria às suas vidas uma importância que, de momento, lhes escapa.»

Peter Singer, Como havemos de viver?: A ética numa época de individualismo


julho 04, 2007

Ismaël Lo no ouvido de Almodóvar

Pedro Almodóvar tem um ouvido muito certeiro na escolha das músicas para os seus filmes. Numa das suas obras maiores, Tudo sobre a minha mãe, há um pedaço em que o realizador espanhol nos brinda com uma canção soberba do músico senegalês Ismaël Lo (em destaque no post abaixo).

Uma personagem em perda, uma Barcelona que nos aparece iluminada e marginal, o ambiente sonoro perfeito de Tajabone:

Gira-discos: Ismaël Lo, Jammu Africa

julho 01, 2007

A Orchestra do cinema de Vertov

Em 2001, o Porto, ainda longe de apanhar com a catástrofe cultural Rui Rio em cima, foi Capital Europeia da Cultura. No actual Rivoli "Superstar" (Jesus Christ!), dançava gente como Bill T. Jones. A cidade fervilhava de espectáculos e cosmopolitismo, a par de obras e buracos por todo o lado, é verdade. Que saudades...

Um dos espectáculos inesquecíveis aconteceu no Coliseu. A Cinematic Orchestra tocou ao vivo, enquanto numa tela gigante passava o assombroso e espectacular filme O Homem da Câmara de Filmar, do russo Dziga Vertov.

Datada de 1929, esta fita, editada em Portugal pela Costa do Castelo Filmes, é um prodígio de técnicas cinematográficas, "efeitos especiais" e montagem. Um marco incontornável na história do cinema. A Cinematic Orchestra conseguiu criar um ambiente perfeito para a fruição destas imagens. Como se pode constatar neste excerto:


Anos mais tarde, Michael Nyman veio à Casa da Música acompanhar com a sua música o mesmo filme. Mas o espectáculo não resultou tão bem. As paisagens sonoras da Cinematic levam a melhor.

junho 28, 2007

junho 26, 2007

Fotograma: Maria Callas

Maria Callas fotografada por Ennio Guarnieri no filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini.


junho 23, 2007

Philip Glass por estas bandas sonoras

Philip Glass actua hoje no CCB, em Lisboa, e amanhã, na nova meca dos melómanos do norte, o Theatro Circo, em Braga. Lá estaremos, como é evidente.

Glass tem 70 anos e uma obra imensa e diversificada. É considerado, a par de Steve Reich, Terry Reily e John Adams, uma das figuras mais proeminentes da chamada escola minimalista.

O piano de Glass já entrou, muitas vezes discretamente, por muitos ouvidos adentro nas salas de cinema, em filmes como The Truman Show, As Horas, Kundun ou Mishima. Talvez tenha sido, para muita gente, o primeiro e único contacto com a música deste compositor norte-americano.

Aliás, neste excerto do Truman Show, é ele mesmo que vemos a tocar ao piano:

Outra área que tem atraído Glass é o multimédia, como podemos ver nesta vídeo-instalação produzida para o drama musical em três partes (peça, dança e concerto) The Photographer:


Uma das mais recentes bandas sonoras que produziu foi a do filme Diário de um Escândalo, estreado há pouco tempo em Portugal. Neste vídeo, o próprio Glass explica como foi o processo de composição:

junho 21, 2007

Introdução a 40 anos de Leonard Cohen

Leonard Cohen anda há quase 40 anos na vida dos discos. Continua a ser um dos mais «fascinantes e enigmáticos» poetas/cantores/compositores vivos. Tem uma obra monumental, este canadiano. Impossível de resumir num qualquer post blogueiro.

Há não muito tempo, lembraram-se de lhe prestar homenagem em forma de documentário. Entregaram a realização a Lian Lunson. Para quem não conhece ou conhece mal Cohen, o DVD, I'm your man, é uma excelente introdução:



Podemos ver e escutar o compositor, que chegou a ser monge budista, no difícil exercício de se explicar um pouco melhor a si próprio, enquanto homem e artista, mas também o podemos ouvir a cantar ao lado dos U2. Como se isso não bastasse, entram em palco músicos como Rufus Wainwright, Nick Cave, Antony, Jarvis Cocker e Beth Orton para dar uma nova roupagem a temas clássicos, inesquecíveis, de Cohen.

Um deles, If it be your will, fica arrasador na voz de Antony:

junho 19, 2007

Já ninguém escuta

«Há uma desordem mental muito arreigada, uma reconhecida doença mental chamada «síndrome de Jerusalém»: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma igreja ou a uma sinagoga. Ou, então, tira a roupa, sobe a um rochedo e começa a fazer profecias. Já ninguém escuta.»

«O século XX parece ter dado mostras excelentes neste sentido. Por um lado, os regimes totalitários, as ideologias mortíferas, o chauvinismo agressivo, as formas violentas de fundamentalismo religioso. Por outro, a idolatria universal de uma Madonna ou de um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização do género humano - «o jardim de infância global», cheio de brinquedos e adereços, rebuçados e chupa-chupas.»

«A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. Nessa tendência tão comum de melhorar o vizinho, de corrigir a esposa, de fazer o filho engenheiro ou de endireitar o irmão, em vez de deixá-los ser. O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado nos outros do que em si próprio. Quer salvar a nossa alma, redimir-nos.»

junho 14, 2007

Um brinde à Cat Power

Cat Power é uma espécie de Carla Bruni mal comportada. Tem boa figura, mas, por vezes, à custa do álcool, faz figura de ursa, sobretudo em palco.

No penúltimo concerto que deu em Portugal, Cat, conta quem lá esteve, desatou a insultar o público. Estava bêbada. No último concerto, pediu desculpa pelo feito. Estava sóbria.

Pinga à parte, esta norte-americana oferece-nos uma voz sedutora, embrulhada em canções atraentes, distribuídas por uma mão cheia de álbuns, que têm passado olimpicamente ao lado dos "media" mainstream.

Cat tem-se movido nas margens, mas suspeito que esses dias estão contados: ela canta no novo filme de Wong Kar-wai e acaba de vencer, com o álbum The Greatest, a edição 2007 do Shortlist Music Prize.

Um brinde à Cat Power.

junho 13, 2007

Citando Lennon

«Amo a liberdade. Por isso, deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem, é porque as possuí, se não voltarem, é por que nunca as tive.»

junho 11, 2007

Videograma: Nanni e as minorias


É um momento delicioso de cinema. Nanni pára num semáforo, desmonta da sua Vespa e tenta explicar a um jovem de Mercedes descapotável, notoriamente pouco dotado para ouvir esta pequena explanação político-existencial, que acredita nas pessoas: só não acredita na maioria das pessoas. «Mesmo numa sociedade mais decente do que esta, estarei sempre do lado de uma minoria de pessoas.»

junho 08, 2007

Retratos do planeta humano

O projecto chama-se 6 Bilion Others e começou em 2003. A ideia do seu mentor, Yann Arthus-Bertrand, é, através da recolha de depoimentos de pessoas nos quatro cantos do mundo, «criar um sensível e humano retrato dos habitantes do planeta».

A seis mil pessoas de 65 países são feitas perguntas como: que é a felicidade? Que lições podemos tirar das dificuldades da vida? Qual o significado da vida?

A ideia, só por si, é fabulosa. Mas a concretização é igualmente fantástica, também do ponto de vista técnico e de narrativa.

Porque a surdez entre povos e pessoas parece ser cada vez mais gritante, ouçamos então um pouco melhor o que o nosso planeta nos tem para dizer.