junho 19, 2007

Já ninguém escuta

«Há uma desordem mental muito arreigada, uma reconhecida doença mental chamada «síndrome de Jerusalém»: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma igreja ou a uma sinagoga. Ou, então, tira a roupa, sobe a um rochedo e começa a fazer profecias. Já ninguém escuta.»

«O século XX parece ter dado mostras excelentes neste sentido. Por um lado, os regimes totalitários, as ideologias mortíferas, o chauvinismo agressivo, as formas violentas de fundamentalismo religioso. Por outro, a idolatria universal de uma Madonna ou de um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização do género humano - «o jardim de infância global», cheio de brinquedos e adereços, rebuçados e chupa-chupas.»

«A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. Nessa tendência tão comum de melhorar o vizinho, de corrigir a esposa, de fazer o filho engenheiro ou de endireitar o irmão, em vez de deixá-los ser. O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado nos outros do que em si próprio. Quer salvar a nossa alma, redimir-nos.»

junho 14, 2007

Um brinde à Cat Power

Cat Power é uma espécie de Carla Bruni mal comportada. Tem boa figura, mas, por vezes, à custa do álcool, faz figura de ursa, sobretudo em palco.

No penúltimo concerto que deu em Portugal, Cat, conta quem lá esteve, desatou a insultar o público. Estava bêbada. No último concerto, pediu desculpa pelo feito. Estava sóbria.

Pinga à parte, esta norte-americana oferece-nos uma voz sedutora, embrulhada em canções atraentes, distribuídas por uma mão cheia de álbuns, que têm passado olimpicamente ao lado dos "media" mainstream.

Cat tem-se movido nas margens, mas suspeito que esses dias estão contados: ela canta no novo filme de Wong Kar-wai e acaba de vencer, com o álbum The Greatest, a edição 2007 do Shortlist Music Prize.

Um brinde à Cat Power.

junho 13, 2007

Citando Lennon

«Amo a liberdade. Por isso, deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem, é porque as possuí, se não voltarem, é por que nunca as tive.»

junho 11, 2007

Videograma: Nanni e as minorias


É um momento delicioso de cinema. Nanni pára num semáforo, desmonta da sua Vespa e tenta explicar a um jovem de Mercedes descapotável, notoriamente pouco dotado para ouvir esta pequena explanação político-existencial, que acredita nas pessoas: só não acredita na maioria das pessoas. «Mesmo numa sociedade mais decente do que esta, estarei sempre do lado de uma minoria de pessoas.»

junho 08, 2007

Retratos do planeta humano

O projecto chama-se 6 Bilion Others e começou em 2003. A ideia do seu mentor, Yann Arthus-Bertrand, é, através da recolha de depoimentos de pessoas nos quatro cantos do mundo, «criar um sensível e humano retrato dos habitantes do planeta».

A seis mil pessoas de 65 países são feitas perguntas como: que é a felicidade? Que lições podemos tirar das dificuldades da vida? Qual o significado da vida?

A ideia, só por si, é fabulosa. Mas a concretização é igualmente fantástica, também do ponto de vista técnico e de narrativa.

Porque a surdez entre povos e pessoas parece ser cada vez mais gritante, ouçamos então um pouco melhor o que o nosso planeta nos tem para dizer.

junho 05, 2007

E Putin? Gostará dos seus filhos?

Estas notícias começam a inquietar. Já aparecem com destaque nas primeiras páginas dos jornais: «O Presidente Putin ameaçara voltar a apontar mísseis balísticos a alvos europeus se os Estados Unidos não desistirem de instalar mísseis interceptores na Polónia. Declarações que para o Reino Unido deixaram toda a Europa inquieta.»

Retórica de "guerra fria". Estão de volta os fantasmas da "Destruição Mútua Assegurada". E o homem volta a exibir, em todo o seu trágico esplendor, a inclinação bruta para a estupidez.

Sting precisa de actualizar "Russians", uma canção que começa assim:

«In europe and america,
there's a growing feeling of hysteria
Conditioned to respond to all the threats
In the rhetorical speeches of the soviets
»

Os cenários repetem-se. Mudaram os actores. Será que Putin gosta dos seus filhos?

junho 04, 2007

Lipovestsky e a felicidade

Algumas ideias, em formato de citação, a reter do texto publicado no último sábado, no Público, a propósito de uma conferência de Gilles Lipovestsky em Lisboa. Sobre a "busca da felicidade":

«Hoje em dia, somos livres de escolher as nossas actividades de lazer, mas estamos cada vez mais sob o império da oferta comercial. Somos livres ao nível dos pormenores, mas o mercado ganhou um poder sem precedentes na vida de cada um e sobre a maneira de concebermos a felicidade em termos de dia-a-dia. Neste dilúvio de convites a desfrutar da vida, a distância entre a felicidade que nos é prometida e o real, o quotidiano, é cada vez maior. E essa glorificação da felicidade provoca problemas existenciais.»

«Abandonado a si próprio, numa sociedade hiper-individualista, o indivíduo hiper-moderno é frágil.»

«Mas só uma outra paixão poderá permitir reduzir a paixão consumista; temos de inventar uma pedagogia, uma política das paixões, capaz de mobilizar os afectos fora do consumível, da compra: no trabalho, no desejo, na criação, na arte. Temos de criar uma ecologia mais equilibrada da existência.»

«A felicidade foge obstinadamente ao controlo humano. É ilusório pensar que podemos construir a felicidade.»


P.S. post escrito ao som de Snow Abides, de Michael Cashmore.

junho 02, 2007

A pequena Annie

Annie Bandez, Annie Anxiety, Little Annie. Três nomes para a mesma artista. Chega-nos de Nova Iorque, pela mão de Antony (sim, o "nosso" Antony...). Annie é pintora, escritora, dançarina, artista de spoken word, actriz (apareceu em vários filmes e peças). Na música, abraça avant-garde, hip-hop, rap, punk, electrónica, reggae e rock. Já lhe chamaram "diva punk do cabaret pós-moderno"...


O seu último álbum, Songs from de coal mine canary, é produzido por outra pérola que emergiu do submundo artístico nova-iorquino, Antony (dos Antony and the Johnsons). "Rock cabaret" talvez sintetize bem a ambiência deste conjunto magnífico de canções. Com estes ingredientes, Annie, que em Março passado passou por Serralves, no Porto, não nos dá qualquer hipótese de fuga. Para ouvir e descobrir. Com carácter de urgência.

maio 29, 2007

Em memória de Chet Baker

A trompete de Chet Baker é uma mulher fatal.

maio 26, 2007

maio 25, 2007

Especial sobre os 40 anos de Sgt. Pepper's


O tampabay.com montou uma pequena narrativa multimédia especial sobre os 40 anos de um dos mais fabulosos álbuns da era rock: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Vale a pena navegar.

maio 21, 2007

Fotograma: Bruno Ganz

Bruno Ganz fotografado por Henri Alekan no filme As Asas do Desejo, de Wim Wenders

maio 20, 2007

Lila Downs

Lila Downs terá atingido o pico da visibilidade mundial quando apareceu, ao lado de Caetano Veloso, a cantar na cerimónia dos Oscars um tema da premiada banda sonora do filme Frida.

Mas nem assim, e em particular em Portugal, lhe parecem dar o devido valor. Lila Downs, mexicana, filha de mãe índia, mas criada nos Estados Unidos, tem poucos álbuns, quase todos muito bons, com relevo para o fabuloso Border (La Linea). Fiquei desolado quando, há alguns anos, ela veio cantar ao Porto para uma plateia deprimentemente escassa nos jardins do Palácio de Cristal.

O tema deste vídeo, El Feo, faz parte de Border, um álbum sem o qual qualquer colecção de música étnica, ou world, como lhe queiram chamar, estará irreparavelmente manca.