abril 19, 2007

Joni Mitchell, pintora de música e palavras

Um dia, o professor de pintura de Joni Mitchell disse-lhe que ela também pintava com música e palavras. É o que tem feito, de forma brilhante, nas últimas quatro décadas. Ela mesma diz (canta) que vive dentro de uma caixa de tintas:

"Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
Im frightened by the devil
And Im drawn to those ones that aint afraid
I remember that time that you told me, you said
Love is touching souls
Surely you touched mine
Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time "



Tem muita vida, muita estrada, muito contado e ainda por cantar, esta canadiana encantadora a quem chegaram a chamar "o Bob Dylan no feminino". Arrastou atrás de si o folk, o pop, o rock, o jazz, a música clássica. Sempre insatisfeita, invariavelmente inquieta, militantemente iconoclasta e independente. Construiu uma carreira sólida até chegar onde está hoje: madura, completa, linda como os seus 63 anos. Junto as minhas a estas palmas todas:

abril 14, 2007

Michael Cashmore sob a luz de Antony

Michael Cashmore é, por enquanto, um ilustre desconhecido à beira de nomes como Marc Almond (ex-Soft Cell) e Nick Cave. Mas já trabalhou com eles. No seu segundo e recente mini-álbum, The Snow Abides, o músico fez uma escolha fenomenal, ao convidar Antony para lhe dar voz.

The Snow Abides tem apenas cinco temas, calminhos, embalados a piano e cordas. As letras são de David Tibet, enquanto as músicas são compostas e tocadas por Cashmore.





abril 12, 2007

Música para incenso

Casa da Música, 2006. Ryuichi Sakamoto toca. Aos pés do piano, arde incenso. O fumo sobe, em câmara lenta, serpenteando no ar ao ritmo sereno da música. Ao fundo, o ecrã electrónico pisca ao bater nas teclas. Alva Noto está ao computador. Momento Zen.

abril 09, 2007

Tom Tykwer: três filmes

Com o recente Perfume - História de um Assassino, Tom Tykwer confirmou que é um realizador a seguir com alguma atenção.

Primeiro, surpreendeu-nos com um filme interessantíssimo, Corre Lola Corre (1998), falado em alemão, no qual mistura desenho animado e imagens "reais". Como é de calcular, não foi nenhum blockbuster. Mas, já aí, este alemão mostrava um toque pessoal na realização.
Mais tarde, pegou num argumento escrito por Kieslowski e fez o seu primeiro filme em inglês: Heaven - Por Amor (2002), com Cate Blanchett à cabeça. Também aqui, Tykwer, sem ser brilhante, deixou a sua marca, traduzida no modo como filma, na respiração que permite às cenas, a maneira como capta e enquadra os rostos.



Ao pegar num mega-êxito de vendas, o livro O Perfume, de Patrick Süskind (lê-se lindamente, como se fosse um guião de cinema), Tykwer resistiu à tentação de decalcar as normas e ritmos das típicas produções de Hollywood. O filme é muito acessível, mas não deixa de ter lá um certo estilo distendido, algo contemplativo, sensível, que o realizador imprime às suas narrativas.

Acresce que Tykwer escolhe sempre argumentos acima da média, fotografa bem os seus filmes e mostra bom gosto nas bandas sonoras.

abril 05, 2007

O que é que a Joanna tem?

Tal como Rufus Wainwright, Joanna Newson nasceu numa família de músicos. Aos sete anos de idade, trocou o piano pela harpa, instrumento com o qual hoje encanta meio mundo no campo da "indie folk", e não só.

Entre as suas referências estão nomes como Patti Smith e Billie Holiday. Chegou a tocar em concertos de Cat Power (cantora a seguir com muita atenção) e Devendra Banhart. Andou sempre bem inspirada e acompanhada, portanto.

É californiana, tem 25 anos, dois álbuns editados, voz meiga, quase infantil, e actua no Theatro Circo, em Braga, no próximo dia 3.

Depois de vermos este vídeo, realizado por Terri Timely, a pergunta é: como resistir ao canto de uma sereia destas?

abril 04, 2007

Fotograma: Irène Jacob

Irène Jacob fotografada por Piotr Jaxa para o filme Vermelho, de Kieslowski.


abril 02, 2007

CocoRosie: elas estão de volta

A "tribo" do Antony está, há muito, familiarizada com a sonoridade peculiar das manas CocoRosie. Sierra e Bianca são um pouco desconcertantes, quer nas vocalizações, quer a nível instrumental. O resultado é algo a que alguns chamam "indie-folk-tronic", estranha designação que só por si apela à descoberta.

O seu último álbum, Adventures of Ghosthorse and Stillborn, com uma capa muito sugestiva, começa agora a chegar às lojas de discos. As primeiras audições não desiludem, bem pelo contrário. Há aqui muito material interessante a descobrir. E este é apenas o terceiro álbum delas, do qual passo aqui o tema Rainbowarriors. Logo a seguir, Beautifull Boyz, do álbum anterior, em que as Coco se juntam a Antony. Uma mistura agradavelmente explosiva. E viciante...



abril 01, 2007

março 28, 2007

Beethoven humano, demasiadamente humano

Beethoven morreu no dia 26 de Março de 1827, fez anteontem 180 anos. Chamavam-lhe "a besta". Tinha mau feitio. Abençoado mau génio, que nos deixou música divina para a eternidade.

Coincidência ou não, acaba de ser editado em DVD o filme Corrigindo Beethoven, da realizadora polaca Agnieszka Holland, que chegou a trabalhar com Kieslowski na trilogia Três Cores.

Holland não fez um filme brilhante, mas conseguiu algumas passagens dignas de registo. Ed Harris compôs um Beethoven credível, mas Gary Oldman (até pelo seu natural mau humor) foi mais convincente em Immortal Beloved, de Bernard Rose (1994).

Holland revela-nos os extremos do compositor alemão em final de vida, surdo, inconformado com esta sua sorte, definitivamente zangado com Deus. Um Beethoven para além do mito, demasiadamente humano, afinal.

Ira: «A minha religião é a solidão!», grita Beethoven para a assustada jovem copiadora (e correctora) das suas partituras da 9ª sinfonia.

Doçura, na frase mais reveladora de todo o filme: «A música é a linguagem de Deus. Os músicos estão tão próximos de Deus quanto é possível aos homens. Ouvimos a Sua voz. Lemos-Lhe os lábios.»

O excerto que se segue corresponde ao clímax de Corrigindo Beethoven: a estreia, em Viena, da celebérrima 9ª, que o próprio Beethoven insistiu em dirigir, surdo como estava, com a ajuda da sua copista. Um pedaço de génio em estado puro.

março 24, 2007

Sócrates, Woody Allen, cinema, filosofia

Vou a meio e estou a gostar muito de O Que Sócrates diria a Woody Allen, livro em que Juan Antonio Rivera, professor catedrático de filosofia na Universidade de Barcelona, disserta sobre cinema e filosofia, duas paixões eternas.

Sinopse: “O que Sócrates diria a Woody Allen” é um livro que relaciona de um modo muito sugestivo questões que afectam profundamente as pessoas no seu dia a dia (o amor, a felicidade, o destino, a vontade, o desespero, a morte, etc.), e pensadas por filósofos como Sócrates, Platão, Kant, Nietsche, com grandes clássicos do cinema que as explicam (desde Citizen Kane e Casablanca até Hannah e as suas Irmãs, Matrix e Desafio Total, por exemplo). É uma obra que interessa ao público que gosta de cinema e a todos os que se preocupam com aquelas questões existenciais. O original espanhol ganhou um importante prémio e foi um best-seller em Espanha com sucessivas edições.» (Fnac)

Primeira citação sublinhada, a propósito do filme Há Lodo Cais, de Elia Kazan: «Esta é uma das vantagens do cinema como campo de treino para a discussão filosófica: a capacidade de nos proporcionar exemplos ricamente diferenciados para podermos apreciar um mesmo assunto de ângulos diferentes; e para distinguirmos os matizes que uma especulação mais abstracta e distante de uma ficção específica - que nos é oferecida assim e não de outra forma - não nos permitiria talvez apreciar, ou pelo menos não com tanta nitidez.»

Sei bem que o ritmo dos tempos que vivemos são pouco dados, quer à filosofia, quer à verdadeira fruição das imagens em movimento. Mais: ao nível do ensino, a filosofia vive autênticos dias de cerco. Livros como este são, por isso, de acarinhar com todo o empenho.

março 22, 2007

Arcade é fogo

Em altíssima rotação cá em casa andam os dois álbuns dos canadianos Arcade Fire: Funeral e Neon Bible. Graças a dois factores decisivos: as dicas de melómanas esclarecidas e o apadrinhamento da banda por Sua Alteza, David Bowie. Ei-los juntos e ao vivo, por entre guitarradas eléctricas à maneira antiga e o adoçante pop dos violinos.