fevereiro 06, 2007

Laurie Anderson, até que enfim!

Ouço Laurie Anderson há quase duas décadas. Nunca, em todos estes anos, pude ver nas nossas queridas televisões, públicas ou privadas, generalistas ou temáticas, grandes ou pequenas, boas e más, por cabo ou sem cabo, um único vídeo desta cantora (talvez seja redutor chamar-lhe só cantora...) pouco "popular".

Foi preciso chegar o YouTube para acabar com este jejum videográfico imposto pelos ecrãs feitos à medidas das massas. É um pouco como imaginar um iraniano a quem, de repente, puseram uma antena parabólica gratuita e legal no telhado com um milhão de canais à escolha.

O Superman é um dos temas mais conhecidos do primeiro álbum de Anderson, Big Science, de 1982, longe ainda dos tons mais melódicos de trabalhos mais recentes, como Strange Angels (belíssimo) ou Life on a String. Anderson voltará ao "MyTube" aqui no Travessias.

fevereiro 05, 2007

O Caravaggio em Jarman

Em muito boa hora, pela mão da nova editora Midas, chegaram ao mercado de DVD dois dos mais conhecidos filmes de Derek Jarman: Caravaggio e Wittgenstein.

Rever Caravaggio é uma festa para os sentidos. Um filme chiaroescuro, tal como as telas do pintor italiano do século XVII. Paredes nuas, luz oblíqua, vermelhos fortes, fundos pretos. Todo o filme respira Caravaggio. Ou não fosse o provocador realizador inglês formado em pintura.

Aqui e ali, um toque de Pasolini. Nos rostos, nos enquadramentos, nos ritmos, nas personagens fora das leis, artísticas e não só, do seu tempo. Caravaggio e Jarman viveram um pouco assim.

Os extras que a Midas fez incluir no DVD são óptimos, com destaque para um documentário sobre a vida de Jarman, que morreu de Sida, em 1994. Numa entrevista, o realizador diz que fez este filme virado para a tradição cinematográfica europeia (com destaque para a italiana) e não a dos Estados Unidos. Percebe-se que não ia à missa com os enlatados de Hollywood...

Segue-se um pequeno excerto do filme e um trabalho interessante que encontrei no YouTube com imagens de belíssimos quadros de Michelangelo Merisi da Caravaggio.:


fevereiro 04, 2007

Léo Ferré: La vie d'artiste

" Il te reste encore de beaux jours
Profites-en mon pauvre amour,
Les belles années passent vite." (para a Naná)

janeiro 29, 2007

Gira-vídeos: Radiohead, "Street Spirit"


Street Spirit ouve-se a preto e branco e vê-se por entre as sombras.

janeiro 28, 2007

'Mediamorfose' no Travessias

O Travessias está em plena mediamorfose experimental (o Roger Fidler que me perdoe o exagero...). O texto é cada vez mais acompanhado de fotografia e vídeo, graças à ajuda do YouTube, Google Video e quejandos. Portanto, está a transformar-se num híbrido, algures entre o blogue, o fotoblogue e o videoblogue. Experimentemos, pois os tempos, felizmente, estão para isso.

Quando se fala de música ou de cinema, por exemplo, aqueles sites de vídeo têm material fabuloso, recente ou antigo, que pura e simplesmente não "passa" nos nossos canais de televisão. Frank Zappa a gravar em estúdio em 1968? Um excerto do filme Caravaggio, de Derek Jarman? O trailer de Citizen Kane? A Laurie Anderson a contar uma das suas mirabolantes histórias? O Rufus a cantar uma música dos Beatles? O Antony ao vivo num programa de TV em dueto com Boy George? As CocoRosie ao vivo algures nos EUA? Foucault em amena cavaqueira filosófica com Chomsky?

Os canais de televisão tradicionais (generalistas e temáticos, sem excepção) deviam estar mais atentos ao que se está a passar em termos de "televisão" online. Para já, a reacção generalizada parece ser em tudo idêntica à que assistimos em 1995, 1996, quando a Internet começou a instalar-se: desprezo, menorização, desvalorização, etc.. Em geral, os média portugueses estranham muito e entranham pouco. E a muito custo.

janeiro 26, 2007

A Grace de Buckley

Grace é daqueles álbuns que devia, obrigatoria e incondicionalmente, estar incluído naqueles livros que agora se podem ver por aí com títulos do género 1000 albuns para ouvir antes de morrer. Se não está, devia estar.

O disco é todo bom, mas tem três momentos sublimes: o Corpus Christi Carol, um cântico composto por Benjamin Britten, Lilac Wine, um tema clássico imortalizado pela grande Nina Simone, e um magnífico Hallelujah, de Leonard Cohen.

janeiro 25, 2007

O mundo na China

Uma das principais personagens deste filme de Jia Zhang-ke é o telemóvel. Símbolo da entrada da China numa certa modernidade. Uma modernidade repetida, igual em todo O Mundo.

janeiro 17, 2007

Um anjo doido em Paris

O poster é atraente. O filme não lhe fica atrás. Paris, linda como sempre, a preto e branco. Angel-a. Um anjo doido, bom de morrer. Anja Garbarek a cantar. O melhor filme de Besson, como diz o João Lopes? Muito provavelmente. Fica na retina. Muito tempo depois de o vermos.




janeiro 09, 2007

Fragmentos do Iraque

Ora aqui está um documentário que, suspeito, terá vida muito difícil até chegar (se chegar) ao pobre mercado videográfico português. Intitula-se Iraq in Fragments e já tem uma dose razoável de prémios em vários festivais.

dezembro 24, 2006

Natal a caminho de Guantánamo

A Caminho de Guantánamo era um DVD que o Pai Natal, em jeito de puxão de orelhas a cidadãos mal informados, nuns casos, pessimamente formados, noutros casos, deveria pôr no sapatinho de George W. Bush, Tony Blair, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Paul Wolfowitz, Paulo Portas, José Manuel Fernandes, José María Aznar, Durão Barroso, Pacheco Pereira, João Carlos Espada e no do mais distraído colunista de toda a história da imprensa portuguesa: Luís Delgado.

dezembro 15, 2006

Parar para ver cinema

Greenaway tem razão: grande parte do cinema ocidental é demasiado verborreico. Tem texto a mais a impor-se à imagem. Poucas vezes se verifica o contrário. O povo é entretido com guiões romanceados ilustrados com fotografias em movimento.

O cinema (não confundir com filmes produzidos a martelo ou golpe marcial) que nos tem chegado do Oriente tem reposto uma certa, e refrescante, primazia da imagem.

Um exemplo recente é Ferro 3, do sul-coreano Kim Ki-duk. Passou discretamente nas salas e chegou há pouco tempo a DVD. Dois jovens invulgares conhecem-se, apaixonam-se, vivem uma vida estranha, quase sem proferirem uma palavra.

É um cinema sibilino. Vive do pequeno gesto, do toque à superfície, da eloquência do olhar, da placidez dos rostos. Deixa-nos um espaço amplo para a construção das personagens, que ora nos parecem vazias de sentido, ora nos fazem adivinhar um complexidade psicológica muito pouco óbvia. Permite-nos, para além disso, saborear a fotografia, o enquadramento, a cor, o contraste, a profundidade.

Em certo sentido, estamos perante um cinema purificador. Como o que Wong Kar-Wai, de Hong Kong, faz, de forma tocante, em Disponível para Amar.

Numa época de ditadura da actualidade, de urgência sem demora do "já e agora", de juventude hiperactiva e multitarefeira, de civilização "fast tudo", de cultura visual Playstation, às vezes, e parafraseando aquele anúncio da Becel, é bom parar, escutar o coração e ver filmes destes.


novembro 24, 2006

Lipovetsky: o indivíduo hipermoderno

Cada novo livro de Gilles Lipovetsky, autor do célebre A Era do Vazio, é uma tentação. O último acaba de ser publicado em Espanha, com o título Los Tiempos Hipermodernos.

Sinopse, também ela tentadora: «O "pós-moderno" chegou ao seu fim: passamos para a era "hipermoderna". Esta época caracteriza-se pelo hiperconsumo e o indivíduo hipermoderno: o hiperconsumo absorve e integra cada vez mais esferas da vida social e estimula o indivíduo a consumir para sua satisfação pessoal; o indivíduo hipermoderno, ainda que orientado para o hedonismo, sente a tensão que resulta de viver num mundo que se dissociou da tradição e enfrenta um futuro incerto. Os indivíduos estão corroídos pela angústia, o medo sobrepôs-se aos seus prazeres e a ansiedade à sua libertação.»

Esperemos qua alguma editora portuguesa esteja já a trabalhar no sentido de traduzir esta obra para português.

novembro 18, 2006

Uakti: ouro do Brasil

Eles tocam trompetim. Cachimbo. Borel. Taquará. Pius Pi. Sinos de madeira. Tatu. Panelário. Latinhas. Manfra. Trilobita. São mais de cinquenta instrumentos.

Eles tocam e fazem magia. Música celestial. Tocam Philip Glass, Bossa Nova, sonatas, samba. Tudo lindo. Chamam-se Uakti. O nome deriva de uma lenda indígena dos índios Tukano do Alto Rio Negro.

É descobri-los. Sem perder tempo. Têm um site impecável na Web, onde se pode entrar no universo musical deles.

Como podem tesouros destes permanecer tão desconhecidos em Portugal? Em bom brasileiro, como é que pode, cara?

novembro 17, 2006

novembro 11, 2006

Incidentes

Entro num salão de chá-restaurante vegetariano. Arquitectura clássica, retocada. Está quase vazio. É fim de tarde e duas velhinhas, muito velhinhas, conversam numa mesa ao fundo. O chá chega. Dos altifalantes sai a transmissão da missa da Rádio Renascença. Não há que enganar: estou na cidade dos bispos.