agosto 08, 2006

Incidentes

Dois homens, um deles velho, magro de tosse tabágica. Estão ao balcão da FNAC de Matosinhos. O mais novo tem pneu e bigode e gesticula muito. Tem um ar muito português. Ao fundo do balcão, um aviso sóbrio: «não fumar nesta zona». De repente, o bigodes latino passa-se. Urra: «Eu vou fumar aqui, tá a ouvir! Eu vou fumar aqui e mais nada!» Ao que o jovem empregado de balcão retorque, esmagado com tanta veemência bruta: «pronto, tá bem...»

Ao fundo do balcão, imaginei outro aviso: «a FNAC não serve cafés a bestas quadradas.»

julho 31, 2006

Inclinação para o massacre

O recente desvario facínora de Israel no Líbano fez-me recordar e reler uma passagem do livro A Ideia de Europa, de George Steiner:

«Somos bípedes capazes de sadismo indizível, ferocidade territorial, ganância, vulgaridade e todo o tipo de torpeza. A nossa inclinação para o massacre, para a superstição, para o materialismo e o egotismo carnívoro pouco se alterou durante a breve história da nossa estada na Terra.»

julho 28, 2006

Greenaway por ele mesmo

Acaba de ser colocado no mercado, pela Costa do Castelo Filmes, o DVD O ventre de um arquitecto, do realizador britânico Peter Greenaway. O filme é para rever com prazer garantido, mas o DVD traz um brinde cinéfilo fantástico.

Trata-se do documentário O alfabeto e o olho. É uma verdadeira aula de cinema dada pelo próprio Greenaway. O realizador explica a sua concepção de cinema e diz coisas que, para muitos cinéfilos, serão incómodas.

Por exemplo: um operador de câmara devia estudar pintura pelo menos durante três anos antes de alguém lhe passar uma câmara de filmar paras as mãos; os mais de cem anos que a história do cinema leva são constituídos maioritariamente por "textos ilustrados", isto é, filmes em que as imagens se limitam a apoiar a narrativa escrita; o cinema é uma arte boa de mais para ser deixada nas mãos de meros contadores de histórias.

O alfabeto e o olho inspira-se nos "mapas" (elementos, números, letras) que Greenaway usa nos seus filmes, nos quais a inspiração da pintura tem lugar de relevo. E ajuda-nos a ver as imagens em movimento com outro olhar.

julho 25, 2006

De olhares: 366 minutos de Itália

Seis horas de filme. Quatro décadas de Itália, mostradas a partir da história de uma família italiana, dos anos 60 até à actualidade. Obra de grande fôlego, filmada por Marco Tullio Giordana de forma sóbria, sensível e envolvente. A espessura das personagens, contrastada com momentos marcantes na vida colectiva de Itália, permite aguentar, sem quebras, a narrativa de... 366 minutos. A Melhor Juventude é para quem gosta de história com boas estórias dentro.

julho 23, 2006

Líbano

Já pode ser lido online um texto, lúcido e certeiro, que Vital Moreira escreveu recentemente no Público, a propósito do ataque israelita no sul do Líbano.

Começa assim: «Quando um Estado, para responder a uma acção bélica inimiga, resolve atacar alvos civis, matar gente inocente a esmo, destruir estradas e pontes, portos e aeroportos, centrais eléctricas e bairros urbanos, isso tem um nome feio: terrorismo. No caso, terrorismo de Estado. Na vertigem da violência que é o interminável conflito israelo-palestiniano, Israel adopta decididamente a mesma lógica fatal de que acusa os seus inimigos, ou seja, transformar os civis em carne para canhão.»

Vale a pena ler o resto de "Entre ruínas, ninguém leva a melhor".

julho 15, 2006

Israel destrambelhado

A propósito da destrambelhada e desproporcionada intervenção militar na Faixa de Gaza e no sul do Líbano por parte de Israel - esse estado que, por vezes, se comporta como um verdadeiro terrorista - o Monde faz hoje, em editorial, uma síntese perfeita:

«Depuis l'arrivée de George W. Bush à la Maison Blanche, les Etats-Unis ont abandonné leur rôle d'" honnête médiateur" et collent à la politique d'Israël, quelle qu'elle soit. Les Russes n'ont pas de stratégie particulière, sinon celle de rendre la vie difficile aux Américains. Les Européens ont du mal à se faire entendre, faute d'exister politiquement. Et, comme l'a montré une pathétique prestation vendredi soir au Conseil de sécurité, l'ONU est impuissante : elle est le reflet de la mauvaise volonté de tout le monde.»

julho 11, 2006

Laurie Anderson, Casa da Música

Quem perdeu o espectáculo de Laurie Anderson no Teatro São João não pode dar-se ao luxo de a deixar escapar, esta quinta-feira, na Casa da Música.

Quem a conhece e gosta, vai bisar. Nem que seja para a ouvir ler uma lista telefónica.

Quem ainda não descobriu esta pérola de talento, imaginação e rasgo, tem agora uma oportunidade fantástica. E logo na Casa da Música!

julho 10, 2006

De olhares: um palácio de Calatrava

Santiago Calatrava, Palácio das Artes Rainha Sofia, Valência, 2005

julho 09, 2006

A razão do improviso

«Improvisar é como viver um transe espiritual, não é algo que se possa analisar através da razão. A essência da improvisação é permitir que a música surja por si mesma.»

julho 04, 2006

De ouvido: Kate Bush

I found a book on how to be invisible
On the edge of the labyrinth
Under a veil you must never lift
Pages you must never turn
In the labyrinth
You stand in front of a million doors
And each one holds a million more
Corridors that lead to the world
Of the invisible

julho 03, 2006

O Porto, por enquanto

Umas vezes, o Porto (cidade...) dá vontade de emigrar: ruas sujas, pessoas porcas, casas a cair, mamarrachos a pulular, passeios a rebentar, polícias por aparecer, carros a acelerar, mau humor a dar com um pau, a noite deserta e os vizinhos estranhos e as pessoas sós.

Outras vezes, a velha Invicta redime-se e enche-nos de satisfação. A bela festa do São João na Casa da Música, a Casa da Música, as sardinhas assadas num restaurante patusco, a nova Praça do Marquês, o Metro a tempo e horas e as suas estações de primeiro mundo, o Sakamoto, a Laurie Anderson e a Lila Downs por cá, o café do Guarani que sabe cada vez melhor, o do Majestic também só que é mais caro, a nova avenida "Sizenta" em frente à Câmara que nos deixa com muitas dúvidas, os plátanos imponentes do jardim de Arca D'água (que já viram o rabinho a muito autarca incompetente), as camélias que perfumam o ar, o inacreditável (por ser tão grande e tão bonito) Parque da Cidade. E esse país das maravilhas que são os jardins de Serralves, onde podemos suspender a cidade no tempo e no espaço.

E o mar. Há sempre o mar casado com o rio para onde fugir quando o betão enoja e a ignorância da política se torna nauseabunda.

junho 27, 2006

De olhares: Aldo Moro, por outro lado

Em Bom Dia, Noite, Marco Bellocchio mergulha, em jeito de teatro filmado, na intimidade de um dos episódios mais tristes da Itália dos anos 70: o rapto e assassínio do ex-primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas.

Bellocchio dá-nos a ver um Moro em cativeiro profundamente humanista e cristão, ao mesmo tempo que pinta com tintas fortes, quase caricaturais, o argumentário básico das utopias revolucionárias dos brigadistas, para quem os mais "altos interesses" do proletariado justificavam qualquer morte ou assassínio.

Chiara - afinal, a personagem principal - é a única que ao longo do filme desliza das cegas certezas revolucionárias, que extrai de leituras de Marx e Engels, para o degelo da dúvida e da sensibilidade. Vemo-la chorar quando ouve Moro ler uma carta em voz alta. Diz que é de raiva, mas nós, deste lado do ecrã, sabemos que está a mentir.

Num sonho final, Chiara liberta Moro, enquanto os restantes membros das Brigadas dormem. Vemos Moro a passear na rua, com um ar de quem vai partir de novo para a vida. Mas, como se sabe, o fim foi de pesadelo.

O filme, escrito pelo próprio realizador, ganhou o prémio de melhor contribuição artística individual pelo argumento no Festival de Veneza, em 2003. O melhor da música dos Pink Floyd lá aparece como banda sonora.

junho 22, 2006

Travessias Digitais

No Travessias Digitais, o meu blogue temático, tenho falado de novidades em ciberjornais, na febre da chamada Web 2.0, na concentração dos media e em problemas que afectam o jornalismo português.

junho 21, 2006

Estrangeirismos and so on

Os linguistas portugueses deviam inventar, rapidamente e em força, um mata-moscas para dar cabo de umas melgas que andam por aí a enxamear o português preguiçoso:

"product placement", "project finance", "happy slapping", "news center", "car wash", "health center", "share" de não sei quantos por cento, "body building", "franchising", "cluster", "step", "fitness", "body combat", "body balance", "kickboxing", "Arrabida Place", "body pump", "personal training" (os ginásios abusam que se fartam), "downsizing", and so on.

junho 20, 2006

O mestre só

«Ensinar sem uma grave apreensão, sem uma reverência perturbada pelos riscos envolvidos, é uma frivolidade. Fazê-lo sem considerar as possíveis consequências individuais e sociais é cegueira. O grande ensino é aquele que desperta dúvidas, que encoraja a dissidência, que prepara o aluno para a partida («Agora deixa-me», ordena Zaratustra). No final, um verdadeiro Mestre deve estar só.»

George Steiner, As Lições dos Mestres