junho 11, 2006

Sakamoto: reaprender a ouvir

«No nosso estilo de vida a música é mais um produto de consumo. O excesso de música faz com que estabeleçamos com ela uma relação de quase indiferença. Pelo excesso, nivelamo-la de igual forma - a boa e a medíocre. Precisamos de silêncio (...) Temos de reaprender a ouvir. Saber estar no silêncio, é o princípio.»

Ryuichi Sakamoto

junho 08, 2006

Flash deslumbrante

Música e voz de Antony. Animação, em Flash, de Adam Shecter. Temas: The Lake e Mistery of Love.

Quem, depois de ver e ouvir isto, disser mal da Web e dessas "modernices" da "Intermete", leva!

junho 03, 2006

Google Video com Sonny Rollins

O vídeo vai dando passos largos na Web. Os formatos diversificam-se, a oferta expande-se e até os solavancos nas imagens estão menos penosos.

Num dos passeios pelo ciberespaço, encontrei, no Google Video, um interessantíssimo mini-documentário (um trabalho em Flash), com a duração de dez minutos, sobre o lançamento do próximo álbum do colosso do saxofone Sonny Rollins:

junho 02, 2006

Um dia de cão

Muitos dos nossos iluminados deputados passam toda a legislatura em ambiente de silly season. Mas, quando a época balnear começa, a perturbação agrava-se. Pior agora, que andam todos desvairados com a selecção. Vai daí, sai disto:

«O PSD apresentou um projecto de resolução que visa a instituição de um "dia nacional do cão"

Vossas Excelências querem mesmo ser levadas a sério?

maio 31, 2006

Esfaimados deputados

Depois da "balda da Páscoa", a "fominha do Mundial":

«Os cinco partidos com assento parlamentar acordaram ontem alterar a ordem de trabalhos da Assembleia da República, no próximo dia 21 de Junho, de forma a que a discussão plenária não coincida com a hora do jogo Portugal-México, a contar para o Mundial. A decisão, em conferência de líderes foi tomada por consenso, merecendo também a concordância do presidente da AR, Jaime Gama.» (DN)

A sorte destes esfaimados de bola, portentosos no tiro no pé parlamentar, é que estamos em Portugal. Já ninguém leva a mal...

maio 22, 2006

De olhares: Mitterrand e o jornalista

É um passeio pela história pessoal e política de François Mitterrand, mas é também a história de um jovem jornalista confrontado com a tarefa esmagadora de escrever as memórias daquele que foi uma das maiores figuras da história da França do século XX.

Donde, Uma Viagem pela história, realizado por Robert Guédiguian, pode ser visto através de dois ângulos, ambos estimulantes: o político e o jornalístico.

De Mitterrand, o essencial é mostrado ou sugerido ao longo do filme: o passado político rico e nebuloso, a filha "clandestina", a personalidade forte e culta, a luta política feroz, incluindo com a sua própria família política, etc..

Já o jovem jornalista, empregado numa revista, é uma personagem hesitante, assustada e indecisa perante a figura do presidente da República. A tarefa de o biografar absorve-o de tal modo que acaba por se divorciar. Oscila entre o deslumbramento pela figura de Mitterrand e o imperativo profissional de o confrontar com a "verdade", sobretudo em relação ao passado de alegadas ligações ao regime de Vichy.

O filme, ao contrário do que se poderia supor, não é esmagado pela figura de Mitterrand (interpretado, de forma brilhante, por Michel Bouquet). O realizador opta por dar espaço também à personagem do jornalista. E às suas contradições.

maio 18, 2006

De ouvido: Lisa Gerrard

Deste rosto sai uma voz do outro mundo. E digo isto quase literalmente. Etérea, profunda, mística, planante. Do passado? Do futuro? Talvez intemporal.

Chama-se Lisa Gerrard. Quem viu filmes como O Gladiador ou O Informador não estranhará tanto a sonoridade desta australiana que grava os seus discos mágicos no seu estúdio caseiro na Austrália rural.

Gerrard, que vem dos fabulosos Dead Can Dance, mistura muita coisa boa para os melhores ouvidos: Haendel, música iraniana, folk, ambiências mediterrânicas, asiáticas, árabes.

Aqui e ali, namora o canto gregoriano. Nos seus dois primeiros álbuns a solo, The Mirror Pool e Duality, há passagens que nos remetem, por exemplo, para a voz da soprano Montserrat Figueras, no magnífico El Cant de la Sibil-La (1400-1560), da editora AliaVox, de Jordi Savall.

Quando ouvida sem pruridos puristas ou limitações de casta musical, Gerrard é uma delícia absoluta. A luz de um bom par de velas é, por razões óbvias, um complemento indispensável à fruição melómana.

maio 12, 2006

De olhares: Caravaggio


















Chamamento de São Mateus
, 1602.

Watergates

Agora que o "Watergate francês", como lhe chama a imprensa, está ao rubro, mostrando a parte mais sórdida e sinistra da política contemporânea, é uma boa altura para revisitar Os Homens do Presidente.

Este filme, realizado por Alan J. Pakula, é um clássico absoluto na relação entre o jornalismo e o cinema e acaba, finalmente, de ser lançado em DVD no mercado português pela mão da Warner.

Um mergulho minucioso no jornalismo de investigação (o mais nobre, o mais desprezado...) e na podridão total do sistema na era Nixon.

E a história repete-se.

maio 01, 2006

Steiner e o anti-ensino

«Em termos estatísticos, o anti-ensino constitui praticamente a norma. Os bons professores - os que alimentam a chama nascente na alma do aluno - são talvez mais raros do que os músicos virtuosos ou os sábios.»

George Steiner, As Lições dos Mestres

abril 25, 2006

De olhares: imagens bordadas

Bordadeiras é filmado com a delicadeza, o pormenor, a paciência, que a bordadeira põe na feitura dos seus panos. É uma fina narrativa cinematográfica, vincadamente feminina.

Éléonore Faucher tece em imagens as vidas de duas mulheres. Uma, mais velha, acaba de sofrer a perda de um filho. A outra, muito jovem, também bordadeira, engravida de pai ausente. Espera uma filha. Mas sofre os constrangimentos da pressão social numa pequena povoação francesa. Ambas as mulheres acabam por se encontrar nas suas perdas.

Uma história simples e bem contada.

abril 23, 2006

Iraque, 300 mil mortos

A todos os que apoiaram a invasão ilegal e bárbara do Iraque, a todos aqueles que carpiram lágrimas de júbilo ao verem a estátua de Saddam cair, proponho o seguinte: numa das próximas noites de insónia, em vez de contarem carneiros, contem civis iraquianos mortos. Um a um. Crianças. Homens. Mulheres. Jovens. Velhos. Um a um. De um a 300 mil.

E tenham muito bons sonhos.


A ler:
São 300 mil mortos no Iraque (Expresso, 22.04.2006)

abril 22, 2006

A bola dos deputados

No parlamento português há, de facto, um grupo de deputados empenhado, responsável, competente e com razoável sentido do dever. O resto é um "clube de homens" para esquecer. Não admira, pois, que haja tão poucas mulheres por aquelas bandas com pachorra para os aturar.

Ontem, no fórum da TSF, a deputada Maria de Belém explicava que as sessões só acabam a horas decentes quando aqueles muitos senhores deputados que se babam por bola, e cujas orgásmicas discussões sobre o filosofia do esférico dá para imaginar ali nos Passos Perdidos, têm muita pressinha para ir ver o derby do dia.

Outros metem-se mesmo no avião, voam até Camp Nou e dizem que foram em nobre representação parlamentar.

Outros ainda, como o deputado Narana Coissoró, acham a coisa mais natural do mundo que o parlamento pare quando há um Benfica-Barcelona.

Junte-se a isto episódios como a "balda da Páscoa" e outros pouco edificantes, que os cidadãos não chegam a conhecer, e temos, não uma verdadeira casa da democracia, mas um abastardamento foleiro da mesma com a assinatura dos seus principais inquilinos.

Ou muita desta gente, que é suposto representar condignamente os portugueses, perdeu por completo a noção do ridículo ou então nunca na vida a chegou a ter.

abril 20, 2006

De olhares: sob o céu da Suécia

Há pelo menos duas coisas tocantes que Como se fosse o céu, filme do sueco Kay Pollak, nos mostra: a força da música na comunhão dos seres e a possibilidade da comunicação onde ela não existe.

Tem um belíssimo final infeliz.

abril 15, 2006

De ouvido: Kind of Blue

Esta noite - chove bastante lá fora - bateram-me à porta do ouvido. Fui ver quem lá vinha. Era um velho grupo de amigos. Com um ar meio dos anos cinquenta, Miles, Coltrane e Evans perguntaram se podiam entrar e tocar um Kind of Blue, soprado de mansinho, no meu gira-discos. Oh, meus caros, e isso é pergunta que se faça?