Pedro Rolo Duarte escreveu hoje, no DN, a propósito de um debate televisivo sobre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, aquela que é uma forte candidata a frase mais idiota do ano: «Pensei no que os anos me ensinaram: no jornalismo, quem não sabe fazer, ensina; e quem não sabe fazer nem ensinar, faz pareceres ou é crítico.»
março 08, 2006
março 02, 2006
Jornalismo e cinema: Clooney e Boorman
Este é dos tais filmes que dá para recomendar, sobretudo a jornalistas, estudantes de comunicação e docentes nesta área, de olhos fechados, isto é, sem ainda se ter visto: Boa Noite, e Boa Sorte, sob a batuta de George Clooney, teve uma estreia auspiciosa em Veneza. Estreia hoje nas salas portuguesas.Eis a sinopse, retirada do Cinecartaz do Público.pt: «A acção de "Boa Noite, e Boa Sorte" decorre nos primórdios do jornalismo televisivo, na América dos anos 50. O filme retrata o conflito verídico entre Edward R. Murrow, um "pivot" pioneiro na América dos anos 50, e o Senador Joseph McCarthy e a Comissão do Senado das Actividades Anti-Americanas. Graças à sua vontade de esclarecer o público, o inovador Murrow e a sua dedicada equipa da CBS desafiam pressões da empresa e dos patrocinadores ao analisar as mentiras e as tácticas rasteiras de McCarthy durante a sua "caça às bruxas" aos comunistas.»
Já agora, para quem se interessa pela temática dos media e do jornalismo, recomendo ainda dois filmes que chegaram recentemente ao mercado de DVD de aluguer: Crónicas, uma produção México/Equador, realizada por Sebastián Cordero, e o horripilantemente titulado Um Amor em África, cujo título no original é bem mais decente, In My Country, realizado por John Boorman.
O que poderá ver no interessante Crónicas: «O programa de televisão “Uma hora com a Verdade” é transmitido todas as noites de Miami para toda a América Latina, com as histórias sensacionalistas mais fortes que se podem encontrar. Para um desses programas, o apresentador Manolo Bonilla (John Leguizamo) voa para o Equador, na companhia da produtora Marisa (Leonor Watling) e o operador de imagem Ivan (José Maria Yazpik), seguindo a pista de um violador e assassino de crianças, conhecido como “O Monstro de Babahoyo”. A morte acidental de uma criança leva os habitantes de uma pequena povoação a quase linchar Vinicio Cepeda (Damián Alcázar), um humilde vendedor de Bíblias. A intervenção de Manolo salva a vida do homem. É uma grande história para o programa. Vinicio é mesmo encarcerado, por homicídio involuntário, e oferece a Manolo informações sobre o “Monstro”, a troco de uma reportagem sobre a sua injusta situação. Manolo aceita, atraído pelo lado obscuro que pressente em Vinicio, e começa a quebrar todas as regras, decidido a ser ele o herói que detém o assassino com as suas próprias mãos.» (PT Gate)
E em Um Amor em África, um filme mediano, onde Juliette Binoche enche, uma vez mais, todo o ecrã: «Langston Whitfield (Samuel L. Jackson) é um jornalista do Washington Post, enviado à Africa do Sul para cobrir as sessões da Comissão da Verdade e Reconciliação. Ele está apreensivo em relação à viagem, tal como está céptico relativamente ao processo de reconciliação, sentindo que é apenas uma forma de os perpetradores escaparem ao castigo. Anna Malan (Juliette Binoche) é uma poetisa africana que cobre as sessões para a rádio estatal sul africana e NPR nos Estados Unidos. Anna é uma entusiasta do processo, tem um grande respeito pelas tradições africanas nativas e tem grandes esperanças relativamente ao seu país. Como membros da imprenssa internacional, Anna e Langston encontram-se e estão instantaneamente em desacordo relativamente às suas perspectivas opostas das sessões. Mas, com o tempo, a experiência compartilhada de ouvir os testemunhos comoventes e dolorosos aproxima-os cada vez mais.» (PTGate)
fevereiro 27, 2006
De ouvido: Dylan actual
fevereiro 24, 2006
Arnaldo é poesia
Amor é Prosa, Sexo é Poesia é um bom livro para os actuais cronistas da imprensa portuguesa lerem e ficarem deprimidos, excepto se se chamarem Manuel Pina, Ferreira Alves ou Ferreira Fernandes.Publicada em forma de crónica no Globo e no Jornal do Brasil, a escrita de Arnaldo Jabor (sim, o cara que aparecia no Manhattan Connection) é uma explosão de criatividade, humor, acidez, frontalidade, beleza, ritmo, piada, invenção, amargura e ternura, ou seja, tudo aquilo que falha, ou falta, na esmagadora maioria dos cronistas dos principais jornais e revistas nacionais. São chatos de ler e não sabem escrever para leitor.
Jabor usa o "português com açucar" da escrita brasileira para nos deliciar, página a página, com as suas nostalgias do Rio de outrora, as recordações do avô inesquecível, o pai frio e distante, a vida rotineira da classe média carioca, os primeiros amores, as mulheres da vida de então e as de hoje (“os abismos das mulheres são venenosos, o seu mistério nos mata»), o carnaval que tinha outro sabor.
Aqui e ali, demole Bush e a América belicista, os terroristas fanáticos que actuam em nome do Islão, os políticos brasileiros corruptos, as mulheres que se resumem à condição de bunda, a frivolidade da sociedade de consumo. Tudo com imensa graça. Jabor é daqueles tipos que se pode dar ao luxo de escrever as coisas mais desagradáveis e frontais sem que o consigamos levar a mal.
Numa palavra: Amor é Prosa, Sexo é Poesia é um livro desempoeirado. Ainda bem. Para poeira, já basta a nossa.
O procurador, el matador
A fama do procurador Souto Moura já chegou a Espanha. Título do El País sobre o recente raid na redacção do 24 Horas: «"¡Levanten las manos del teclado!"
fevereiro 20, 2006
Para a Leonor, que acabou de chegar...
Isn't She Lovely
"Isn't she lovely
Isn't she wonderful
Isn't she precious
Less than one minute old
I never thought through love we'd be
Making one as lovely as she
But isn't she lovely made from love
Isn't she pretty
Truly the angel's best
Boy, I'm so happy"...
"Isn't she lovely
Isn't she wonderful
Isn't she precious
Less than one minute old
I never thought through love we'd be
Making one as lovely as she
But isn't she lovely made from love
Isn't she pretty
Truly the angel's best
Boy, I'm so happy"...
Stevie Wonder
fevereiro 13, 2006
Marcelo metralha
A rubrica dominical de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1 é um verdadeiro monólogo. Marcelo debita, ou melhor, metralha os argumentos em avalanche e a jornalista Sousa Dias limita-se praticamente a servir de microfone.
Sousa Dias é uma entrevistadora talentosa. Sabe ouvir. Mas, com Marcelo, limita-se quase só a ouvir. É uma pena. Melhor dizendo, é penoso.
fevereiro 10, 2006
Intolerâncias II
Vasco Pulido Valente, certeiríssimo, directo à essência da questão, no Público de hoje:
«Devemos tolerar o islão. Isto à superfície parece óbvio. Mas pede uma pergunta: também devemos tolerar a intolerância do islão?»
A tolerância subentende o princípio, razoável, da reciprocidade. Quando a tolerância não é mútua, há mutilação de uma das partes.
Freitas do Amaral explicava ontem, na SIC Notícias, que a minha liberdade de dar um murro em alguém termina a um milímetro do nariz desse mesmo alguém. Indiscutível. Só que a liberdade desse mesmo alguém me dar um murro termina igualmente a um milímetro do meu nariz. Quando ambas as partes se respeitam nas suas liberdades próprias, não há agressão.
A tolerância subentende o princípio, razoável, da reciprocidade. Quando a tolerância não é mútua, há mutilação de uma das partes.
Freitas do Amaral explicava ontem, na SIC Notícias, que a minha liberdade de dar um murro em alguém termina a um milímetro do nariz desse mesmo alguém. Indiscutível. Só que a liberdade desse mesmo alguém me dar um murro termina igualmente a um milímetro do meu nariz. Quando ambas as partes se respeitam nas suas liberdades próprias, não há agressão.
De olhares: Brokeback suave
Brokeback Mountain, o tal filme que o cowboy Bush já disse que não vai ver, é de registo suave. Não aquece muito, mas também não arrefece por aí além.Para a imensa América puritana, será uma obra radicalmente intragável, esta de Ang Lee. Para o mundo cinéfilo que tenha visto Querelle, de Fassbinder, por exemplo, o forte candidato aos oscars deste ano é perfeitamente inofensivo.
Brokeback vale pelo desempenho convicente dos dois principais protagonistas, pelo argumento interessante e, sobretudo, pela fina ironia de colocar dois cowboys durões do Wyoming, que vieram a casar e a ter filhos com as respectivas mulheres, a transar no meio da montanha num romance que atravessou duas décadas na clandestinidade. Acresce que a montanha em si é deslumbrante.
E pronto, o resto vai servir para aquecer a noite dos oscars e provocar montes de sorrisinhos amarelos de incomodidade aparvalhada.
fevereiro 08, 2006
Liberdades III
Vicente Jorge Silva, no DN de hoje:
«Em todo o caso, os fundamentalistas já podem cantar vitória: criaram um novo tabu e um novo factor de intimidação à liberdade de imprensa como valor essencial das sociedades seculares e democráticas. A prova está nas reacções temerosas e culpadas das diplomacias ocidentais, incluindo a americana, numa quase admissão da legitimidade da violência cega do fanatismo islamita. Só faltava desculparem-se pelo facto de a liberdade de imprensa ser politicamente incontrolável em democracia, o que os fundamentalistas, obviamente, se recusam a aceitar.»
Vale bem a pena ler o texto na íntegra: Caricaturas de Maomé e caricatura da democracia
«Em todo o caso, os fundamentalistas já podem cantar vitória: criaram um novo tabu e um novo factor de intimidação à liberdade de imprensa como valor essencial das sociedades seculares e democráticas. A prova está nas reacções temerosas e culpadas das diplomacias ocidentais, incluindo a americana, numa quase admissão da legitimidade da violência cega do fanatismo islamita. Só faltava desculparem-se pelo facto de a liberdade de imprensa ser politicamente incontrolável em democracia, o que os fundamentalistas, obviamente, se recusam a aceitar.»
Vale bem a pena ler o texto na íntegra: Caricaturas de Maomé e caricatura da democracia
fevereiro 07, 2006
Liberdades
O Público teve a feliz ideia de publicar, na sua edição de ontem, uma Brevíssima história da liberdade de expressão. As citações atravessam séculos de história e vão de Sócrates a Chomsky. Vale a pena transcrever algumas:
«Num estado livre, também as línguas devem ser livres.» Erasmo de Roterdão , 1516.
Esta é um já um clássico: «Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever.» Voltaire, 1770.
Ao seu bom velho estilo: «Goebbels era a favor da liberdade de expressão para as opiniões de que gostava. Estaline também. Quando se é a favor da liberdade de expressão, então é-se a favor da liberdade de expressão precisamente para opiniões que se desprezam.» Noam Chomsky, 1992.
As religiões nunca irão entender isto.
fevereiro 04, 2006
Intolerâncias
O primeiro-ministro dinamarquês tem toda a razão (a razão anda cada vez mais arredada das religiões) ao recusar pedir desculpa pelo facto de jornais do seu país terem publicado caricaturas de Maomé.
Tem razão Rasmussen ao explicar que o seu governo «não controla os meios de comunicação, são livres» e que por isso não pode pedir desculpa em nome deles. Tem razão ao lembrar aos muçulmanos que a liberdade de imprensa, sátira incluída, é um valor insubstituível na Dinamarca. Revela falta de coragem e clarividência a parte da classe política dinamarquesa que condena Rasmussem por defender estas razões.
Tiveram coragem jornais de outros países que publicaram caricaturas de Maomé como forma de afirmarem esse valor-chave das democracias ocidentais que é a liberdade de expressão. Foi o caso do diário espanhol El País.
De facto, as crenças religiosas, sejam elas quais forem, não devem, não podem, impor-se à liberdade de expressão onde quer que esta exista. Que isso aconteça em países muçulmanos, liberdade deles, problema deles. Que esses países queiram impor ditames de liberdade a outras civilizações, isso é revelador, no mínimo, de uma noção de tolerância civilizacional intolerável.
Mas as intolerâncias de raiz religiosa não escolhem religião. Há anos, defendi o direito que o cartonista do Expresso António tinha de caricaturar o Papa pondo-lhe um preservativo no nariz. Na altura, o povo católico também se levantou em coro contra a publicação deste boneco.
É precisamente nestas alturas que a liberdade, como valor absoluto, deve levantar-se e falar mais alto.
De facto, as crenças religiosas, sejam elas quais forem, não devem, não podem, impor-se à liberdade de expressão onde quer que esta exista. Que isso aconteça em países muçulmanos, liberdade deles, problema deles. Que esses países queiram impor ditames de liberdade a outras civilizações, isso é revelador, no mínimo, de uma noção de tolerância civilizacional intolerável.
Mas as intolerâncias de raiz religiosa não escolhem religião. Há anos, defendi o direito que o cartonista do Expresso António tinha de caricaturar o Papa pondo-lhe um preservativo no nariz. Na altura, o povo católico também se levantou em coro contra a publicação deste boneco.
É precisamente nestas alturas que a liberdade, como valor absoluto, deve levantar-se e falar mais alto.
fevereiro 03, 2006
Espanha cresce
A Espanha, como se sabe, tem registado um crescimento económico espantoso, ainda mais se comparado com as nossa raquítica economia. Mas os espanhóis, pela mão de Zapatero, têm "crescido" ainda mais a nível social: separando claramente as águas entre igreja e Estado (em Portugal, mantém-se a nebulosidade); permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo (em Portugal, a classe política assobia para o lado); proibindo o fumo em locais públicos, de trabalho, restaurantes, etc. (em Portugal, há médicos que fumam em hospitais e os políticos, esses, continuam a fumar para o lado sobre o assunto); não condenando à prisão mulheres que abortam (em Portugal, continuamos, neste capítulo, na Idade Média).
Mas a Espanha permite ainda os touros de morte. Enfim, ninguém é perfeito...
Mas a Espanha permite ainda os touros de morte. Enfim, ninguém é perfeito...
fevereiro 02, 2006
De ouvido: Joni Mitchell
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