fevereiro 10, 2006

Intolerâncias II

Vasco Pulido Valente, certeiríssimo, directo à essência da questão, no Público de hoje:

«Devemos tolerar o islão. Isto à superfície parece óbvio. Mas pede uma pergunta: também devemos tolerar a intolerância do islão?»

A tolerância subentende o princípio, razoável, da reciprocidade. Quando a tolerância não é mútua, há mutilação de uma das partes.

Freitas do Amaral explicava ontem, na SIC Notícias, que a minha liberdade de dar um murro em alguém termina a um milímetro do nariz desse mesmo alguém. Indiscutível. Só que a liberdade desse mesmo alguém me dar um murro termina igualmente a um milímetro do meu nariz. Quando ambas as partes se respeitam nas suas liberdades próprias, não há agressão.


De olhares: Brokeback suave

Brokeback Mountain, o tal filme que o cowboy Bush já disse que não vai ver, é de registo suave. Não aquece muito, mas também não arrefece por aí além.

Para a imensa América puritana, será uma obra radicalmente intragável, esta de Ang Lee. Para o mundo cinéfilo que tenha visto Querelle, de Fassbinder, por exemplo, o forte candidato aos oscars deste ano é perfeitamente inofensivo.

Brokeback vale pelo desempenho convicente dos dois principais protagonistas, pelo argumento interessante e, sobretudo, pela fina ironia de colocar dois cowboys durões do Wyoming, que vieram a casar e a ter filhos com as respectivas mulheres, a transar no meio da montanha num romance que atravessou duas décadas na clandestinidade. Acresce que a montanha em si é deslumbrante.

E pronto, o resto vai servir para aquecer a noite dos oscars e provocar montes de sorrisinhos amarelos de incomodidade aparvalhada.

fevereiro 08, 2006

Liberdades III

Vicente Jorge Silva, no DN de hoje:

«Em todo o caso, os fundamentalistas já podem cantar vitória: criaram um novo tabu e um novo factor de intimidação à liberdade de imprensa como valor essencial das sociedades seculares e democráticas. A prova está nas reacções temerosas e culpadas das diplomacias ocidentais, incluindo a americana, numa quase admissão da legitimidade da violência cega do fanatismo islamita. Só faltava desculparem-se pelo facto de a liberdade de imprensa ser politicamente incontrolável em democracia, o que os fundamentalistas, obviamente, se recusam a aceitar.»

Vale bem a pena ler o texto na íntegra: Caricaturas de Maomé e caricatura da democracia

fevereiro 07, 2006

Liberdades II



«Freedom is a scary thing /
Not many people really want it
»

Liberdades

O Público teve a feliz ideia de publicar, na sua edição de ontem, uma Brevíssima história da liberdade de expressão. As citações atravessam séculos de história e vão de Sócrates a Chomsky. Vale a pena transcrever algumas:

«Num estado livre, também as línguas devem ser livres.» Erasmo de Roterdão , 1516.

Esta é um já um clássico: «Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever.» Voltaire, 1770.

Ao seu bom velho estilo: «Goebbels era a favor da liberdade de expressão para as opiniões de que gostava. Estaline também. Quando se é a favor da liberdade de expressão, então é-se a favor da liberdade de expressão precisamente para opiniões que se desprezam.» Noam Chomsky, 1992.

As religiões nunca irão entender isto.

fevereiro 04, 2006

Intolerâncias

O primeiro-ministro dinamarquês tem toda a razão (a razão anda cada vez mais arredada das religiões) ao recusar pedir desculpa pelo facto de jornais do seu país terem publicado caricaturas de Maomé.

Tem razão Rasmussen ao explicar que o seu governo «não controla os meios de comunicação, são livres» e que por isso não pode pedir desculpa em nome deles. Tem razão ao lembrar aos muçulmanos que a liberdade de imprensa, sátira incluída, é um valor insubstituível na Dinamarca. Revela falta de coragem e clarividência a parte da classe política dinamarquesa que condena Rasmussem por defender estas razões.

Tiveram coragem jornais de outros países que publicaram caricaturas de Maomé como forma de afirmarem esse valor-chave das democracias ocidentais que é a liberdade de expressão. Foi o caso do diário espanhol El País.

De facto, as crenças religiosas, sejam elas quais forem, não devem, não podem, impor-se à liberdade de expressão onde quer que esta exista. Que isso aconteça em países muçulmanos, liberdade deles, problema deles. Que esses países queiram impor ditames de liberdade a outras civilizações, isso é revelador, no mínimo, de uma noção de tolerância civilizacional intolerável.

Mas as intolerâncias de raiz religiosa não escolhem religião. Há anos, defendi o direito que o cartonista do Expresso António tinha de caricaturar o Papa pondo-lhe um preservativo no nariz. Na altura, o povo católico também se levantou em coro contra a publicação deste boneco.

É precisamente nestas alturas que a liberdade, como valor absoluto, deve levantar-se e falar mais alto.

fevereiro 03, 2006

Espanha cresce

A Espanha, como se sabe, tem registado um crescimento económico espantoso, ainda mais se comparado com as nossa raquítica economia. Mas os espanhóis, pela mão de Zapatero, têm "crescido" ainda mais a nível social: separando claramente as águas entre igreja e Estado (em Portugal, mantém-se a nebulosidade); permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo (em Portugal, a classe política assobia para o lado); proibindo o fumo em locais públicos, de trabalho, restaurantes, etc. (em Portugal, há médicos que fumam em hospitais e os políticos, esses, continuam a fumar para o lado sobre o assunto); não condenando à prisão mulheres que abortam (em Portugal, continuamos, neste capítulo, na Idade Média).

Mas a Espanha permite ainda os touros de morte. Enfim, ninguém é perfeito...

fevereiro 02, 2006

De ouvido: Joni Mitchell

«I’ve looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all
I’ve looked at life from both sides now
From up and down, and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all»

janeiro 30, 2006

De olhares

A próxima vez que me perguntarem qual é a minha religião (coisa que, aliás, hoje ninguém pergunta, receando talvez a resposta), respondo com aquela frase do personagem do filme Exílios, de Tony Gatlif: «A minha religião é a música».

Por causa desta religião, nunca houve nenhuma guerra.

janeiro 13, 2006

De olhares: Ivan, o Terrível


Esta não é apenas uma imagem de marca de Eisenstein. É uma marca que fica.

janeiro 06, 2006

Agora, um pássaro

Meio a sério, meio a brincar, há quem diga que quando ouve Antony cantar fica com vontade de cortar os pulsos.

Não é, definitivamente, caso para tão desesperado acto, mas Antony tem, de facto, uma voz que puxa sobremaneira para o lado do trágico. Um trágico abismal em que pouco demoramos a mergulhar, sem grandes resistências, diga-se de passagem.

Os dois únicos álbuns desta figura exótica, dilacerada por ambiguidades de natureza sexual, foram uma das melhores descobertas melómanas de 2005. Chegaram por mão amiga, estava já 2006 à vista. E conquistaram aqui a casa num fósforo de uma lareira.

Estilo? Recorro à ajuda do All Music Guide: pop de câmara, cabaret. Com Lou Reed e Rufus à mistura, no belíssimo I'm a bird now.

Antony and the Johnsons: um nome a fixar, seguir e ouvir. Mais vale tarde que nunca...

janeiro 03, 2006

Votos impressos para 2006

Em 2006, gostava que os jornais portugueses que leio (Público, DN e Expresso à cabeça) fizessem mais jornalismo de investigação (já ouço as gargalhadas do pessoal nas redacções...); contextualizassem melhor os assuntos; me chapassem muito menos com o telejornal da noite anterior nas páginas; mandassem a agenda das conferências de imprensa e dos bitaites dos políticos de serviço às malvas; mandassem alguns colunistas profundamente chatos, nuns casos, e altamente duvidosos, noutros casos, dar uma volta ao bilhar grande do 24 Horas, esse excelente diário de trágica qualidade; apostassem, a sério, na reportagem fotográfica e na infografia; abandonassem de vez as tentações fashion, people e de humor de pechisbeque, do tipo que o Expresso faz na sua Revista; abrissem as páginas a novas áreas temáticas.

Enfim, já sei, são votos de um simples leitor. Do outro lado, isso exigiria bons "patrões", bons directores, bons editores, bons repórteres... E, do lado de cá, bons leitores, claro.

Mas esse país assim ainda está por inventar.

dezembro 15, 2005

Cinema e jornalismo à grande e à francesa

Para quem gosta muito de jornalismo e outro tanto de cinema, esta é uma publicação a colocar desde já no topo das prioridades de Natal: Print the Legend - Cinéma et Journalisme, editada pelos Cahiers du Cinéma.

Trata-se de uma obra colectiva, com diversos textos sobre muitos dos maiores filmes em que o jornalismo é o tema central. Estão lá os grandes clássicos, da envergadura de um Citizen Kane ou de um Blow Up, mas também filmes mais recentes, como O Informador, Shattered Glass - Verdade ou Mentira ou Live from Bagdad (ainda não disponível em Portugal).

Nas páginas finais, encontramos uma lista com mais de 300 obras, abrangendo os séculos XIX, XX e XXI! Imperdível.

dezembro 10, 2005

Desencontros críticos

Tem que se ter cada vez mais cuidado com os críticos de cinema que lemos na imprensa portuguesa. Umas vezes, arrumam à golpada impiedosa certas fitas que, afinal, não são tão más como as pintam. Bem pelo contrário. Outras vezes, sobrevalorizam obras que, quando se vai a ver, não têm correspondência com os encómios impressos.

Um exemplo, recente: Os Sonhadores, de Bertolucci, foi, em geral, reduzido a pouco mais que um devaneio erótico juvenil inconsequente com o Maio de 68 como pano de fundo, ao mesmo tempo que Charlie e a Fábrica de Chocolate era acolhido com gongorismo entusiástico pela generalidade dos escribas. Vai-se a ver e...

dezembro 06, 2005

Escritas à solta

Há sempre o prazer de regressar à escrita. À sedução das ideias. A fuga à rotina implacável da banalidade. As Lições dos Mestres, sobre essa arte maior que é ensinar, e A Ideia de Europa, ambos de George Steiner, pedem, com urgência, para ser lidos. O último de Alberto Pimenta, Marthiya de Abdek Hamid, desperta a curiosidade. Bater, poeticamente, na administração Bush?

E depois há aqueles livros que já deviam ter sido lidos há muito. Uma Apologia dos Ociosos, de Robert Louis Stevenson, o tal que, no século XIX, escreveu O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde. Da Brevidade da Vida, de Séneca. Contra a Interpretação e Outros Ensaios, de Susan Sontag. Os Criadores, de Boorstin. E tempo? E o tempo?

Mas há também os pequenos pedaços de textos de jornal que vale a pena sublinhar e reler. Este, por exemplo, do último Expresso: «Por esta altura, estava já generalizada a convicção aristotélica de que todos os homens excepcionais são melancólicos. O melancólico medita, segue a imaginação apoiando-se na memória, descobre, inventa, correlaciona e cria. A melancolia passa a ser a mais poderosa metáfora da imaginação ocidental.» (Jorge Calado).