fevereiro 07, 2006

Liberdades

O Público teve a feliz ideia de publicar, na sua edição de ontem, uma Brevíssima história da liberdade de expressão. As citações atravessam séculos de história e vão de Sócrates a Chomsky. Vale a pena transcrever algumas:

«Num estado livre, também as línguas devem ser livres.» Erasmo de Roterdão , 1516.

Esta é um já um clássico: «Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever.» Voltaire, 1770.

Ao seu bom velho estilo: «Goebbels era a favor da liberdade de expressão para as opiniões de que gostava. Estaline também. Quando se é a favor da liberdade de expressão, então é-se a favor da liberdade de expressão precisamente para opiniões que se desprezam.» Noam Chomsky, 1992.

As religiões nunca irão entender isto.

fevereiro 04, 2006

Intolerâncias

O primeiro-ministro dinamarquês tem toda a razão (a razão anda cada vez mais arredada das religiões) ao recusar pedir desculpa pelo facto de jornais do seu país terem publicado caricaturas de Maomé.

Tem razão Rasmussen ao explicar que o seu governo «não controla os meios de comunicação, são livres» e que por isso não pode pedir desculpa em nome deles. Tem razão ao lembrar aos muçulmanos que a liberdade de imprensa, sátira incluída, é um valor insubstituível na Dinamarca. Revela falta de coragem e clarividência a parte da classe política dinamarquesa que condena Rasmussem por defender estas razões.

Tiveram coragem jornais de outros países que publicaram caricaturas de Maomé como forma de afirmarem esse valor-chave das democracias ocidentais que é a liberdade de expressão. Foi o caso do diário espanhol El País.

De facto, as crenças religiosas, sejam elas quais forem, não devem, não podem, impor-se à liberdade de expressão onde quer que esta exista. Que isso aconteça em países muçulmanos, liberdade deles, problema deles. Que esses países queiram impor ditames de liberdade a outras civilizações, isso é revelador, no mínimo, de uma noção de tolerância civilizacional intolerável.

Mas as intolerâncias de raiz religiosa não escolhem religião. Há anos, defendi o direito que o cartonista do Expresso António tinha de caricaturar o Papa pondo-lhe um preservativo no nariz. Na altura, o povo católico também se levantou em coro contra a publicação deste boneco.

É precisamente nestas alturas que a liberdade, como valor absoluto, deve levantar-se e falar mais alto.

fevereiro 03, 2006

Espanha cresce

A Espanha, como se sabe, tem registado um crescimento económico espantoso, ainda mais se comparado com as nossa raquítica economia. Mas os espanhóis, pela mão de Zapatero, têm "crescido" ainda mais a nível social: separando claramente as águas entre igreja e Estado (em Portugal, mantém-se a nebulosidade); permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo (em Portugal, a classe política assobia para o lado); proibindo o fumo em locais públicos, de trabalho, restaurantes, etc. (em Portugal, há médicos que fumam em hospitais e os políticos, esses, continuam a fumar para o lado sobre o assunto); não condenando à prisão mulheres que abortam (em Portugal, continuamos, neste capítulo, na Idade Média).

Mas a Espanha permite ainda os touros de morte. Enfim, ninguém é perfeito...

fevereiro 02, 2006

De ouvido: Joni Mitchell

«I’ve looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all
I’ve looked at life from both sides now
From up and down, and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all»

janeiro 30, 2006

De olhares

A próxima vez que me perguntarem qual é a minha religião (coisa que, aliás, hoje ninguém pergunta, receando talvez a resposta), respondo com aquela frase do personagem do filme Exílios, de Tony Gatlif: «A minha religião é a música».

Por causa desta religião, nunca houve nenhuma guerra.

janeiro 13, 2006

De olhares: Ivan, o Terrível


Esta não é apenas uma imagem de marca de Eisenstein. É uma marca que fica.

janeiro 06, 2006

Agora, um pássaro

Meio a sério, meio a brincar, há quem diga que quando ouve Antony cantar fica com vontade de cortar os pulsos.

Não é, definitivamente, caso para tão desesperado acto, mas Antony tem, de facto, uma voz que puxa sobremaneira para o lado do trágico. Um trágico abismal em que pouco demoramos a mergulhar, sem grandes resistências, diga-se de passagem.

Os dois únicos álbuns desta figura exótica, dilacerada por ambiguidades de natureza sexual, foram uma das melhores descobertas melómanas de 2005. Chegaram por mão amiga, estava já 2006 à vista. E conquistaram aqui a casa num fósforo de uma lareira.

Estilo? Recorro à ajuda do All Music Guide: pop de câmara, cabaret. Com Lou Reed e Rufus à mistura, no belíssimo I'm a bird now.

Antony and the Johnsons: um nome a fixar, seguir e ouvir. Mais vale tarde que nunca...

janeiro 03, 2006

Votos impressos para 2006

Em 2006, gostava que os jornais portugueses que leio (Público, DN e Expresso à cabeça) fizessem mais jornalismo de investigação (já ouço as gargalhadas do pessoal nas redacções...); contextualizassem melhor os assuntos; me chapassem muito menos com o telejornal da noite anterior nas páginas; mandassem a agenda das conferências de imprensa e dos bitaites dos políticos de serviço às malvas; mandassem alguns colunistas profundamente chatos, nuns casos, e altamente duvidosos, noutros casos, dar uma volta ao bilhar grande do 24 Horas, esse excelente diário de trágica qualidade; apostassem, a sério, na reportagem fotográfica e na infografia; abandonassem de vez as tentações fashion, people e de humor de pechisbeque, do tipo que o Expresso faz na sua Revista; abrissem as páginas a novas áreas temáticas.

Enfim, já sei, são votos de um simples leitor. Do outro lado, isso exigiria bons "patrões", bons directores, bons editores, bons repórteres... E, do lado de cá, bons leitores, claro.

Mas esse país assim ainda está por inventar.

dezembro 15, 2005

Cinema e jornalismo à grande e à francesa

Para quem gosta muito de jornalismo e outro tanto de cinema, esta é uma publicação a colocar desde já no topo das prioridades de Natal: Print the Legend - Cinéma et Journalisme, editada pelos Cahiers du Cinéma.

Trata-se de uma obra colectiva, com diversos textos sobre muitos dos maiores filmes em que o jornalismo é o tema central. Estão lá os grandes clássicos, da envergadura de um Citizen Kane ou de um Blow Up, mas também filmes mais recentes, como O Informador, Shattered Glass - Verdade ou Mentira ou Live from Bagdad (ainda não disponível em Portugal).

Nas páginas finais, encontramos uma lista com mais de 300 obras, abrangendo os séculos XIX, XX e XXI! Imperdível.

dezembro 10, 2005

Desencontros críticos

Tem que se ter cada vez mais cuidado com os críticos de cinema que lemos na imprensa portuguesa. Umas vezes, arrumam à golpada impiedosa certas fitas que, afinal, não são tão más como as pintam. Bem pelo contrário. Outras vezes, sobrevalorizam obras que, quando se vai a ver, não têm correspondência com os encómios impressos.

Um exemplo, recente: Os Sonhadores, de Bertolucci, foi, em geral, reduzido a pouco mais que um devaneio erótico juvenil inconsequente com o Maio de 68 como pano de fundo, ao mesmo tempo que Charlie e a Fábrica de Chocolate era acolhido com gongorismo entusiástico pela generalidade dos escribas. Vai-se a ver e...

dezembro 06, 2005

Escritas à solta

Há sempre o prazer de regressar à escrita. À sedução das ideias. A fuga à rotina implacável da banalidade. As Lições dos Mestres, sobre essa arte maior que é ensinar, e A Ideia de Europa, ambos de George Steiner, pedem, com urgência, para ser lidos. O último de Alberto Pimenta, Marthiya de Abdek Hamid, desperta a curiosidade. Bater, poeticamente, na administração Bush?

E depois há aqueles livros que já deviam ter sido lidos há muito. Uma Apologia dos Ociosos, de Robert Louis Stevenson, o tal que, no século XIX, escreveu O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde. Da Brevidade da Vida, de Séneca. Contra a Interpretação e Outros Ensaios, de Susan Sontag. Os Criadores, de Boorstin. E tempo? E o tempo?

Mas há também os pequenos pedaços de textos de jornal que vale a pena sublinhar e reler. Este, por exemplo, do último Expresso: «Por esta altura, estava já generalizada a convicção aristotélica de que todos os homens excepcionais são melancólicos. O melancólico medita, segue a imaginação apoiando-se na memória, descobre, inventa, correlaciona e cria. A melancolia passa a ser a mais poderosa metáfora da imaginação ocidental.» (Jorge Calado).

novembro 24, 2005

Nostalgia de mil anos de interregno

A cegueira das religiões, tantas vezes confiscadas e deturpadas por medíocres intérpretes terrenos de textos "sagrados", não conhece limites.

No Irão, dois homens foram enforcados por terem mantido relações homossexuais. O tribunal que os condenou baseou-se na sharia, uma legislação que interpreta de forma extremista o Corão.

Do "lado de cá", o Vaticano, ao mesmo tempo que vai varrendo para debaixo da sotaina os sucessivos escândalos com padres-pedófilos, proíbe o acesso de homossexuais ao sacerdócio, acentuando deste modo a vertente conservadora perfilada pelo papa precedente.

Por vezes, do Oriente ao Ocidente, o tempo parece não querer passar. Medo das luzes da razão ou nostalgia da Idade Média?


A ler:
Irán ahorca a dos hombres por mantener relaciones homosexuales
O Vaticano reage ao cerco

E a seguir?

«O presidente norte-americano, George W. Bush, planeou bombardear a Al-Jazeera, estação de televisão árabe no seu aliado Qatar, revelou um memorando altamente secreto, citado pelo Daily Mirror». (DN).

O New York Times que se cuide...

novembro 20, 2005

Nyman e a fuga dos leitores

O Público de hoje rebenta duas páginas da secção de Cultura com a festa revivalista disco sound, de anteontem à noite, no Pavilhão Atlântico. O DN traz três notícias na secção de Artes (nenhuma delas referente a acontecimentos fora de Lisboa). O JN (edição online), na secção de Cultura, também não dá uma linha que seja sobre o concerto de Michael Nyman na Casa da Música, na sexta-feira à noite.

Nyman teve sala quase cheia. Deu-nos a ouvir trechos de bandas sonoras que compôs, por exemplo, para filmes do realizador Peter Greenaway. Na segunda parte do concerto, acompanhou a projecção do filme, a todos os títulos brilhante, O Homem da Câmara de Filmar, de Dziga Vertov. Não foi, por isso, apenas mais um concerto no Porto.

Os jornais "de Lisboa", já se sabe, borrifam-se em permanência intermitente para o que se passa no Porto e, em geral, no norte. Na área da cultura, então, são uma catástrofe permanente. O centralismo jornalístico, por muito que tentem disfarçar com uma côdeas atiradas ao norte de vez em quando, é uma realidade indesmentível. Já os jornais "do Porto", andam, no mínimo, a ver as bolas passar...

Ninguém está à espera que o 24 Horas escreva uma prosa de primeira água sobre Nyman. Mas, quer os jornais ditos de referência, quer os jornais "do Porto", têm obrigações particulares nesta área. E deviam perceber que há coisas que não podem falhar. Espantam-se, depois, com a fuga dos leitores?

novembro 15, 2005

Beatles pelos dedos de Frisell

Bill Frisell provou, no concerto de ontem à noite, na Casa da Música, que ainda nem tudo foi dito sobre a música dos Beatles.

Acompanhado apenas por uma violinista, de cabelos verdes, e um outro guitarrista, que se entretinha a fazer deslizar sons na sua slide guitar (fazendo lembrar Ry Cooder), Frisell fez uma interpretação muito própria, ao seu estilo inconfundível, de clássicos dos Beatles. E fê-lo de uma forma quase experimental. Os temas, às vezes, começavam por ser ruídos de sintetizador, para irem evoluindo em direcção aos acordes reconhecíveis de clássicos da eterna banda de Liverpool.

Foi um concerto agradabilíssimo. Excepto, talvez, para o rapaz corpulento que estava à minha frente e cuja cabeça tombava de sono, ora para esquerda, ora para a direita, quando Frisell entrava no terreno do susurro da guitarra.