novembro 20, 2005

Nyman e a fuga dos leitores

O Público de hoje rebenta duas páginas da secção de Cultura com a festa revivalista disco sound, de anteontem à noite, no Pavilhão Atlântico. O DN traz três notícias na secção de Artes (nenhuma delas referente a acontecimentos fora de Lisboa). O JN (edição online), na secção de Cultura, também não dá uma linha que seja sobre o concerto de Michael Nyman na Casa da Música, na sexta-feira à noite.

Nyman teve sala quase cheia. Deu-nos a ouvir trechos de bandas sonoras que compôs, por exemplo, para filmes do realizador Peter Greenaway. Na segunda parte do concerto, acompanhou a projecção do filme, a todos os títulos brilhante, O Homem da Câmara de Filmar, de Dziga Vertov. Não foi, por isso, apenas mais um concerto no Porto.

Os jornais "de Lisboa", já se sabe, borrifam-se em permanência intermitente para o que se passa no Porto e, em geral, no norte. Na área da cultura, então, são uma catástrofe permanente. O centralismo jornalístico, por muito que tentem disfarçar com uma côdeas atiradas ao norte de vez em quando, é uma realidade indesmentível. Já os jornais "do Porto", andam, no mínimo, a ver as bolas passar...

Ninguém está à espera que o 24 Horas escreva uma prosa de primeira água sobre Nyman. Mas, quer os jornais ditos de referência, quer os jornais "do Porto", têm obrigações particulares nesta área. E deviam perceber que há coisas que não podem falhar. Espantam-se, depois, com a fuga dos leitores?

novembro 15, 2005

Beatles pelos dedos de Frisell

Bill Frisell provou, no concerto de ontem à noite, na Casa da Música, que ainda nem tudo foi dito sobre a música dos Beatles.

Acompanhado apenas por uma violinista, de cabelos verdes, e um outro guitarrista, que se entretinha a fazer deslizar sons na sua slide guitar (fazendo lembrar Ry Cooder), Frisell fez uma interpretação muito própria, ao seu estilo inconfundível, de clássicos dos Beatles. E fê-lo de uma forma quase experimental. Os temas, às vezes, começavam por ser ruídos de sintetizador, para irem evoluindo em direcção aos acordes reconhecíveis de clássicos da eterna banda de Liverpool.

Foi um concerto agradabilíssimo. Excepto, talvez, para o rapaz corpulento que estava à minha frente e cuja cabeça tombava de sono, ora para esquerda, ora para a direita, quando Frisell entrava no terreno do susurro da guitarra.

novembro 12, 2005

Prenda de Natal: D. Quixote, de Welles

Talvez seja por causa da aproximação da época de filmes de Natal para as crianças. Talvez seja porque o mundo anda deprimido por causa do petróleo. Talvez seja porque os realizadores andem cansados de aturar produtores obtusos. Sei lá. O que é certo é que o cinema anda uma pasmaceira descomunal. Mas, ainda assim...

Temos um Orson Welles em cartaz. D. Quixote é uma grande prenda que a Atalanta nos dá.

novembro 09, 2005

Internet e mercado

«Apesar de as novas tecnologias terem grande potencial para a comunicação democrática, há poucas razões para esperar que a Internet sirva fins democráticos uma vez entregue ao mercado.» Edward Herman

novembro 02, 2005

Roger Waters: Ça Ira

Os media generalistas portugueses ainda não deram por isso (ou terei sido eu a não dar por isso nos media?), mas já está disponível em Portugal o último trabalho discográfico de Roger Waters. Nada menos que... uma ópera.

Intitula-se Ça Ira e transporta-nos no tempo para o período da Revolução Francesa. O disco é mesmo catalogado com frases como "história operática da Revolução Francesa", em três actos.

Para já, ouvi, apressadamente, excertos. É mesmo ópera, longe dos ambientes sonoros do fabuloso, inigualável, um dos melhores álbuns conceptuais de sempre, Amused to Death.

Depois de uma audição mais apurada, voltaremos a Ça Ira aqui no Travessias. Porque discos destes não são só para ouvir. São, sobretudo, para degustar.


A ouvir:
Entrevista de Roger Waters à NPR

outubro 31, 2005

PRISMA.COM: uma nova revista académica

Acaba de nascer a revista académica PRISMA.COM. Trata-se de uma publicação online dedicada à investigação na intersecção da comunicação, informação, tecnologia e artes. É propriedade da unidade de investigação CETAC.COM (Centro de Estudos em Tecnologias, Artes e Ciências da Comunicação), da Universidade do Porto.Conforme se pode ler na 'Política Editorial' da nova revista, aqui são publicados artigos de natureza teórica, ensaística ou de comentário e reflexão, bem como trabalhos monográficos nos domínios das ciências, artes e tecnologias da comunicação e da informação.

Trabalhos de natureza empírica, recensões críticas da literatura própria destes domínios, noticiário sobre actividades em curso ou a desenvolver, bem como entrevistas e outros materiais de carácter informativo e de divulgação nestas áreas do conhecimento, têm também o seu espaço.

outubro 30, 2005

O pesadelo da fábrica de sonhos

Aqui e ali, vamos ouvindo, lendo sinais. O povo estará a ficar saturado do cinema pré-fabricado de Hollywood. As fórmulas repetem-se, até à náusea. E os estereótipos da coisa parecem cansados de velhos. Nas 'comédias românticas'. Nos dramas e melodramas. Na violência. Nas imagens de computador. Nos saltos na cadeira. No sexo que não chega a sê-lo. No cheiro das pipocas. Há um enfartamento de Big Mac's do celulóide.

Ainda na última Visão, João Mário Grilo escrevia, certeiro, sobre o assunto: «Há cada vez mais gente (e cada vez mais nova) saturada da monotonia americana e da progressiva inércia do seu cinema. Por paradoxal que possa parecer, é na reforma total deste quadro antigo e viciado que o cinema americano poderá encontrar condições para se libertar dos seus próprios bloqueios, afastando-se de rotinas e receitas comerciais completamente estafadas, que devem muito menos à arte e à criação do que à incompetência de funcionários e executivos sem chama, cujos gostos e interesses se replicam depois, como um vírus, pelo mundo inteiro, acolhidos pelo laxismo e temor dos diferentes governos nacionais.»

outubro 22, 2005

Shirley Horn

Um pequeno percurso no ciberespaço em busca da notícia sobre a morte de Shirley Horn: Público, DN, El País, Le Monde, Guardian... e nada. Nenhum destes europeus de referência parece ter dado grande valor-notícia ao passamento, aos 71 anos, de uma grande dama do jazz, que chegou a ser acompanhada de ilustríssimos desconhecidos, como Miles Davis, Toots Thielemans ou os irmãos Marsalis...

No The New York Times, lá está, em grande destaque, uma foto da cantora-pianista norte-americana, acompanhada de um lead sóbrio, mas de síntese perfeita: «Shirley Horn foi uma cantora única, com uma das mais lentas entregas no jazz e um modo muito pouco usual de frasear, pondo pressão sobre algumas palavras e deixando outras escapar.» Ouça-se o álbum You Won't Forget Me para o confirmar.

outubro 19, 2005

Nostalgia da simplicidade

«Não tenho Internet, não posso responder a ninguém. Não tenho e-mail e vivo em paz todos os dias.» Hayao Miyazaki, realizador de cinema de animação.

outubro 14, 2005

Quem fala assim é Nobel

«O facto é que o sr. Bush e o seu gang sabem o que estão a fazer e Blair, a não ser que seja o idiota iludido que frequentemente parece ser, também sabe o que eles estão a fazer. Bush e companhia estão determinados, muito simplesmente, a controlar o mundo e os recursos do mundo. E estão-se nas tintas para o número de pessoas que matam pelo caminho.»

Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura

outubro 13, 2005

Travessias Digitais

No Travessias Digitais, notas sobre a saída do director do Expresso e a crescente distância qualitativa que separa os jornais online espanhóis dos portugueses.

Blatter: um chuto certeiro na bola

Raras vezes se lê críticas tão certeiras vindas de gente de topo desse mundo esquizofrénico e irracional que é o da indústria do futebol:

«O presidente da FIFA, Joseph Blatter, critica o "capitalismo selvagem" que se instalou no futebol, e alerta para o perigo dos elevados investimentos. Em artigo no The Financial Times, Blatter também não poupa os atletas, considerando ser inadmissível que jogadores "com a educação incompleta ganhem 150 mil euros por semana". (DN)

outubro 07, 2005

Naxos: a qualidade compensa

A editora discográfica Naxos foi considerada Label of the Year pela Classic FM/Gramophone. Merecidíssimo.

Os discos da Naxos podem ser encontrados na parte das "séries económicas" das nossas lojas. Custam cinco, seis euros, mas o preço engana: as gravações têm, em geral, uma qualidade de gravação invejável e o catálogo é rico e diversificado, sobretudo na música clássica, onde podemos também encontrar compositores contemporâneos, como Phillip Glass ou Krzysztof Penderecki.

Para usar uma expressão hoje muito em voga, a relação qualidade/preço é imbatível.

Aqui ficam, a título de exemplo, três discos desta editora vivamente recomendados pelo Travessias:

Mass in C minor, K 427 'Great Mass', de Mozart

Orchestral Works, Volume 1, Symphonies Nos 1 and 2, de Samuel Barber

Violin Concerto, de Phillip Glass

outubro 05, 2005

Espanha marca

O Congresso espanhol aprovou uma lei que proíbe fumar nos locais de trabalho e em organizações a partir de Janeiro. Espanha dá mais um passo civilizacional (mais um...) em frente em relação a Portugal.

Sindicato caso de polícia

O Sindicato dos Profissionais de Polícia apelou a todos os profissionais da PSP para que não passem multas de trânsito até ao final do ano. E não há quem multe o sindicato por fazer um apelo tão criminoso como este?