É um filme tranquilo. Vê-se sem sobressaltos. A Sombra do Samurai, realizado por Yoji Yamada, não tem o toque do génio narrativo e pictórico de um Kurosawa, por exemplo, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, um conto moral, à boa maneira japonesa.julho 28, 2005
De olhares: um japonês tranquilo
É um filme tranquilo. Vê-se sem sobressaltos. A Sombra do Samurai, realizado por Yoji Yamada, não tem o toque do génio narrativo e pictórico de um Kurosawa, por exemplo, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, um conto moral, à boa maneira japonesa.julho 24, 2005
Cuspidela
No interior do recauchutado café portuense A Brasileira, um espaço que conseguiu (para já) resistir à invasão bárbara do televisor, uma placa de metal, um pouco acima de uma mesa, fixa o olhar: "Por favor não cuspir no chão".
Há pequenas mensagens que, em certos contextos, dizem muito sobre toda uma cidade.
julho 23, 2005
Inseguranças
O Sindicato dos Profissionais de Polícia ameaça promover «novas formas de luta», que poderão levar agentes da PSP a entregar as armas e a recusar sair das esquadras, em protesto contra medidas anunciadas pelo Governo.
Por este andar, ainda vão ter que ser os cidadãos a vigiar os polícias e a prender os ladrões. Estamos a um passo da anarquia.
julho 21, 2005
Religião e esfera pública
O texto que Vital Moreira escreveu, anteontem, no Público, é de leitura obrigatória. Para crentes e não crentes, Pós-Secularismo fala sobre um ressurgimento religioso que parece contrariar «o longo movimento de secularização das sociedades modernas e de tendencial diminuição do papel da religião na esfera pública.»
É um fenómeno da maior relevância e, ao contrário de muitos temas que dominam a agenda mediática, verdadeiramente importante para o presente e o futuro das sociedades contemporâneas.
Duas passagens particularmente interessantes:
«Em si mesmo, o ressurgimento da religião não suscitaria nenhuma preocupação política, não fosse ele acompanhado de um fenómeno de radicalização e de fundamentalismo, o qual não escolhe infelizmente igrejas nem confissões, mas que tem os seus pontos altos no mundo islâmico, nos movimentos evangélicos dos Estados Unidos e no extremismo judaico.»
«Ao contrário do que pretendem muitos dos movimentos religiosos, a dessecularização da sociedade não obriga a rever a secularização do Estado, pelo contrário, é justamente porque o ressurgimento e a radicalização religiosa criam um potencial de dissenção e intolerância religiosa e de conflito civil, que o Estado mais deve salvaguardar a sua neutralidade e não-identificação com qualquer religião.»
Não podia estar mais de acordo com Vital Moreira.
«Ao contrário do que pretendem muitos dos movimentos religiosos, a dessecularização da sociedade não obriga a rever a secularização do Estado, pelo contrário, é justamente porque o ressurgimento e a radicalização religiosa criam um potencial de dissenção e intolerância religiosa e de conflito civil, que o Estado mais deve salvaguardar a sua neutralidade e não-identificação com qualquer religião.»
Não podia estar mais de acordo com Vital Moreira.
julho 20, 2005
Só não vê quem não quer
A maioria dos ingleses (dois terços) considera que há uma relação directa entre os atentados de Londres e o apoio de Blair à invasão do Iraque. Os ingleses não são parvos.
E a pergunta primordial, tão actual como em Março de 2003, 25 mil mortos iraquianos depois, permanece sem uma resposta racional, honesta e satisfatória: por que se invadiu o Iraque?
E a pergunta primordial, tão actual como em Março de 2003, 25 mil mortos iraquianos depois, permanece sem uma resposta racional, honesta e satisfatória: por que se invadiu o Iraque?
julho 19, 2005
julho 18, 2005
Aficionadísimos, por supuesto
Algumas verdades, quando escritas em bom castelhano, têm um outro sabor, uma outra música: «Los portugueses son aficionadísimos a pasar una buena tarde de sol dentro de un centro comercial, gastando lo que no tienen.» Margarida Pinto, El País.
julho 16, 2005
Takase em Serralves
Aki Takase é uma japonesa baixinha, com um ar meio alegremente estouvado. Fala pessimamente inglês, mas toca piano "nas horas".Fui descobri-la hoje a Serralves, no Porto, naquele que foi o segundo concerto de mais um Jazz no Parque. E descobrir é o termo certo, pois nunca tinha ouvido nada saído das teclas desta experiente pianista vinda da área do chamado free jazz, um tipo de jazz algo difícil de tragar. Durante alguns anos, ela tocou com a portuguesa Maria João.
No concerto de hoje, Takase improvisou sobre o jazz clássico de Fats Waller, que aqui e ali faz lembrar um dos pioneiros do jazz, Jelly Roll Morton. Mas Takase não se ficou por aí, juntando ao standard improvisações free, desconcertantes, abruptas, de decomposição melódica. Um jogo de Yin e Yang.
Mais para o fim, Takase pôs bolas de pingue-pongue em cima das cordas do piano. E as bolas lá saltitavam de cada vez que a corda era atingida pela tecla. A assistência sorria. O estilo desta pianista tem algo de subversivo.
Não foi um concerto "fácil". Mas valeu pela descoberta de uma japonesa endiabrada ao piano. E Serralves estava lindo. Como sempre.
julho 12, 2005
Scorsese e Regina
O estado de indigência programativa dos canais generalistas portugueses leva-nos, por vezes, a rejubilar quando coisas boas, mesmo boas, aparecem no ar. Duas passam hoje à noite, na 2.
Uma: a segunda parte de um documentário, realizado por Martin Scorsese, intitulado My Voyage to Italy. A primeira parte (de um total de quatro) passou há oito dias. Uma verdadeira e fascinante viagem, na primeira pessoa, às raizes italianas de Scorsese e ao cinema italiano do pós-guerra (com Rossellini à cabeça), que muito influenciou este realizador norte-americano.
A outra é um concerto, imperdível, de Regina Carter, uma actuação no festival de jazz de Angra. Esta violinista é um verdadeiro prodígio em termos técnicos e melódicos. Ainda por cima, trata-se de uma figura rara no panorama jazzístico contemporâneo: violinista, mulher, talentosa...
A outra é um concerto, imperdível, de Regina Carter, uma actuação no festival de jazz de Angra. Esta violinista é um verdadeiro prodígio em termos técnicos e melódicos. Ainda por cima, trata-se de uma figura rara no panorama jazzístico contemporâneo: violinista, mulher, talentosa...
Trespassa-se
Acabo de assistir a mais um programa "Prós e Contras" (apesar do contra da apresentadora) sobre o estado do país que ainda vamos tendo. Vamos ali a Vilar Formoso pôr uma tabuleta "Trespassa-se" virada para Espanha?
julho 08, 2005
Notas de Mertens
Duas observações a reter da interessante entrevista (RTP) de Ana Sousa Dias a Wim Mertens. Uma: para o compositor belga, 97 por cento da música actual é intepretação e apenas 3 por cento criação. As percentagens são simbólicas, mas não andarão muito longe da realidade. Outra: há excessivo academismo, muita escravatura da pauta, que impedem, por exemplo, o aparecimento de vozes mais "autênticas" ou "puras" no panorama musical contemporâneo.
julho 07, 2005
Londres e os media online portugueses
No Travessias Digitais, escrevo sobre a resposta paupérrima dos media online portugueses aos atentados em Londres.
julho 05, 2005
Sem cura
A jovem democracia portuguesa tem ainda muitos tumores malignos a roerem-lhe o corpo. Mas Alberto João Jardim é, definitivamente, um cancro terminal.
julho 01, 2005
Unilateralismo na rede
Ora aqui está mais um belo exemplo do "multilateralismo" da actual administração norte-americana: as petições feitas pela União Europeia e pela América Latina para que o controlo das infra-estruturas básicas da Internet passe para as mãos de um organismo internacional recebeu uma resposta negativa por parte dos EUA, que actualmente controlam os servidores de raiz da rede mundial.
Segundo El Pais, a administração Bush anunciou que não entrega esta competência nem prescinde da tutela que exerce sobre o ICANN, o órgão de governo da Internet.
junho 30, 2005
Espanha: uma sociedade mais decente
Espanha, aqui bem ao lado, distancia-se a passos largos do seu acanhado e trôpego vizinho ibérico. Em termos económicos, políticos (sobretudo no espaço da União Europeia, mas não só) e civilizacionais.
Zapatero está a fazer muito daquilo que Aznar gostaria de fazer quando fôr grande e que Sócrates desejava pôr em prática se tivesse país para isso. Hoje, o presidente do Governo espanhol venceu uma batalha difícil contra o preconceito, a mesquinhez, o conservadorismo simplório de boa parte da direita e da igreja do seu país: conseguiu fazer aprovar no Congresso a modificação do código civil que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com direitos iguais aos casais heterossexuais, incluindo a adopção. Aznar, em casa, deve ter-se benzido, naturalmente.
É preciso uma enorme dose de coragem política e uma visão assaz moderna do exercício do poder ao mais alto nível para chegar a um ponto de maturidade destes. Zapatero já havia provado a sua fibra ao lembrar à toda poderosa igreja que o Estado espanhol é laico, algo que Aznar se havia esquecido quando passeou pelos corredores do poder em Madrid.
Zapatero tem dado sinais claros de que, não só percebe os ventos da história, como não tem medo de adequar a política a uma sociedade cada vez mais complexa, heterodoxa, multiforme, imprevisível, em permanente recomposição. Escusado será dizer que estas novas realidades são um tremendo pesadelo para conservadores.
Nós por cá, entretanto, lá vamos oferecendo à Europa o espectáculo único do julgamento em tribunal de mulheres por aborto, ao mesmo tempo que nos diluímos no mapa europeu a 25 e nos vamos afundando alegremente de défice em défice, de incompetência em incompetência, de cobardia em cobardia.
Sócrates deve ficar roxo de inveja quando ouve Zapatero dizer coisas tão simples como esta: «porque una sociedad decente es aquella que no humilla a sus miembros».
É preciso uma enorme dose de coragem política e uma visão assaz moderna do exercício do poder ao mais alto nível para chegar a um ponto de maturidade destes. Zapatero já havia provado a sua fibra ao lembrar à toda poderosa igreja que o Estado espanhol é laico, algo que Aznar se havia esquecido quando passeou pelos corredores do poder em Madrid.
Zapatero tem dado sinais claros de que, não só percebe os ventos da história, como não tem medo de adequar a política a uma sociedade cada vez mais complexa, heterodoxa, multiforme, imprevisível, em permanente recomposição. Escusado será dizer que estas novas realidades são um tremendo pesadelo para conservadores.
Nós por cá, entretanto, lá vamos oferecendo à Europa o espectáculo único do julgamento em tribunal de mulheres por aborto, ao mesmo tempo que nos diluímos no mapa europeu a 25 e nos vamos afundando alegremente de défice em défice, de incompetência em incompetência, de cobardia em cobardia.
Sócrates deve ficar roxo de inveja quando ouve Zapatero dizer coisas tão simples como esta: «porque una sociedad decente es aquella que no humilla a sus miembros».
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