julho 19, 2005
julho 18, 2005
Aficionadísimos, por supuesto
Algumas verdades, quando escritas em bom castelhano, têm um outro sabor, uma outra música: «Los portugueses son aficionadísimos a pasar una buena tarde de sol dentro de un centro comercial, gastando lo que no tienen.» Margarida Pinto, El País.
julho 16, 2005
Takase em Serralves
Aki Takase é uma japonesa baixinha, com um ar meio alegremente estouvado. Fala pessimamente inglês, mas toca piano "nas horas".Fui descobri-la hoje a Serralves, no Porto, naquele que foi o segundo concerto de mais um Jazz no Parque. E descobrir é o termo certo, pois nunca tinha ouvido nada saído das teclas desta experiente pianista vinda da área do chamado free jazz, um tipo de jazz algo difícil de tragar. Durante alguns anos, ela tocou com a portuguesa Maria João.
No concerto de hoje, Takase improvisou sobre o jazz clássico de Fats Waller, que aqui e ali faz lembrar um dos pioneiros do jazz, Jelly Roll Morton. Mas Takase não se ficou por aí, juntando ao standard improvisações free, desconcertantes, abruptas, de decomposição melódica. Um jogo de Yin e Yang.
Mais para o fim, Takase pôs bolas de pingue-pongue em cima das cordas do piano. E as bolas lá saltitavam de cada vez que a corda era atingida pela tecla. A assistência sorria. O estilo desta pianista tem algo de subversivo.
Não foi um concerto "fácil". Mas valeu pela descoberta de uma japonesa endiabrada ao piano. E Serralves estava lindo. Como sempre.
julho 12, 2005
Scorsese e Regina
O estado de indigência programativa dos canais generalistas portugueses leva-nos, por vezes, a rejubilar quando coisas boas, mesmo boas, aparecem no ar. Duas passam hoje à noite, na 2.
Uma: a segunda parte de um documentário, realizado por Martin Scorsese, intitulado My Voyage to Italy. A primeira parte (de um total de quatro) passou há oito dias. Uma verdadeira e fascinante viagem, na primeira pessoa, às raizes italianas de Scorsese e ao cinema italiano do pós-guerra (com Rossellini à cabeça), que muito influenciou este realizador norte-americano.
A outra é um concerto, imperdível, de Regina Carter, uma actuação no festival de jazz de Angra. Esta violinista é um verdadeiro prodígio em termos técnicos e melódicos. Ainda por cima, trata-se de uma figura rara no panorama jazzístico contemporâneo: violinista, mulher, talentosa...
A outra é um concerto, imperdível, de Regina Carter, uma actuação no festival de jazz de Angra. Esta violinista é um verdadeiro prodígio em termos técnicos e melódicos. Ainda por cima, trata-se de uma figura rara no panorama jazzístico contemporâneo: violinista, mulher, talentosa...
Trespassa-se
Acabo de assistir a mais um programa "Prós e Contras" (apesar do contra da apresentadora) sobre o estado do país que ainda vamos tendo. Vamos ali a Vilar Formoso pôr uma tabuleta "Trespassa-se" virada para Espanha?
julho 08, 2005
Notas de Mertens
Duas observações a reter da interessante entrevista (RTP) de Ana Sousa Dias a Wim Mertens. Uma: para o compositor belga, 97 por cento da música actual é intepretação e apenas 3 por cento criação. As percentagens são simbólicas, mas não andarão muito longe da realidade. Outra: há excessivo academismo, muita escravatura da pauta, que impedem, por exemplo, o aparecimento de vozes mais "autênticas" ou "puras" no panorama musical contemporâneo.
julho 07, 2005
Londres e os media online portugueses
No Travessias Digitais, escrevo sobre a resposta paupérrima dos media online portugueses aos atentados em Londres.
julho 05, 2005
Sem cura
A jovem democracia portuguesa tem ainda muitos tumores malignos a roerem-lhe o corpo. Mas Alberto João Jardim é, definitivamente, um cancro terminal.
julho 01, 2005
Unilateralismo na rede
Ora aqui está mais um belo exemplo do "multilateralismo" da actual administração norte-americana: as petições feitas pela União Europeia e pela América Latina para que o controlo das infra-estruturas básicas da Internet passe para as mãos de um organismo internacional recebeu uma resposta negativa por parte dos EUA, que actualmente controlam os servidores de raiz da rede mundial.
Segundo El Pais, a administração Bush anunciou que não entrega esta competência nem prescinde da tutela que exerce sobre o ICANN, o órgão de governo da Internet.
junho 30, 2005
Espanha: uma sociedade mais decente
Espanha, aqui bem ao lado, distancia-se a passos largos do seu acanhado e trôpego vizinho ibérico. Em termos económicos, políticos (sobretudo no espaço da União Europeia, mas não só) e civilizacionais.
Zapatero está a fazer muito daquilo que Aznar gostaria de fazer quando fôr grande e que Sócrates desejava pôr em prática se tivesse país para isso. Hoje, o presidente do Governo espanhol venceu uma batalha difícil contra o preconceito, a mesquinhez, o conservadorismo simplório de boa parte da direita e da igreja do seu país: conseguiu fazer aprovar no Congresso a modificação do código civil que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com direitos iguais aos casais heterossexuais, incluindo a adopção. Aznar, em casa, deve ter-se benzido, naturalmente.
É preciso uma enorme dose de coragem política e uma visão assaz moderna do exercício do poder ao mais alto nível para chegar a um ponto de maturidade destes. Zapatero já havia provado a sua fibra ao lembrar à toda poderosa igreja que o Estado espanhol é laico, algo que Aznar se havia esquecido quando passeou pelos corredores do poder em Madrid.
Zapatero tem dado sinais claros de que, não só percebe os ventos da história, como não tem medo de adequar a política a uma sociedade cada vez mais complexa, heterodoxa, multiforme, imprevisível, em permanente recomposição. Escusado será dizer que estas novas realidades são um tremendo pesadelo para conservadores.
Nós por cá, entretanto, lá vamos oferecendo à Europa o espectáculo único do julgamento em tribunal de mulheres por aborto, ao mesmo tempo que nos diluímos no mapa europeu a 25 e nos vamos afundando alegremente de défice em défice, de incompetência em incompetência, de cobardia em cobardia.
Sócrates deve ficar roxo de inveja quando ouve Zapatero dizer coisas tão simples como esta: «porque una sociedad decente es aquella que no humilla a sus miembros».
É preciso uma enorme dose de coragem política e uma visão assaz moderna do exercício do poder ao mais alto nível para chegar a um ponto de maturidade destes. Zapatero já havia provado a sua fibra ao lembrar à toda poderosa igreja que o Estado espanhol é laico, algo que Aznar se havia esquecido quando passeou pelos corredores do poder em Madrid.
Zapatero tem dado sinais claros de que, não só percebe os ventos da história, como não tem medo de adequar a política a uma sociedade cada vez mais complexa, heterodoxa, multiforme, imprevisível, em permanente recomposição. Escusado será dizer que estas novas realidades são um tremendo pesadelo para conservadores.
Nós por cá, entretanto, lá vamos oferecendo à Europa o espectáculo único do julgamento em tribunal de mulheres por aborto, ao mesmo tempo que nos diluímos no mapa europeu a 25 e nos vamos afundando alegremente de défice em défice, de incompetência em incompetência, de cobardia em cobardia.
Sócrates deve ficar roxo de inveja quando ouve Zapatero dizer coisas tão simples como esta: «porque una sociedad decente es aquella que no humilla a sus miembros».
junho 26, 2005
De olhares: Barton Fink
Barton Fink é, enigmaticamente, um grande filme. Talvez o melhor dos irmãos Coen. Bem escrito (por eles mesmos), apresenta um grupo de actores de grande calibre, a começar pelo inimitável peso pesado John Goodman e a acabar em John Turturro, numa composição primorosa, a lembrar um pouco o estilo de algumas personagens esquizofrénicas de Cronenberg.

O canal Hollywood exibiu-o, em boa hora, há poucos dias. Em Barton Fink, datado de 1991, ano em que ganhou a Palma de Ouro, todas as personagens são um pouco grotescas, exageradas, distorcidas, movendo-se no limiar da normalidade, limiar esse gerido sempre com grande mestria.
Aqui e ali, os Coen entregam-nas à surrealidade, à «vida na mente», como na cena em que Goodman, gritando precisamente «eu mostro-vos a vida da mente!», corre pelo corredor de um hotel sinistro fora deixando atrás de si paredes em fogo e disparando a caçadeira contra dois detectives.
O facto de o filme ser de difícil catalogação só o torna mais interessante. O enredo deixa muitas pontas por resolver. Não dá, como nos filmes banais, todas as respostas, de forma óbvia e sem ambiguidades. Aquela caixa amarrada com cordel tinha mesmo a cabeça da secretária/amante de um escritor alcoólico que trabalhava em Hollywood?
Foi um prazer imenso rever Barton Fink, obra em que, como escreve Hal Herickson, no All Movie Guide, nada é o que parece e nada resulta como o planeado. Dele guardava algumas imagens marcantes, como a do corredor em chamas e uma outra, em que um poderoso produtor de filmes de Hollywood (mais tarde promovido a general), espumando de ira, à beira da loucura, exigia a um funcionário seu que beijasse os pés do incomodado escritor da Broadway... Fink.

O canal Hollywood exibiu-o, em boa hora, há poucos dias. Em Barton Fink, datado de 1991, ano em que ganhou a Palma de Ouro, todas as personagens são um pouco grotescas, exageradas, distorcidas, movendo-se no limiar da normalidade, limiar esse gerido sempre com grande mestria.
Aqui e ali, os Coen entregam-nas à surrealidade, à «vida na mente», como na cena em que Goodman, gritando precisamente «eu mostro-vos a vida da mente!», corre pelo corredor de um hotel sinistro fora deixando atrás de si paredes em fogo e disparando a caçadeira contra dois detectives.
O facto de o filme ser de difícil catalogação só o torna mais interessante. O enredo deixa muitas pontas por resolver. Não dá, como nos filmes banais, todas as respostas, de forma óbvia e sem ambiguidades. Aquela caixa amarrada com cordel tinha mesmo a cabeça da secretária/amante de um escritor alcoólico que trabalhava em Hollywood?
Foi um prazer imenso rever Barton Fink, obra em que, como escreve Hal Herickson, no All Movie Guide, nada é o que parece e nada resulta como o planeado. Dele guardava algumas imagens marcantes, como a do corredor em chamas e uma outra, em que um poderoso produtor de filmes de Hollywood (mais tarde promovido a general), espumando de ira, à beira da loucura, exigia a um funcionário seu que beijasse os pés do incomodado escritor da Broadway... Fink.
junho 25, 2005
Viva o S. João!
A noite de S. João é uma oportunidade única para ver um outro lado do Porto dos dias de hoje. Um Porto menos cinzento, menos rabugento, menos stressado, menos impaciente com os outros, bastante menos sizudo, enfim, um Porto altamente contente consigo próprio, descontraído e colorido, mesmo antes do monumental fogo-de-artifício.
Muito diferente daquela cidade da rotina de segunda a sexta-feira, cheia de trânsito, de obras, de lixo, de barulho, de horas de ponta, de gente a pegar-se e a insultar-se nas ruas ao mínimo pretexto, a quase partir para o murro por dá cá aquela palha.
Muito diferente daquela cidade da rotina de segunda a sexta-feira, cheia de trânsito, de obras, de lixo, de barulho, de horas de ponta, de gente a pegar-se e a insultar-se nas ruas ao mínimo pretexto, a quase partir para o murro por dá cá aquela palha.
O problema é que o S. João só nos dá marteladas na cabeça uma vez por ano.
junho 19, 2005
Os Cahiers, finalmente!
Ao longo dos últimos anos, vezes sem conta tentei, através dos motores de busca, chegar a uma versão online dos célebres Cahiers du Cinéma. Sempre em vão. A velha revista dos cinéfilos teimava em não apostar no ciberespaço.

Foi pela mão do meu antigo professor de Teoria da Imagem, João Mário Grilo, que chegou a boa notícia: os Cahiers abriram, finalmente, o seu espaço na Web.
Como refere Mário Grilo, na sua coluna na Visão, «para os cinéfilos, talvez este seja um bom pretexto para renovar as ligações com uma língua que o cinema falou muito (...) É que no cômputo geral todos reconheceremos que nas páginas dos Cahiers está algum do material mais interessante jamais escrito sobre o cinema na segunda metade da sua história.»
Como refere Mário Grilo, na sua coluna na Visão, «para os cinéfilos, talvez este seja um bom pretexto para renovar as ligações com uma língua que o cinema falou muito (...) É que no cômputo geral todos reconheceremos que nas páginas dos Cahiers está algum do material mais interessante jamais escrito sobre o cinema na segunda metade da sua história.»
junho 13, 2005
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