junho 30, 2005

Espanha: uma sociedade mais decente

Espanha, aqui bem ao lado, distancia-se a passos largos do seu acanhado e trôpego vizinho ibérico. Em termos económicos, políticos (sobretudo no espaço da União Europeia, mas não só) e civilizacionais.

Zapatero está a fazer muito daquilo que Aznar gostaria de fazer quando fôr grande e que Sócrates desejava pôr em prática se tivesse país para isso. Hoje, o presidente do Governo espanhol venceu uma batalha difícil contra o preconceito, a mesquinhez, o conservadorismo simplório de boa parte da direita e da igreja do seu país: conseguiu fazer aprovar no Congresso a modificação do código civil que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com direitos iguais aos casais heterossexuais, incluindo a adopção. Aznar, em casa, deve ter-se benzido, naturalmente.

É preciso uma enorme dose de coragem política e uma visão assaz moderna do exercício do poder ao mais alto nível para chegar a um ponto de maturidade destes. Zapatero já havia provado a sua fibra ao lembrar à toda poderosa igreja que o Estado espanhol é laico, algo que Aznar se havia esquecido quando passeou pelos corredores do poder em Madrid.

Zapatero tem dado sinais claros de que, não só percebe os ventos da história, como não tem medo de adequar a política a uma sociedade cada vez mais complexa, heterodoxa, multiforme, imprevisível, em permanente recomposição. Escusado será dizer que estas novas realidades são um tremendo pesadelo para conservadores.

Nós por cá, entretanto, lá vamos oferecendo à Europa o espectáculo único do julgamento em tribunal de mulheres por aborto, ao mesmo tempo que nos diluímos no mapa europeu a 25 e nos vamos afundando alegremente de défice em défice, de incompetência em incompetência, de cobardia em cobardia.

Sócrates deve ficar roxo de inveja quando ouve Zapatero dizer coisas tão simples como esta: «porque una sociedad decente es aquella que no humilla a sus miembros».

junho 26, 2005

De olhares: Barton Fink

Barton Fink é, enigmaticamente, um grande filme. Talvez o melhor dos irmãos Coen. Bem escrito (por eles mesmos), apresenta um grupo de actores de grande calibre, a começar pelo inimitável peso pesado John Goodman e a acabar em John Turturro, numa composição primorosa, a lembrar um pouco o estilo de algumas personagens esquizofrénicas de Cronenberg.

O canal Hollywood exibiu-o, em boa hora, há poucos dias. Em Barton Fink, datado de 1991, ano em que ganhou a Palma de Ouro, todas as personagens são um pouco grotescas, exageradas, distorcidas, movendo-se no limiar da normalidade, limiar esse gerido sempre com grande mestria.

Aqui e ali, os Coen entregam-nas à surrealidade, à «vida na mente», como na cena em que Goodman, gritando precisamente «eu mostro-vos a vida da mente!», corre pelo corredor de um hotel sinistro fora deixando atrás de si paredes em fogo e disparando a caçadeira contra dois detectives.

O facto de o filme ser de difícil catalogação só o torna mais interessante. O enredo deixa muitas pontas por resolver. Não dá, como nos filmes banais, todas as respostas, de forma óbvia e sem ambiguidades. Aquela caixa amarrada com cordel tinha mesmo a cabeça da secretária/amante de um escritor alcoólico que trabalhava em Hollywood?

Foi um prazer imenso rever Barton Fink, obra em que, como escreve Hal Herickson, no All Movie Guide, nada é o que parece e nada resulta como o planeado. Dele guardava algumas imagens marcantes, como a do corredor em chamas e uma outra, em que um poderoso produtor de filmes de Hollywood (mais tarde promovido a general), espumando de ira, à beira da loucura, exigia a um funcionário seu que beijasse os pés do incomodado escritor da Broadway... Fink.

The Bends


Este fantástico álbum dos Radiohead é do melhor para embalar insónias.

junho 25, 2005

Viva o S. João!

A noite de S. João é uma oportunidade única para ver um outro lado do Porto dos dias de hoje. Um Porto menos cinzento, menos rabugento, menos stressado, menos impaciente com os outros, bastante menos sizudo, enfim, um Porto altamente contente consigo próprio, descontraído e colorido, mesmo antes do monumental fogo-de-artifício.

Muito diferente daquela cidade da rotina de segunda a sexta-feira, cheia de trânsito, de obras, de lixo, de barulho, de horas de ponta, de gente a pegar-se e a insultar-se nas ruas ao mínimo pretexto, a quase partir para o murro por dá cá aquela palha.

O problema é que o S. João só nos dá marteladas na cabeça uma vez por ano.

junho 19, 2005

Os Cahiers, finalmente!

Ao longo dos últimos anos, vezes sem conta tentei, através dos motores de busca, chegar a uma versão online dos célebres Cahiers du Cinéma. Sempre em vão. A velha revista dos cinéfilos teimava em não apostar no ciberespaço.

Foi pela mão do meu antigo professor de Teoria da Imagem, João Mário Grilo, que chegou a boa notícia: os Cahiers abriram, finalmente, o seu espaço na Web.

Como refere Mário Grilo, na sua coluna na Visão, «para os cinéfilos, talvez este seja um bom pretexto para renovar as ligações com uma língua que o cinema falou muito (...) É que no cômputo geral todos reconheceremos que nas páginas dos Cahiers está algum do material mais interessante jamais escrito sobre o cinema na segunda metade da sua história.»

junho 13, 2005

Blogues e pós-modernidade

Os blogues podem ser considerados jornalismo pós-moderno?

junho 11, 2005

Khaled na Casa


É daqueles músicos que constumamos ver e ouvir com agrado no canal Mezzo. Mas, felizmente, desta vez, o Porto teve oportunidade de ver e ouvir Khaled ao vivo, na mais fabulosa Casa da Música do país.

Khaled trouxe consigo a mistura fina que costuma fazer nos seus álbuns, mestiçando rai (do seu país de origem, a Argélia), soul, reggae, rock, jazz, flamenco e tudo o mais a que possa deitar mão para, no fundo, através da sua música, fazer convergir no árabe o mundo diverso e baralhado dos dias de hoje.



O homem tem uma voz incrível. Canta em árabe, fala que é, por si só, música. Ouvimo-lo cantar como se fosse mais um instrumento, com o qual Khaled consegue inflexões vocais estonteantes.

Sempre com o rai de fundo, a batida forte levou a que metade da sala se pusesse de pé a dançar, durante quase todo o espectáculo, para desespero dos vigilantes da Casa.

Suspeito que alguma daquela boa gente que ali dançava chegou a Khaled pela mão de Nanni Moretti, o realizador italiano que nos fez descobrir também a exótica Angelique Kidjo ou o enorme Jarrett. Como esquecer aquela sequência de Querido Diário em que Moretti, ele mesmo, serpenteia as ruas da sua amada Roma, montado numa Vespa, ao som bamboleante de "Didi"?

junho 08, 2005

Sabujos

«Os deputados do PSD no Parlamento da Madeira aplaudiram hoje de pé as declarações de Alberto João Jardim, que no sábado passado afirmou estar a ser alvo de uma campanha liderada por "alguns bastardos" e "filhos da puta" do continente.» (Público)

Na Madeira, a subserviência canina é uma profissão.

maio 30, 2005

Era uma vez o ciberjornalismo

No Travessias Digitais, recordo os tempos idos do nascimento do ciberjornalismo em Portugal.

maio 25, 2005

Jornadas de jornalismo

Rogério Santos, no blogue Indústrias Culturais, escreve hoje algumas (e oportunas) notas resultantes da sua participação nas jornadas de reflexão sobre o ensino e a investigação do jornalismo e das ciências da comunicação em Portugal que decorreram, ontem, nas instalações da licenciatura em jornalismo e ciências da comunicação da Universidade do Porto.

maio 20, 2005

Mau estado

O bastonário da Ordem dos Advogados diz que o estado da justiça em Portugal é «aterrador». Pode restar-lhe o consolo de saber que o estado de Portugal é ainda pior.

maio 19, 2005

Porcos e maus

O relato é da senhora da pastelaria, de olhos bem abertos, mão no peito, ar consternado. Na esquina de uma pacata rua do Porto, dois carros quase batem porque o condutor de um deles estacionava, mal, em cima da passadeira.

Os dois condutores saem dos respectivos bólides, a conversa descamba para os trovões, um deles saca de uma navalha de ponta-e-mola e rasga a perna ao outro. E pronto, nem mais um pio.

Faltam as provas científicas, mas algo me diz que o embrutecimento acelerado do homem das urbes tem alguma coisa a ver com a Organização Mundial do Comércio.

maio 13, 2005

O Tom certo


Este álbum de Tom Waits, ao mesmo tempo soturno, doido (a começar pelo título, Swordfishtrombones...), meio surreal e melódico, é uma pequena jóia. Waits conta-nos histórias do diabo! Como a de um maluco que deita fogo à própria casa por, entre outras coisas, estar farto do cão e da mulher. Tal como Laurie Anderson, o velho Tom adora contar histórias. Para gáudio absoluto dos bons ouvidos do planeta.

maio 12, 2005

Más influências

À medida que as peças do puzzle se vão juntando, menos dúvidas sobram sobre o oportunismo descarado e leviano que marcou os últimos dias do governo de gestão de Santana Lopes. E que "gestão"! Quem lá estava parece ter tido a preocupação suprema de tomar decisões, a dias das eleições e até depois das mesmas, de forma a favorecer colaboradores, assessores, conhecidos, amigos, patrocinadores, lóbis privados. E, pelo que se começa a ver, com o Estado a sair invariavelmente lesado.

Esta vampirização dos poderes da administração central, vinda de quem vem, até que nem espanta por aí além. Foram inúmeros os sinais de irresponsabilidade, desorientação, má preparação e leviandade dados, quer pelo próprio Santana Lopes, quer por vários membros do seu "governo". Só se esperava é que esta gente, que lá foi parar por manifesto destrambelhamento político apadrinhado por Durão Barroso, não fosse tão amadora a fazer estas coisas. Sabia-se que eram fracos e duvidosos políticos. Mas tanto...

Mais grave de tudo é a monumental machadada que estas luminárias acabam por dar na já debilitada credibilidade dos políticos e do próprio sistema democrático. Isto é, Lopes e os seus amoucos (amouco é um índio que jura morrer pelo seu chefe)continuam, ainda hoje, a levar muito bom cidadão português para as fileiras dos cépticos e abstencionistas.

maio 10, 2005

Futebol lamaçal

O putrefacto e indigesto mundo do futebol profissional em Portugal está em grande forma. Segundo noticia hoje o Público, os clubes portugueses continuam com "as calças na mão" e a gastarem o dinheiro que não têm. A situação financeira deteriora-se de dia para dia e o presidente da Liga diz que é por causa dos salários. Pois...

Já em A Bola escreveu-se, pelos vistos, um editorial lúcido (lucidez é o que mais falta no futebol) no qual se diz que aquele jornal não vai publicar afirmações que incitem à violência ou que lancem dúvidas sobre a integridade moral e cívica de qualquer cidadão. A ideia é boa, mas não vai aguentar-se, pois o factor concorrência tratará de a exterminar rapidamente.

E mais se escreveu, sobre aspectos que quem não doente pela bola (doença é a palavra certa em muitos casos) já há muito viu: muitos dirigentes desportivos perderam «o sentido do rigor, do bom senso e até das suas responsabilidades desportivas e cívicas» (são palavras eufemísticas: o que A Bola queria mesmo dizer é que muita deste ilustre gente futeboleira é uma besta), «o clima que se vive é de conflitualidade permanente, quase de belicismo e de guerra aberta», «há pressões sobre a arbitragem», os jogadores foram, coitadinhos, atirados para um «estúpido degredo social». Um rol de desgraças que toda a gente conhece, quanto mais não seja porque o país vive mergulhado, por obra dos media, num caldo diário incontornável de "magia da bola".

O que é seriamente de lamentar nisto tudo é que, apesar de o futebol ter caído numa fossa nauseabunda, por lá continuamos a ver chafurdar ilustres políticos nacionais, autarcas de coluna rasteira, empresários de charuto, canais de televisão, ávidos jornalistas e toda uma trupe de "actores sociais" à procura das migalhas que porventura sobrem da mesa dos "heróis" dos estádios... A degradação do futebol é o espelho de todo um país.