abril 14, 2005

A Casa é nossa


Custou muito, mas foi. Está aí. É linda. Não devia ser para estragar com um mamarracho banqueiro nas traseiras. Talvez seja altura de o Porto recuperar, modificado, um slogan que, há alguns anos, salvou o Coliseu de ir parar às mãos da IURD: "A Casa da Música é Nossa!"


abril 13, 2005

Em defesa da Casa da Música

Há dias, lavrei, aqui no Travessias, o meu protesto contra a construção, na zona envolvente da Casa da Música, da sede de um banco.

Só posso, pois, subscrever por inteiro o abaixo-assinado em que se apela «a todas as entidades envolvidas neste processo (Câmara Municipal do Porto, ADICAIS, Fundação Casa da Música, Ministério da Cultura, IPPAR) e a todas as entidades que poderão intervir em nome do interesse público (Presidência da República, Assembleia da República, Partidos Políticos, Presidência do Conselho de Ministros, etc.) para que, dentro das suas competências, façam todos os esforços para impedir a construção do referido edifício, encontrando as soluções de compromisso que permitam salvaguardar o interesse público.»

abril 12, 2005

Arno Gruen: da loucura dos «sãos»

«Esta loucura não reconhecida ameaça a humanidade mais que nunca porque nunca o potencial destrutivo nas mãos dos famintos de poder foi tão grande como hoje. Este tipo de doença difere da do esquizofrénico num ponto essencial: o esquizofrénico encontra-se numa luta consigo próprio para conseguir lidar com um mundo insuportável; a loucura dos «sãos» é, pelo contrário, uma luta na qual outros têm de ser vencidos para que eles próprios se possam sentir seguros.»

Arno Gruen, A Loucura da Normalidade.

abril 08, 2005

Política mais respirável

Os muitos Narcisos, Mesquitas e Torres instalados nas autarquias do país, para já não falar no extremo caso do Jardim insular, há muito que haviam tornado evidente a necessidade de limitar os mandatos políticos.

É, por isso, de saudar que o governo de Sócrates tenha avançado com a proposta de lei que limita o tempo de exercício consecutivo de mandatos executivos a um máximo de 12 anos. E isso abrange desde os presidentes de Junta até ao primeiro-ministro.

E é tanto mais de saudar quanto toda a gente, incluindo boa parte dos políticos, também já há muito constatara os malefícios da eternização dos líderes nas câmaras municipais ou governos regionais. O problema é que, graças a muito cautelismo e a múltiplos clientelismos partidários, nunca se avaçara com uma medida destas.

O sistema político português passa a ficar um pouco mais respirável.

abril 06, 2005

Jornalismo na Web

Aqui ao lado, no Travessias Digitais, escreve-se sobre o livro Web Journalism, de James Glen Stovall.

abril 05, 2005

Nasce o Travessias Digitais

O Travessias Digitais nasce hoje como blogue-satélite deste Travessias generalista. O Travessias Digitais acolherá textos, apontamentos, breves reflexões e dicas sobre novos media (com particular destaque para a Internet), jornalismo e ciberjornalismo.

O Travessias Digitais arranca a título experimental e a sua actualização será intermitente.

Televisão beata

No blogue Causa Nossa,Vital Moreira escreve certeiro: «Com a total rendição da sua programação ao falecimento e às exéquias do Papa (noticiários, reportagens, comentários, filmes de temática religiosa, música sacra, missas, homenagens, etc.) a RTP concorre seguramente para o título oficial da mais católica televisão do mundo. Merece ser beatificada.»

abril 04, 2005

Berlusconi: "un'ecatombe in tutta Italia"

Berlusconi, um dos maiores cancros políticos da Europa, levou uma monumental banhada nas eleições regionais de ontem. Segundo sondagens à boca das urnas, perdeu seis das oito regiões que detinha.

Pelo seu perfil meio João Jardim, é de crer que o homem não se demita. O que é uma pena. Para os italianos e para o resto do mundo civilizado.


A ler:
"Citizen" Berlusconi
Perfil de Berlusconi

abril 03, 2005

Expresso online sem pedalada

Mais de 24 horas depois do falecimento do papa, a "manchete" do Expresso online é: "João Paulo II: estado de saúde piora".

Não há ciberjornalismo que resista a tanto amadorismo.

De olhares: terra de abundância?

Land of Plenty é um filme de difícil digestão para: optimistas militantes, "neocons", distraídos da vida, falcões de guerra, neoliberais a todo o transe, ingénuos, "filobushistas", obtusos de carreira e directores de jornais portugueses de direita.

Quanto ao resto, esta obra cinematográfica, politicamente empenhada, é sem dúvida um bom momento na carreira do realizador alemão Wim Wenders.

abril 01, 2005

Criminosos de guerra

Milhares de mortos civis iraquianos depois, os Estados Unidos reconhecem, finalmente, que estavam «absolutamente enganados» sobre o arsenal de armas de destruição maciça de Saddam que justificou a invasão do Iraque em 2003.

Isto é, os EUA invadiram e arrasaram um país soberano, mataram milhares de civis, atiraram para a cova mais de mil soldados seus e arruinaram de vez a sua reputação nos quatro cantos do mundo, tudo porque se basearam em "palpites" completamente errados dos seus serviços secretos, que surgem agora como o bode expiatório perfeito para esconder os verdadeiros motivos que conduziram à invasão.

Não era de sentar os rabos de Bush e de Blair no Tribunal Penal Internacional de forma a responderem por crimes contra a humanidade?

março 31, 2005

Choque cívico

Sócrates quer dar um choque tecnológico na nação de forma a catapultá-la para o futuro da globalização e da competitividade. Tudo bem. O problema é que o país precisava, antes, de um verdadeiro choque cívico e cultural.

Este país, que quer imitar o "milagre económico" finlandês ou irlandês e integrar o "pelotão da frente" da Europa, é o mesmo da estagnação generalizada da civilidade.

Pejado de novos-ricos, chicos-espertos de toda a espécie e de aves de rapina multicolores, é, também e ainda, o país que se mata alegremente na estrada todos os dias, que condena mulheres em tribunal pela prática de aborto, que tem na fuga ao fisco motivo de orgulho patriótico, que cospe para o chão e urina contra as paredes, que faz dos passeios das cidades cinzeiro, caixote de lixo e cocódromo dos cachorros de trela, que fuma dentro de hospitais, locais de trabalho e restaurantes, que destrói impunemente a paisagem a doses cavalares de betão e que suja rios e ribeiros com toda a espécie de porcaria que possa lá despejar.

Ainda ninguém conseguiu enfiar na cabeça de muito bom português que, fora de casa deles, o espaço é de todos. Não é o espaço dos "outros" ou de "ninguém". É nosso. Colectivo. Deve ser respeitado e, se não for pedir muito, bem tratado.

A falta de cultura cívica do português, tema meio tabu, em que ninguém parece interessado em tocar, é transversal: ataca todos os estratos sociais. Os reflexos mentais são curtos, imediatos: "isto não é meu, que se lixe!" Toca a sujar, a conspurcar, a destruir, a maltratar, a enganar, a poluir. E quem não estiver bem, que se ponha melhor.

O choque nisto tudo era bem mais urgente. Só que é infinitamente mais difícil que o choque tecnológico. E, afinal, Portugal já tem tantos problemas para resolver...

março 28, 2005

Infopropaganda

Que Bush pague a comentadores para que façam propaganda do governo e que o mesmo Bush ache natural que as televisões locais do seu país exibam "peças de estilo noticioso" produzidas, à custa de dinheiros públicos, por departamentos governamentais, não é propriamente grande novidade, dado o débil calibre intelectual da figura em causa.

O que é chocante nesta história é as televisões colocarem no ar as tais "peças noticiosas" sem informarem os telespectadores de que foram produzidas pelo governo. Os canais funcionam assim como uma espécie de rameiras enganadoras. E aqui, sim, reside a principal fonte de preocupação.

É que, um pouco por todo o lado, a comunicação social aparece cada vez mais vergada a diversos tipos de poderes, com destaque para o político e o económico, cujos interesses se cruzam sistematicamente. A celebrada autonomia do campo jornalístico vai sucumbindo, paulatinamente, às mãos da influência e do dinheiro. Talvez por isso o jornalismo de investigação esteja em vias de extinção. É demasiado caro e incómodo para os poderes instalados.


março 25, 2005

'Stress' de guerra

Vamos lá ver: se eu trabalhasse, como jornalista, no JN, no DN, na Grande Reportagem ou na TSF e me dissessem que o meu futuro patrão foi dono de um bar de "strip tease" no Porto e é grande amigo de Pinto da Costa, também eu era capaz de ficar um bocadito preocupado...


A ler:
Órgãos da Lusomundo Media pedem garantias à Controlinveste


março 24, 2005

Já não se pode morrer em paz

O princípio da notícia: «O 11º círculo do Tribunal de Recursos dos Estados Unidos, em Atlanta, rejeitou ontem um pedido para repor o tubo de alimentação que há mais de 15 anos mantém viva Terri Schiavo, uma mulher de 41 anos em estado vegetativo desde 1990.» (in Público)

O fim da notícia: «Vários grupos religiosos, associações conservadoras e legisladores republicanos estão a movimentar-se no sentido de forçar o Senado Estadual da Florida a aprovar uma lei que force a reinserção do tubo digestivo que alimenta a paciente.» (ibid.)

Esta pia gente religiosa, conservadora, republicana, tão lesta a defender a vida quanto a assinar condenações à morte, precisava mesmo era de sacudir a água benta e ir ver o filme de Clint Eastwood, por sinal, um realizador republicano. Em Million Dollar Baby veriam o quanto custa lutar para entrar na vida e ter de lutar de novo para poder sair dela. Com dignidade.