março 23, 2005

Moral paradoxal

O presidente dos EUA e muita da direita religiosa daquele país são moralmente pró-vida: contra o aborto, contra a eutanásia e... contra o fim da pena de morte.

março 22, 2005

Xutos e pontapés no Porto

O número de asneiras urbanísticas e arquitectónicas que o Porto tem feito nos últimos anos já ultrapassa certamente o cocuruto da Torre dos Clérigos. Vão do desastre de algumas obras da Porto 2001, como é o caso do Jardim da Cordoaria e da caixa de sapatos envidraçada que Nuno Cardoso implantou em frente ao mar e que hoje parece um edifício de Sarajevo, até ao recentíssimo triste caso da Casa da Música.

Pois esta promissora e problemática obra do arquitecto Koolhas vai mesmo, confirmando todas as piores expectativas, algo em que a Invicta se especializou, levar com um mamarracho de sete andares nas suas traseiras, sede de um banco todo envidraçado. Problemas de terrenos, contrapartidas para aqui, ameaças de pedidos de indemnização para acolá, a Câmara tesa que nem um virote, tudo se conjugou primorosamente para chegarmos a mais uma aberração e a um atentado, antes de mais nada, a um mínimo de bom senso.

Do alto da Casa da Música era suposto ter-se vistas para o mar. Mas não. Vamos antes poder contemplar as paredes espelhadas de um dos negócios mais lucrativos do país. E não é de música que estamos a falar.

Uma casa como a da Música merecia uma envolvente adequada que não a sede do BPN. E das duas uma: ou se construía a casa onde está hoje acautelando, logo à partida, situações absurdas como a que agora foi aprovada pela Câmara ou tinha-se escolhido outro local para a construção.

Assim, já em Abril, vamos poder ouvir música com trolhas a acompanhar, pois as obras do banco começam no mês da inauguração da Casa da Música.

Está na altura de os portuenses serem mais exigentes com os seus autarcas, que cultivam um gosto algo perverso pela apresentação de factos consumados ou irreversíveis. O espaço público (nosso, portanto) da cidade é constantemente violado por decisões de políticos impreparados, quando não completamente incultos, e por arquitectos meio egocêntricos, quando não autistas. Os arquitectos não são vacas sagradas. Eles passam, a cidade fica. Por vezes, muito mal tratada por eles. Como salta à vista.

março 20, 2005

As novas melgas

Chamam-lhes agora "televisões corporativas". A expressão tem, por si só, ressonâncias perturbadoras, pois remete-nos para o universo das grandes corporations multinacionais, doidas por lucro, sem rosto, ética ou escrúpulos. Pois as tais "televisões corporativas" estão, pelo que nos diz o Público de hoje, a conquistar o espaço público urbano a bom ritmo. Bom, como quem diz...

Há algum tempo, cheguei aqui a falar na "televisação total" do espaço público. O trabalho do Público mostra que a coisa avançou e está a atingir níveis próprios de uma pandemia. Ecrãs de televisão mostrando publicidade e conteúdos diversos, incluindo notícias, esperam-nos a cada esquina: nas ruas, nos tranportes públicos, nos centros comerciais, estádios de futebol, gasolineiras, cinemas, livrarias, restaurantes. Ainda não se lembraram das igrejas, mas... Onde quer que esteja um pacato cidadão susceptível de ser recrutado para a carreira de público-alvo, estará cada vez mais um ecrã.

Ler no metro sem ser assaltado pelo som de "spots" publicitários, conversar em voz baixa enquanto se saboreia um arroz de tamboril num restaurante ou simplesmente passear na rua sem ter que, a cada passo, levar com uma cena de apanhados ou com um anúncio bombástico são hábitos prestes a passar à clandestinidade.

Um dos responsáveis por este novo polvo pubicitário explica que a ideia é "apanhar" (o termo é dele), por exemplo, os jovens que não vêem televisão em casa. Portanto, "apanha-se" a rapaziada no metro de forma a impingir-lhes o novo telelé da Nokia ou uma ligação ultrasónica à Net.

Estes ecrãs são verdadeiros pontos de fuga intrusivos. Sugam o olhar, onde quer que ele esteja, e impingem-lhe a imagem. Não distraem: cortam a distracção, interrompem o devaneio, a simples conversação. São um ruído de fundo incómodo. Uma chatice.

A publicidade é um cão que não nos larga.


A ler:
Ecrãs de televisão invadem espaços públicos das cidades

março 05, 2005

Gente crescida

Comparado com aquele intragável bando de patos que constituía o desgoverno de Santana Lopes, o governo de Sócrates é do outro mundo. Civilizado, entenda-se... E Freitas do Amaral é ali uma requintadíssima e absolutamente deliciosa provocação aos novos-beatos do PP.

março 02, 2005

Jarrett em Colónia


Se há discos eternos, The Koln Concert é, seguramente, um deles.

fevereiro 26, 2005

publico.pt: regresso ao passado?

O público.pt tem um novo aspecto gráfico e prepara-se para começar a cobrar pelo acesso ao site.

Ora, antes disso, talvez não fosse má ideia que o publico.pt resolvesse precisamente problemas graves do novo aspecto gráfico. É que os textos em bruto da versão impressa que nos aparecem no ecrã fazem lembrar os primeiros tempos do shovelware dos jornais na Web, em que os conteúdos do papel eram despejados quase sem tratamento para os sites.

Dez anos depois do início da aventura dos jornais electrónicos, apresentarem-nos nacos enormes de prosa sem sequer separação de parágrafos é algo completamente inaceitável. Quem quer dar o passo arriscado da cobrança pelos conteúdos tem de fazer melhor. Ou, pelo menos, o mínimo.

fevereiro 25, 2005

Desastre à vista

Não augura nada de bom a anunciada negociata da venda dos media da Lusomundo ao dono da Olivedesportos. Entregar títulos da envergadura do JN, DN, Grande Reportagem e TSF a alguém que fez fortuna nessa autêntica escola do crime que é o mundo do futebol é, no mínimo, uma enorme irresponsabilidade política e social.

A PT, por manifesta falta de competência e de conhecimento das especificidades do negócio dos media, em geral, e do jornalismo, em particular, cometeu erros de palmatória ao longo dos últimos anos. A gestão do "caso DN" fica como símbolo maior dessa incompetência, em parte determinada pela interferência descarada e nociva do governo.

Agora, o que os media da Lusomundo menos precisavam neste momento era de um pára-quedista futeboleiro endinheirado para lhes tratar da vida. A PT hipotecou muita da credibilidade dos antigos media do coronel Silva, pelo que o que estes precisavam mesmo era, por exemplo, de uns espanhóis com o peso e o prestígio do grupo Prisa, proprietário do maior diário do país vizinho, El Pais.

Augusto Santos Silva, pessoa avisada, já torceu o nariz ao anunciado negócio com a Olivedesportos. Este dirigente socialista, que também está preocupado com a concentração dos media, diz, e bem, que «o negócio da comunicação social tem especificidades, pelo que os grupos proprietários devem estar interessados e qualificados para este negócio.»

A pressa com que os administradores da PT, cuja única e exclusiva preocupação parece ser financeira, estão a fazer o negócio também levanta algumas dúvidas. Convém ficar de pé atrás. Esperemos que o novo governo de Sócrates não se deixe enganar por estes espertalhaços de meia tigela.

fevereiro 21, 2005

É bem feito

Santana Lopes deixou de ser um problema para o país para passar a ser uma catástrofe para o PSD.

Pronto, já passou o pesadelo

Já havíamos sido invadidos por tudo quanto é gato e sapato: túrdulos, cartagineses, celtas, romanos, vândalos, suevos, visigodos, árabes, espanhóis, franceses e até pelos jogadores de futebol do Brasil.

No final do ano da desgraça de 2004, uma fina ironia, do mais recortado mau gosto barrosista, trouxe à história de Portugal e ao seu governo uma nova horda de povos bárbaros vindos das profundezas da Lapa, da linha do Estoril, dos recantos das sacristias, das capas de revista de gente gira e oca e das trevas noctívagas do Kremlin lisboeta. Em pouco tempo, estes neo-hunos da política devastaram o território e, à boa maneira napoleónica, pilharam quantos "jobs" havia para os seus rapazes.

Seria preciso esperar pelo dia 20 de Fevereiro de 2005 para Portugal reentrar no século XXI, depois de um impensável acidente histórico e quântico que o atirou, durante alguns meses, para as fogueiras de uma direita da Idade Média.

fevereiro 12, 2005

Voto contra

Diz-me com quem andas, digo-te em quem não voto: «José Sócrates e Santana Lopes, por exemplo, estiveram presentes na última festa de anos que Joaquim Oliveira deu na sua moradia em Bicesse.» (Expresso, 12.02.2005).

Joaquim Oliveira é accionista maioritário da Olivedesportos, candidata (bem posicionada, pelos vistos) à compra dos media da Lusomundo. O mundo da bola, dos negócios e da política em todo o seu execrável esplendor.

fevereiro 11, 2005

Tascas

Um bom restaurante com a televisão ligada ao jantar, é mau. Um bom restaurante com o televisor sintonizado na Sport TV em altos berros vira uma baiuca.

fevereiro 01, 2005

De leituras: blogues

«O que os melhores blogues individuais tendem a partilhar é a autenticidade - são peças claras, escritas por seres humanos, imbuídas de genuína paixão humana.» Dan Gillmor, Nós, os Media.

janeiro 28, 2005

De ouvido: saxofone colossal



Ora aqui está um belíssimo álbum para aquele tipo de ouvido que quando ouve falar de jazz puxa da pistola. Sonny Rollins no seu melhor. De preferência, ao fim da tarde.

janeiro 27, 2005

Aquele abraço

O Travessias envia daqui um abraço de solidariedade aos nove mil intelectuais, activistas e artistas norte-americanos que, nas páginas do New York Times, assinaram uma "declaração de consciência" em que apelam à mobilização contra o governo de George W. Bush.

Noam Chomsky, Rickie Lee Jones, Ry Cooder, Russel Banks, Lawrance Ferlinghetti e Peter Coyote contam-se entre os milhares que estão contra «guerras criminosas contra países estrangeiros, a tortura, a violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão».

Estes americanos esclarecidos sabem do que falam. Ainda hoje, de madrugada, a SIC Notícias exibiu um documentário, de um canal francês, sobre a onda de conservadorismo radical, a roçar o fanatismo religioso, que tem invadido, qual pandemia, alguns estados dos EUA.

O candidato desta gente, que quer impor a decência e os bons costumes pela força da lei e do lóbi, a começar pela censura pura e dura nos media, é, naturalmente, o evangélico Bush, que se acha imbuído de uma visão messiânica para o mundo. Chiça!

janeiro 25, 2005

Curta e grossa

«A televisão é uma ladra do tempo». Karl Popper.