fevereiro 25, 2005

Desastre à vista

Não augura nada de bom a anunciada negociata da venda dos media da Lusomundo ao dono da Olivedesportos. Entregar títulos da envergadura do JN, DN, Grande Reportagem e TSF a alguém que fez fortuna nessa autêntica escola do crime que é o mundo do futebol é, no mínimo, uma enorme irresponsabilidade política e social.

A PT, por manifesta falta de competência e de conhecimento das especificidades do negócio dos media, em geral, e do jornalismo, em particular, cometeu erros de palmatória ao longo dos últimos anos. A gestão do "caso DN" fica como símbolo maior dessa incompetência, em parte determinada pela interferência descarada e nociva do governo.

Agora, o que os media da Lusomundo menos precisavam neste momento era de um pára-quedista futeboleiro endinheirado para lhes tratar da vida. A PT hipotecou muita da credibilidade dos antigos media do coronel Silva, pelo que o que estes precisavam mesmo era, por exemplo, de uns espanhóis com o peso e o prestígio do grupo Prisa, proprietário do maior diário do país vizinho, El Pais.

Augusto Santos Silva, pessoa avisada, já torceu o nariz ao anunciado negócio com a Olivedesportos. Este dirigente socialista, que também está preocupado com a concentração dos media, diz, e bem, que «o negócio da comunicação social tem especificidades, pelo que os grupos proprietários devem estar interessados e qualificados para este negócio.»

A pressa com que os administradores da PT, cuja única e exclusiva preocupação parece ser financeira, estão a fazer o negócio também levanta algumas dúvidas. Convém ficar de pé atrás. Esperemos que o novo governo de Sócrates não se deixe enganar por estes espertalhaços de meia tigela.

fevereiro 21, 2005

É bem feito

Santana Lopes deixou de ser um problema para o país para passar a ser uma catástrofe para o PSD.

Pronto, já passou o pesadelo

Já havíamos sido invadidos por tudo quanto é gato e sapato: túrdulos, cartagineses, celtas, romanos, vândalos, suevos, visigodos, árabes, espanhóis, franceses e até pelos jogadores de futebol do Brasil.

No final do ano da desgraça de 2004, uma fina ironia, do mais recortado mau gosto barrosista, trouxe à história de Portugal e ao seu governo uma nova horda de povos bárbaros vindos das profundezas da Lapa, da linha do Estoril, dos recantos das sacristias, das capas de revista de gente gira e oca e das trevas noctívagas do Kremlin lisboeta. Em pouco tempo, estes neo-hunos da política devastaram o território e, à boa maneira napoleónica, pilharam quantos "jobs" havia para os seus rapazes.

Seria preciso esperar pelo dia 20 de Fevereiro de 2005 para Portugal reentrar no século XXI, depois de um impensável acidente histórico e quântico que o atirou, durante alguns meses, para as fogueiras de uma direita da Idade Média.

fevereiro 12, 2005

Voto contra

Diz-me com quem andas, digo-te em quem não voto: «José Sócrates e Santana Lopes, por exemplo, estiveram presentes na última festa de anos que Joaquim Oliveira deu na sua moradia em Bicesse.» (Expresso, 12.02.2005).

Joaquim Oliveira é accionista maioritário da Olivedesportos, candidata (bem posicionada, pelos vistos) à compra dos media da Lusomundo. O mundo da bola, dos negócios e da política em todo o seu execrável esplendor.

fevereiro 11, 2005

Tascas

Um bom restaurante com a televisão ligada ao jantar, é mau. Um bom restaurante com o televisor sintonizado na Sport TV em altos berros vira uma baiuca.

fevereiro 01, 2005

De leituras: blogues

«O que os melhores blogues individuais tendem a partilhar é a autenticidade - são peças claras, escritas por seres humanos, imbuídas de genuína paixão humana.» Dan Gillmor, Nós, os Media.

janeiro 28, 2005

De ouvido: saxofone colossal



Ora aqui está um belíssimo álbum para aquele tipo de ouvido que quando ouve falar de jazz puxa da pistola. Sonny Rollins no seu melhor. De preferência, ao fim da tarde.

janeiro 27, 2005

Aquele abraço

O Travessias envia daqui um abraço de solidariedade aos nove mil intelectuais, activistas e artistas norte-americanos que, nas páginas do New York Times, assinaram uma "declaração de consciência" em que apelam à mobilização contra o governo de George W. Bush.

Noam Chomsky, Rickie Lee Jones, Ry Cooder, Russel Banks, Lawrance Ferlinghetti e Peter Coyote contam-se entre os milhares que estão contra «guerras criminosas contra países estrangeiros, a tortura, a violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão».

Estes americanos esclarecidos sabem do que falam. Ainda hoje, de madrugada, a SIC Notícias exibiu um documentário, de um canal francês, sobre a onda de conservadorismo radical, a roçar o fanatismo religioso, que tem invadido, qual pandemia, alguns estados dos EUA.

O candidato desta gente, que quer impor a decência e os bons costumes pela força da lei e do lóbi, a começar pela censura pura e dura nos media, é, naturalmente, o evangélico Bush, que se acha imbuído de uma visão messiânica para o mundo. Chiça!

janeiro 25, 2005

Curta e grossa

«A televisão é uma ladra do tempo». Karl Popper.

janeiro 23, 2005

"Nós, os Media"

Ora aí está um livrinho a pedir para ser lido: Nós, os Media, de Dan Gillmor, em boa hora publicado pela Editorial Presença, de quem tomo de empréstimo a sinopse desta obra:

Neste livro,«o foco da atenção incide nas novas possibilidades da Era da Comunicação Global. Actualmente, os grandes media como jornais, canais televisivos, rádio, geralmente propriedade de monopólios, começam a ver os seus poderes ameaçados devido às consequências da crescente facilidade com que se acede à Internet e às ferramentas que ela disponibiliza a custos reduzidos. Invertendo os papéis, esta nova revolução tecnológica, permite que os utilizadores passem a ser eles próprio produtores de notícias e outros conteúdos, dando origem a uma espécie de jornalismo cívico».

«Gillmor analisa este fenómeno com grande clareza e conhecimento de causa, e mostra como é que as salas de conversa (chats), os fóruns, emails e listas de emails, e, acima de tudo, os weblogues, levaram a que o cidadão anónimo possa comunicar em tempo real e em interacção com muitos outros produtores, situados em espaços geográficos diferenciados. (...) Gillmor aprofunda esta dinâmica em múltiplas direcções e questiona as suas possíveis evoluções à medida que forem surgindo tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas. Alerta sobre as potencialidades e perigos desta mudança, e o seu impacto sobre as formas de organização da vida social.»

Dan Gillmor's eJournal

janeiro 22, 2005

O verdadeiro humorista

Qual Jay Leno qual quê! O verdadeiro humorista da América chama-se Michael Moore e passa hoje, com o seu "show" pertinentemente crítico, divertido e corrosivo, no canal por cabo AXN, às 16 horas.

A televisão dos nossos dias é assim: temos de andar a pescar umas poucas pérolas no meio de toneladas de lama e lixo.

janeiro 20, 2005

Os custos do "lambe-botismo"

Os autarcas Fernando Gomes e Nuno Cardoso deram autênticos festivais de lambe-botismo em relação ao Futebol Clube do Porto quando estiveram à frente da Câmara da Invicta. O primeiro já foi falado para suceder a Pinto da Costa (por que será?). O segundo está a provar o sabor de um ditado por inventar: cá se lambem, cá se pagam.

Citações filosóficas

«A inveja (em Portugal) é mais do que um sentimento. É um sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja.» José Gil Público (16.01.2005)

«A vida quotidiana dos cidadãos está hoje ligada a aparelhos técnicos, estamos a fazer do ser vivo uma espécie de máquina técnica.» Bernard Stiegler in Expresso (15.01.2005)

janeiro 14, 2005

As salas dos milhões

Ora, façamos assim uma contabilidade rápida e rudimentar: as cidades do Porto, Gondomar, Maia, Matosinhos e Vila Nova de Gaia têm, juntas, 64 salas principais de cinema. Em 58 delas, estão a ser exibidos filmes norte-americanos. Basta consultar, por exemplo, o cartaz de cinema de hoje do jornal Público. Em Gondomar e Maia, a ocupação de cinema «made in USA» é de 100 por cento!

Agora, no mesmo jornal, uma espreitadela à programação cinematográfica das televisões nacionais. Dos nove filmes previstos para hoje na RTP1, SIC, TVI, Canal Hollywood e Lusomundo Premium, oito são norte-americanos. Salva-se O Nome da Rosa, uma co-produção entre a Alemanha, a França e a Itália...

Ora, se este panorama absolutista, esmagador de um ponto de vista estético, narrativo, cultural, linguístico e até mental, é bom para as cabecinhas que enchem as salas dos shoppings do Grande Porto e se enterram nos sofás televisivos do país, vou ali e venho já.

Ignacio Ramonet escreveu, há alguns anos, um livrinho, por alguns considerado exagerado e algo «conspirativo», em que denunciava precisamente este lamentável estado de coisas, no cinema, na televisão, na publicidade.

Em Propagandas Silenciosas, o director de Le Monde Diplomatique escreve que «a americanização dos nossos espíritos está de tal maneira avançada que denunciá-la, para alguns, parece cada vez mais inaceitável (...) A americanização penetra-nos pelos olhos. Com a temível eficácia de uma propaganda silenciosa.» E ainda: «Muitos cidadãos europeus são uma espécie de “transculturais”, mistos irreconciliáveis, possuindo um espírito americano numa pele de europeu. (...) O cinema, como se sabe, não contribuiu pouco para este estado de coisas.» O livro merece, inteiramente, uma releitura urgente.

Está na altura de gritar bem alto aos ouvidos dos distribuidores e programadores de cinema aquele slogan célebre dos Monty Python: e agora para algo completamente diferente!

Mas há sempre aquele probleminha do dinheiro, não é?...

janeiro 09, 2005

O Parlamento deles

E não é que António Barreto, infelizmente, acerta em cheio?

«Esta semana, o Parlamento foi nomeado. Três cavalheiros, Santana, Sócrates e Portas, nomearam pessoalmente cerca de 80 deputados. Visto de outro modo, mais ou menos 5.000 pessoas dos cinco partidos, reunidas em comissões locais ou nacionais, nomearam 190 deputados, ou seja, a quase totalidade do Parlamento que entra em funções dentro de seis semanas.» (in Público, 9.01.2005)