novembro 19, 2004

A caminho de 2046

Este é dos tais filmes que nos conquista mesmo antes de ser visto. 2046, do realizador Wong Kar Wai, acaba de estrear nas salas portuguesas.
Na Web, o site oficial de 2046 é uma pequena obra-prima de design, forma e cor. Vale a pena espreitá-lo. Quanto mais não seja, como aperitivo para a verdadeira fita.

novembro 18, 2004

A cor das notícias

O lapso de tempo entre a saída de Marcelo da TVI e o relatório agora apresentado pela Alta Autoridade para a Comunicação Social é, a vários títulos, histórico para a comunicação social em Portugal. A partir daqui, algumas coisas nunca serão como dantes. E ainda bem.

O caso Marcelo acabou por ser o detonador de várias bombas que estavam, há muito, à espera de rebentar. E só não explodiram antes porque os media sempre tiveram o cuidado de não apontar o dedo a si próprios e também o de dificultarem a vida a quem o quisesse fazer, tanto a partir de dentro, como de fora.

Deste curto período, a TVI sai chamuscada. Paes do Amaral ficou com a sua imagem de empresário manchada pelo calculismo e oportunismo e, diga-se, por alguma ingenuidade demonstrada na gestão deste imbróglio.

O governo, se já andava a dar canhoadas nos pés a toda a hora, enterrou-se até ao pescoço com as "bocas" infelizes de Gomes da Silva e de Morais Sarmento. Este passou a ser o governo da "censura" e do "controlo" da comunicação social, o governo da colocação dos seus "boys" em jornais, rádios e na televisão pública. A demissão, em bloco, da direcção da RTP é uma espécie de corolário lógico destas semanas loucas. Acresce que Santana e os seus muchachos fizeram tudo isto com um inacreditável amadorismo. Das nódoas desta barraca, não se livram tão cedo.

Mas quem, talvez, sai pior na fotografia é a PT. Cometeu muitos erros em muito pouco tempo, agravou-os, aos olhos de toda a gente, de forma grosseira (a forma como foram demitidos Granadeiro e Fernando Lima e o "caso" Clara Ferreira Alves, por exemplo), permitindo que passasse a ser olhada como coutada do governo. Tanto que agora, e bem, a Alta Autoridade vem propor que a PT venda os seus media para acabar com as promiscuidades. Há um pequeno problema: as eleições vêm aí.

Para os cidadãos que se querem esclarecidos, desta história ficou também um boa moral: é preciso ter muito cuidado com as cores que as notícias trazem atrás de si.

novembro 17, 2004

Martelada na foice

Jerónimo de Sousa secretário-geral do PCP é uma violenta martelada naquela já de si muito torta foice.

novembro 15, 2004

bora lá com a Cinha!

Está desfeito o mistério à volta de uma premente questão de Estado que andava por aí à solta e que se traduzia na pergunta: por que razão Santana Lopes insistira tanto com Cinha Jardim para ela não ir para a Quinta das Celebridades? Ora: porque o nosso primeiro já tinha em mente mandar José Rodrigues dos Santos para a quinta dos infernos.

A única questão verdadeiramente importante, realmente palpitante, que se coloca agora é a de saber quem a Cinha vai escolher para suas adjuntas à frente do serviço público.

Um conto budista

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera é, a todos os títulos, um belo filme. Dele dizem tratar-se de um conto budista. Talvez seja uma boa síntese.

O realizador, o sul-coreano Kim Ki-duk, sintetiza desta maneira: «Tentei retratar a alegria, a ira, a tristeza e o prazer das nossas vidas através de quatro estações e através da vida de um monge que vive num templo rodeado apenas pela natureza.»

Desta obra muito haveria a dizer e a escrever, sendo certo que alguns sentidos da espiritualidade oriental nos escapam, certamente, a nós, ocidentais. Mas o mínimo que se pode dizer é que este é um filme que nos lava a alma.

A não perder, portanto. Está em exibição no Porto, no (em muito boa hora) renovado cinema Passos Manuel. O site que a Sony fez para Primavera, Verão, Outono... e Primavera merece também uma espreitadela.

novembro 11, 2004

As telas do Porto

A cidade do Porto, esta atrasada segunda cidade do país, lá vai saindo, devagarinho, da idade das trevas cinematográficas em que se encontra mergulhada há já algum tempo.

A vaga de encerramentos de salas nos últimos anos deixou a Invicta na mais absoluta penúria, com menos de meia dúzia de espaços. O povo fugiu todo para os shoppings de Gaia, Matosinhos, Gondomar, onde se empanturra alegremente com pipocas e cinema de Hollywood.

O cartaz de cinema de hoje, no entanto, oferece uma alternativa prometedora: o cinema Passos Manuel, ali ao lado do Coliseu, reabriu e parece apostar em cinema com "C" grande. Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, de Kim Ki-duk, é um excelente pontapé de saída.

O mesmo proprietário do Passos Manuel também é o responsável pela programação da sala-estúdio do Teatro Campo Alegre. Lá poderemos ver Segunda de Manhã, de Otar Iosseliani.

Estes dois filmes há muito foram exibidos em Lisboa. Caso o Passos Manuel e a sala-estúdio do Campo Alegre não existissem, provavelmente não seriam mostrados no Porto. Pelos menos, tão cedo.

Apesar destes passinhos positivos, a cidade continua a precisar de uma cinemateca como de pão para a boca. Mas se nem um mísero canal de televisão regional consegue aguentar...


novembro 06, 2004

Lenha para a fogueira

Era previsível. Quando, um dia, se mexesse a sério no vespeiro que é o mundo das ligações obscuras entre o poder político, e outros poderes, com a comunicação social, o efeito seria de dominó. Nos últimos tempos, quase diariamente, as peças vão caindo umas sobre as outras, deixando a nu a podridão do jogo.

No Público de hoje, mais lenha para a fogueira: As agências de comunicação e o poder .

No Expresso, a crónica de Clara Ferreira Alves é de leitura obrigatória. Título: Os «merdia».


novembro 05, 2004

Os mandamentos de Savater

«Todavia, nós, os não-crentes, acreditamos nalguma coisa: no valor da vida, da liberdade, e da dignidade, e que o gozo dos homens está nas mãos deles e de mais ninguém. São os homens que devem enfrentar com lucidez e determinação a sua condição de solidão trágica, porque é essa instabilidade que abre caminho à criação e à liberdade.»

Fernando Savater, Os Dez Mandamentos no Século XXI.

novembro 04, 2004

Dedo em feridas do jornalismo

O constitucionalista Vital Moreira pôs hoje o dedo nalgumas feridas do jornalismo que os próprios jornalistas parecem, por vezes, nem sequer reconhecer que as têm.

Primeiro: há uma relação de "promiscuidade" entre os jornalistas e os governos. Não serão todos os jornalistas, nem sequer a maioria, mas os que existem são em número suficiente para dar cabo do bom nome da profissão. O recente desfile de misérias na Alta Autoridade para a Comunicação Social trouxe muito deste lixo à superfície. Entretanto, a passeata obscena entre redacções e assessorias de todo o tipo prossegue, perante a apatia inexplicável, e escandalosa, do Sindicato dos Jornalistas.

Segundo: Vital Moreira defende a criação de uma entidade reguladora e fiscalizadora dos profissionais da comunicação social. É evidente que essa entidade já há muito deveria existir. Talvez não se tivesse chegado ao pântano em que hoje boa parte do jornalismo nacional está enterrado. O jornalismo anda hoje em roda livre, entregue a si próprio e a uma mirífica "auto-regulação" que só serve para os jornalistas se enganarem a si próprios, enquanto as condições de exercício da profissão se vão deteriorando gravemente a vários níveis. É uma verdade tão simples quanto estapafúrdia: o jornalista que viola o código deontológico da profissão não tem qualquer sanção. Pelo menos, que se veja...

novembro 03, 2004

Pobre América

A América lúcida, aquela que vive no século XXI, está de luto. O resto do planeta também.

outubro 28, 2004

Site do Clube de Jornalistas

A comemorar 20 anos de existência, o Clube de Jornalistas inaugura hoje o seu site, com o objectivo de «alargar o espaço de debate, reflexão e intervenção pública dos jornalistas sobre todas as questões relacionadas com o mundo da informação (escrita, radiofónica, televisiva e on-line) numa perspectiva não corporativa.»

Vem em muito boa altura, este sítio. Abre num dos períodos mais críticos da comunicação social portuguesa após o 25 de Abril, numa altura em que um bando de governantes ineptos e irresponsáveis resolveu abrir caça à liberdade de imprensa e de expressão, com a cumplicidade de alguns empresários pacóvios e vários "jornalistas" bananas. Como diria o outro, há que dizê-lo com frontalidade. Hoje mais do que nunca.

outubro 26, 2004

O comissariado mata

Quando, há quase um ano, bati com a porta no DN, por discordar da nomeação do assessor-"jornalista" Fernando Lima para director e dos nomes que escolheu para a sua equipa directiva, nomeadamente no Porto, sabia que o que ali vinha para o jornal era mau. A escola do comissariado político no jornalismo tem barbas e raramente surpreende. Não surpreendeu, uma vez mais.

Só não imaginava é que esta gente, em onze meses, conseguisse a proeza de enterrar o jornal num lodo imenso de falta de credibilidade, de servilismo acéfalo, de incompetência jornalística estonteante. Os danos que estas luminárias, a começar pelo conde da PT e a acabar nos directores, causaram ao título podem, como dizem os elementos do Conselho de Redacção no seu comunicado de hoje, tornar-se irreversíveis.

Como pode um grupo de comunicação deste calibre cometer tantos disparates juntos num espaço de tempo tão curto? Como é possível que, ao fim de tanta asneira, ainda consigam piorar as coisas com a novela inenarrável do convite e recusa a Clara Ferreira Alves? Que raio de director é aquele que está ali a fingir que não é nada com ele ao mesmo tempo que a "sua" redacção se esfrangalha? Os patrões da PT e os seus amigos do governo ensandeceram de vez?

Vale a pena ler o comunicado de hoje do Conselho de Redacção do DN, que o Público.pt transcreve na íntegra. É assustador.

Cadeira eléctrica

Clara Ferreira Alves recusou o convite para dirigir o DN, «por não acreditar que a Lusomundo Media e a Global Notícias estivessem dispostas a reunir as condições necessárias para voltar a fazer do 'Diário de Notícias' um diário de referência, isenção e aceitação pública».

O cargo de director do DN é agora uma cadeira eléctrica. Quem para lá for, queima-se.

outubro 23, 2004

Criaturas dos média

Excelente síntese, esta de Augusto Santos Silva, no Público:

«As criaturas que hoje justificadamente assustam tantos jornalistas, e tornam "irrespirável" o ambiente vivido em tantas redacções, são, a maior parte delas, criações de jornalistas. Estejam, aliás, em que pólo partidário estiverem - no PSD e no PP, como no PS e no BE.»

Uma escolha intrigante

Há qualquer coisa que não bate bem nisto. É uma «fonte governamental» a confirmar ao Expresso que Clara Ferreira Alves vai ser a nova directora do DN? É o governo que já tem a certeza, que garante, mesmo antes dos administradores do DN (o próprio director diz estar a leste), a nomeação de Ferreira Alves?

Das duas uma: ou a notícia tem um lead propositadamente venenoso, conduzindo o leitor para a conclusão de que Clara Ferreira Alves é, antes de mais, uma escolha do governo, ou, de facto, o DN vai persisitir no erro de ter a sua imagem colada a boletim oficial dos poderes no activo, imagem essa que lhe tem saído muito caro em termos de credibilidade e vendas.

De qualquer modo, Clara Ferreira Alves irá partir para o cargo com um rótulo pouco abonatório nos dias que correm: a de ter boas relações com Santana Lopes, que a escolheu para dirigir a Casa Fernando Pessoa. Somado a tudo o resto a que temos assistido, sobretudo em termos de tentativas de controlo da comunicação social por parte do governo, a nova directora do DN, independentemente das suas qualidades profissionais, vai ter um trabalho dos diabos para se livrar do carimbo que se lhe começa a colar à pele.