setembro 01, 2004

Viagem no tempo

Portugal está, neste momento, a viver um trágico flashback, como nos filmes. O ministro da Defesa mais retrógrado de todo o sistema solar carregou num botão da sua fragata do tempo e levou o país inteiro até ao século XVI, época em que, certamente, Portas se sentirá muito bem entre as mulheres.

agosto 30, 2004

Boas notícias

O Público de ontem trazia três boas notícias naquelas páginas leves de Verão:

Primeira: vai ser lançado um DVD com uma colecção de filmes de Michael Moore (bendito efeito Fahrenheit! Tomá lá Disney!)

Segunda: A série Seinfeld, a tal brilhante série sobre nada e coisa alguma, vai voltar ao pequeno ecrã, repescada pela SIC Radical.

Terceira: um conjunto de cientistas internacionais, entrevistados pelo jornal britânico The Guardian, elegeu Blade Runner o melhor filme de ficção científica da história do cinema. É difícil não concordar com eles. A obra de Ridley Scott, baseada num livro de Philip K. Dick, é toda ela deslumbrante. Tem uma atmosfera futurista muitíssimo própria, densa e cativante, é muito bem filmado e narrado, tem um desempenho fantástico de Harrison Ford, uma banda sonora histórica de Vangelis. Além disso, é um filme tão inteligente quanto convincente nas questões que coloca. É também o meu filme de ficção científica de referência. Talvez esta seja uma boa altura (e desculpa) para revê-lo pela quinta vez.

agosto 27, 2004

Um murro no estômago

Fahrenheit 9/11 não é um documentário, não é um filme, nem sequer é um panfleto de desinformação, como muitos pretendem: é um manifesto apaixonado anti-Bush, uma violenta diatribe contra a guerra do Iraque, um libelo contra o actual sistema político dos EUA. Enquanto manifesto em forma de imagens, necessariamente subjectivo, é brilhante e eficaz.

Se tivesse de fazer um 'filme', qualquer cidadão do mundo com gosto pelas imagens em movimento e com asco pelo perfil sinistro dos neoconservadores sentados hoje na Casa Branca faria uma coisa parecida com a obra de Michael Moore. Fahrenheit é apaixonado, visceral, impiedoso, feito de raiva. Por isso faz tanta espécie a intelectuais de estirpe vária e, em particular, a conservadores de sacristia.

Fahrenheit é um murro no estômago. Expõe, por vezes com algum humor, mentiras, hipocrisias, negociatas e histórias mal contadas, quase todas com origem na Casa Branca. Coincidências? Oxalá este 'filme' contribua para arejar a cabeça de muita da populaça americana, mantida meio sonâmbula à custa de uma televisão estúpida, dócil e patriótica, e afogada numa vida de trabalho, competição e consumo alienantes.

O grande drama da América, como aliás de muitas democracias ocidentais, é que o povo não faz a mínima ideia (e muitas vezes está-se maribando) do que os seus governantes andam a fazer. A própria oposição, isto é, os democratas, também andam por lá meio perdidos nos corredores do poder. São todos uns grandes patriotas, cheios de bandeirinhas nas janelas.

Fahrenheit é o relato das aventuras de um bandido do petróleo, George W. Bush, e das suas cumplicidades com os bin Laden e outros muchachos pouco recomendáveis. Mas, mais que nos ajudar a ficar com uma ideia abaixo de cão do «homem mais poderoso do planeta», o manifesto de Moore contribui para aumentar em nós a sensação de que os EUA são, nesta fase da sua história, um caso perdido.

agosto 19, 2004

Brincar aos jornais

O Diário de Notícias continua a pregar pregos no seu próprio caixão. Desde que foi, há quase um ano, vítima de um golpe de estado 'laranja', o percurso do velho diário não era difícil de prever. A estória que hoje vem relatada nalguns jornais, sobre a decisão da Direcção editorial de retirar de página uma notícia incómoda para o governo, tem o mérito de ser absolutamente previsível.

O actual director não foi posto por acaso, e contra tudo o que um mínimo de bom senso recomendaria, à frente do jornal. O ex-assessor de Cavaco e de Martins da Cruz foi posto lá para rentabilizar o seu capital de experiência acumulada. Na assessoria, evidentemente. O custo de credibilidade, como se sabe, foi, e continua a ser, muito elevado para o jornal. As vendas aí estão para o demonstrar. Nenhum jornal do mundo que se queira de referência pode cometer um erro tão básico e grosseiro como este.

Enfim, a história não ensina nada a esta gente, que se entretém a domesticar jornais como quem brinca às casinhas, marimbando-se por completo para a função social que o jornalismo deve ter. O problema é que, democraticamente falando, é uma brincadeira muito séria, pois o país precisa como pão para a boca de jornais sólidos e credíveis, sobretudo agora que as televisões destrambelharam por completo. Precisa de um DN e um Público fortes, a competir pela excelência, e não pelas migalhas de S. Bento.

Neste episódio da notícia 'impublicável', nem tudo é mau. Graça Henriques, editora-adjunta do Nacional, percebeu que houve cedência a pressões políticas e demitiu-se. Fez muitíssimo bem. A maior parte dos jornalistas da secção pôs-se ao lado dela. O seu editor pôs-se ao lado da Direcção. Pois...

agosto 18, 2004

De leituras: apertos na Internet

«A Internet é, de ano para ano, cada vez menos livre. Cada vez há mais vigilância encoberta. Mais dados pessoais são coligidos. Mais fusões têm lugar, limitando escolhas de acesso, tanto a consumidores como a negócios. Se tens um web site pessoal e colocas nele alguma espécie de material proibido, a tua empresa hospedeira pode apagá-lo, ou mesmo fechar a tua conta, por ordem de uma autoridade governamental. Isto dificilmente é liberdade.» Mindy McAdams, Online Journalism Review.

agosto 17, 2004

O fundo do jornalismo

Vital Moreira, na sua coluna de hoje, no Público, a propósito de mais uma trapalhada lusitana, acerta em cheio:

«A gravação de conversas mantidas por um jornalista sem informar os interlocutores do registo não é somente um crime punido pelo Código Penal, mas também uma infracção deontológica grave. Que agora se saiba que se trata de uma prática longe de ser rara só torna o episódio mais inquietante. A questão vem recolocar em causa a falta de instrumentos de responsabilização e de punição dos ilícitos disciplinares dos jornalistas. O actual estado de impunidade só pode ser fonte dos piores abusos. O ilícito criminal não pode suprir a ausência de mecanismos de autodisciplina profissional. »

Nesta questão, Vital está, infelizmente, cheíssimo de razão. O jornalismo chegou a um estado de pura roda livre, onde quem fala mais alto é o mercado e os fretes políticos e pessoais. Código Deontológico é letra moribunda, quando não morta e assassinada, em muitas redacções. O Sindicato e a sua Comissão da Carteira, nesta matéria, limitam-se, há muitos anos, a ver os navios passar. A impunidade é garantida e quase total.

E não há, de facto, grandes mecanismos, quer internos, quer externos, às redacções que assegurem uma efectiva responsabilização dos jornalistas em caso de atropelo a regras básicas da profissão. Há uma coisa nebulosa a que alguns académicos chamam 'cultura de redacção' que ainda vai travando alguns excessos, sobretudo em redacções onde a noção de profissionalismo é levada mais a sério.

Nunca os jornalistas quiseram nada, nem Ordem, nem outra coisa qualquer, que lhes cheirasse a algum tipo de controlo. A polémica, há alguns anos, sobre a eventual criação da Ordem dos Jornalistas foi esmagada com o papão do regresso da censura. Bastava, diziam os detractores da mudança, a magia da auto-regulação. Passado uns bons anos, veja-se em que deu esta entrega aos próprios jornalistas da sua própria regulação...

A questão é esta: pode uma profissão (alguns acham que o jornalismo é apenas uma ocupação...) com impacto sobremaneira relevante na vida pública e na esfera privada viver sem regulação efectiva? Pode o jornalismo ser entendido como uma profissão onde vale tudo o que cada redacção deixar a cada momento? Sabendo-se, como se sabe hoje, que as leis selvagens da concorrência deixam o jornalismo de pantanas e colocam muitos jornalistas a fazerem de artistas de circo, vai continuar a acreditar-se no mercado para regular o 'espectáculo'?

É do interesse dos próprios jornalistas encararem estas graves questões de frente antes que alguém faça isso por eles. Mas, se o costume se mantiver, vamos continuar a vê-los caladinhos à espera que a má onda passe.

Sem responsabilização, sem mecanismos de punição para prevaricadores, sem travão para impunidades obscenas, a manter-se a lei da selva, o jornalismo tem o caminho certo em direcção ao fundo.

julho 30, 2004

De olhares: o cinema íntimo de Arcand

É caso para perguntar por onde andou Denys Arcand nos últimos anos. Em salas de cinema portuguesas, terá andado pouco, com certeza.

Duas obras-primas absolutas deste realizador canadiano foram agora lançadas no mercado de aluguer de DVD. Repita-se: O Declínio do Império Americano, de 1986, e As Invasões Bárbaras, de 2003, são duas obras-primas absolutas.

Ambos os filmes, cuja ligação é feita através de personagens idênticas, são densos e muitíssimo bem escritos (ambos os argumentos saíram da pena do próprio Arcand). Falam, e mostram, do mais importante da vida: o seres humanos, no seu íntimo, e as relações entre eles. Na era do triunfo absoluto do cinema-pipoca de multiplex, Arcand arrisca um cinema intimista, reflexivo. Nos antípodas dos blockbuster.

Estas duas obras de Arcand não têm personagens de meias-tintas. São vincados, ora exagerados, femeeiros, tarados sexuais, homossexuais, mentirosos compulsivos, inseguros, ora promíscuas, ingénuas, taradas, infelizes, cultas, perdidas, vazias, remediadas, etc.

O casamento, a infidelidade, o amor, a amizade, a paternidade, o dinheiro, a política, o sexo, o sentido da vida e o devir da história. Está tudo lá.

A partir da construção de um grupo de personagens constituído por pessoas cultas - no caso, professores universitários, divididos em casais e amigos - Arcand prende-nos ao ecrã com diálogos por vezes fortíssimos, tanto na linguagem como no humor.

Denys Arcand faz filmes praticamente desde os anos 60, anos cuja marca perpassa nitidamente pelas personagens que nos oferece. Há toda uma obra deste realizador a descobrir. Mais difícil será lá chegar.


julho 29, 2004

Porrada velha no Bush

Chamem-lhe os nomes que quiserem. Apontem-lhe os defeitos que pretenderem. Insultem Michael Moore, se vos aprouver. Mas vão ver Fahrenheit 9/11. É um acto de cidadania global.

julho 22, 2004

Savater: sobre aves de rapina

«As democracias actuais correm perigo porque os cidadãos se desinteressam dos assuntos comuns, cuja dimensão os desconcerta, enquanto descarados políticos profissionais se aproveitam do património de todos em benefício próprio.»

Fernando Savater, Livre Mente.


julho 20, 2004

Fado arábico

Ricardo Pais fez uma aposta arriscada de miscigenação musical e ganhou-a. Resolveu juntar no mesmo espectáculo os fadistas Camané e Argentina Santos e o libanês Rabih Abou-Khalil. O resultado foi o enriquecimento mútuo de dois tipos de espectadores que acorreram, no passado fim-de-semana, ao Teatro Nacional São João, no Porto.
 
Há quem tenha ido lá sobretudo pelo fado. Quando Khalil trouxe ao palco o seu alaúde misturado - magistralmente, diga-se de passagem - com jazz, alguns foram-se embora.
 
Quem foi sobretudo por causa de Khalil, ficou a conhecer de perto e ao vivo duas vozes magníficas do fado acompanhadas de forma impecável pelo contrabaixista Carlos Bica. 
 
Com um humor contagiante, Khalil contou, na brincadeira, que Pais estava com os copos quando pensou juntar no mesmo palco dois fadistas portugueses e o músico libanês.
 
O espectáculo encerrou com Camané a cantar em português música árabe acompanhado de alaúde, tuba, bateria e acordeão. Memorável.  

julho 16, 2004

Lapso governamental

E o Luís Delgado, dr. Santana? O tachinho para o Luís Delgado? Vossa Excelência esqueceu-se?

julho 14, 2004

Pantomina

Não é sem um frémito de divertimento que vemos Santana Lopes travestir-se em pose de estadista sempre que as câmaras de TV apontam para ele.

A pantominice é a única parte divertida desta tragédia que Sampaio nos arranjou.

julho 12, 2004

De ouvido: há sábados assim

Dois bons concertos, este fim-de-semana, no Porto, para mais tarde recordar em disco: a fantástica Lhasa de Sela e o cool Mark Turner, a fazer lembrar aqui e ali o saxofone de John Coltrane.

Lhasa teve, merecidamente, recinto cheio nos jardins do Palácio de Cristal (Pavilhão Rosa Mota é um nome horroroso), no sábado à noite. Ela tem uma voz lindíssima, um timbre ligeiramente rouco, marcante. Lançou até agora apenas dois álbuns, ambos obrigatórios para quem se deslumbra ao primeiro contacto com as suas canções. Cantou em inglês, francês, castelhano, tchecheno e... um fado. Uma bela descoberta.

Mark Turner veio ao Jazz no Parque de Serralves, também no sábado, ao fim da tarde, com o seu novo trio, Fly. Sax tenor, contrabaixo e bateria entenderam-se bem, tendo como pano de fundo o ruído ocasional dos aviões em aproximação ao aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Apesar disso, os músicos proporcionaram um bom espectáculo dentro de um jazz dinâmico, mas algo contido, pouco dado a tropelias histéricas, sobretudo por parte de Turner, de quem a revista Downbeat diz ser um dos 25 mais promissores músicos de jazz norte-americanos.

julho 10, 2004

Golpe presidencial

Ao convidar Santana Lopes a formar governo, Sampaio dá um precioso contributo para o aprofundar do cepticismo crescente dos cidadãos esclarecidos em relação ao sistema político democrático português.

Alguém com o perfil de Santana Lopes não pode, pura e simplesmente, chegar a primeiro-ministro de um país que se quer civilizado e minimamente credível, por muito que a Constituição e o entendimento que o presidente da República faz dos seus poderes o autorize.

Além do mais, o processo de subida de Santana a primeiro-ministro foi tudo menos democraticamente legítimo. É um puro golpe de secretaria, para utilizar uma expressão mais suave do que a verberada pela ministra das Finanças, que falou em «golpe de estado».

A democracia portuguesa, que tanta pancada tem aguentado por parte de muitos 'agentes' políticos de refinada mediocridade, acaba de levar um valente pontapé no rabo. Resta-nos o consolo, e a sorte, de João Jardim não ser, por acaso, o vice-presidente do PSD...

Como diria Norberto Bobbio, o excesso de democracia pode matar a democracia. O desastre Santana/Portas é claramente excessivo. Bandeira a meia haste, por favor.

julho 08, 2004

De olhares: Dolls

É o filme mais triste de Takeshi Kitano, escreveu um crítico do Expresso.
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Tem razão. Mas Dolls é também o mais belo do realizador japonês.