agosto 18, 2004
De leituras: apertos na Internet
agosto 17, 2004
O fundo do jornalismo
E não há, de facto, grandes mecanismos, quer internos, quer externos, às redacções que assegurem uma efectiva responsabilização dos jornalistas em caso de atropelo a regras básicas da profissão. Há uma coisa nebulosa a que alguns académicos chamam 'cultura de redacção' que ainda vai travando alguns excessos, sobretudo em redacções onde a noção de profissionalismo é levada mais a sério.
A questão é esta: pode uma profissão (alguns acham que o jornalismo é apenas uma ocupação...) com impacto sobremaneira relevante na vida pública e na esfera privada viver sem regulação efectiva? Pode o jornalismo ser entendido como uma profissão onde vale tudo o que cada redacção deixar a cada momento? Sabendo-se, como se sabe hoje, que as leis selvagens da concorrência deixam o jornalismo de pantanas e colocam muitos jornalistas a fazerem de artistas de circo, vai continuar a acreditar-se no mercado para regular o 'espectáculo'?
É do interesse dos próprios jornalistas encararem estas graves questões de frente antes que alguém faça isso por eles. Mas, se o costume se mantiver, vamos continuar a vê-los caladinhos à espera que a má onda passe.
Sem responsabilização, sem mecanismos de punição para prevaricadores, sem travão para impunidades obscenas, a manter-se a lei da selva, o jornalismo tem o caminho certo em direcção ao fundo.
julho 30, 2004
De olhares: o cinema íntimo de Arcand
Duas obras-primas absolutas deste realizador canadiano foram agora lançadas no mercado de aluguer de DVD. Repita-se: O Declínio do Império Americano, de 1986, e As Invasões Bárbaras, de 2003, são duas obras-primas absolutas.
julho 29, 2004
Porrada velha no Bush
julho 22, 2004
Savater: sobre aves de rapina
Fernando Savater, Livre Mente.
julho 20, 2004
Fado arábico
Há quem tenha ido lá sobretudo pelo fado. Quando Khalil trouxe ao palco o seu alaúde misturado - magistralmente, diga-se de passagem - com jazz, alguns foram-se embora.
Quem foi sobretudo por causa de Khalil, ficou a conhecer de perto e ao vivo duas vozes magníficas do fado acompanhadas de forma impecável pelo contrabaixista Carlos Bica.
Com um humor contagiante, Khalil contou, na brincadeira, que Pais estava com os copos quando pensou juntar no mesmo palco dois fadistas portugueses e o músico libanês.
O espectáculo encerrou com Camané a cantar em português música árabe acompanhado de alaúde, tuba, bateria e acordeão. Memorável.
julho 16, 2004
Lapso governamental
julho 14, 2004
julho 12, 2004
De ouvido: há sábados assim
Lhasa teve, merecidamente, recinto cheio nos jardins do Palácio de Cristal (Pavilhão Rosa Mota é um nome horroroso), no sábado à noite. Ela tem uma voz lindíssima, um timbre ligeiramente rouco, marcante. Lançou até agora apenas dois álbuns, ambos obrigatórios para quem se deslumbra ao primeiro contacto com as suas canções. Cantou em inglês, francês, castelhano, tchecheno e... um fado. Uma bela descoberta.
Mark Turner veio ao Jazz no Parque de Serralves, também no sábado, ao fim da tarde, com o seu novo trio, Fly. Sax tenor, contrabaixo e bateria entenderam-se bem, tendo como pano de fundo o ruído ocasional dos aviões em aproximação ao aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Apesar disso, os músicos proporcionaram um bom espectáculo dentro de um jazz dinâmico, mas algo contido, pouco dado a tropelias histéricas, sobretudo por parte de Turner, de quem a revista Downbeat diz ser um dos 25 mais promissores músicos de jazz norte-americanos.
julho 10, 2004
Golpe presidencial
Alguém com o perfil de Santana Lopes não pode, pura e simplesmente, chegar a primeiro-ministro de um país que se quer civilizado e minimamente credível, por muito que a Constituição e o entendimento que o presidente da República faz dos seus poderes o autorize.
Além do mais, o processo de subida de Santana a primeiro-ministro foi tudo menos democraticamente legítimo. É um puro golpe de secretaria, para utilizar uma expressão mais suave do que a verberada pela ministra das Finanças, que falou em «golpe de estado».
A democracia portuguesa, que tanta pancada tem aguentado por parte de muitos 'agentes' políticos de refinada mediocridade, acaba de levar um valente pontapé no rabo. Resta-nos o consolo, e a sorte, de João Jardim não ser, por acaso, o vice-presidente do PSD...
Como diria Norberto Bobbio, o excesso de democracia pode matar a democracia. O desastre Santana/Portas é claramente excessivo. Bandeira a meia haste, por favor.
julho 08, 2004
De olhares: Dolls
.Tem razão. Mas Dolls é também o mais belo do realizador japonês.
julho 07, 2004
Intelectuais da bola
O exercício deveria começar pela revisão do que foi escrito por alguns intelectuais da praça pública, alguns deles rendidos totalmente à glória da 'inteligência do movimento' dos jogadores, à 'filosofia de jogo' dos treinadores, ao 'êxtase orgásmico' do golo de Nuno Gomes. Mamma mia!
Para retemperar-lhes os ânimos, sempre muito pouco racionais, há um belíssimo texto a ler: 'Os heróis mitificados do Olimpismo'. Foi publicado no Monde Diplomatique de Junho e é assinado por um professor de sociologia, outro de ciências da informação e outro ainda de ciências e técnicas desportivas.
A fortíssima pedrada de Jean-Marie Brohm, Marc Perelman e Patrick Vassort no charco do desporto, em particular do futebol, reza, por exemplo, assim:
«A tal ponto que o desporto se exerce a partir de agora no mesmo registo das necessidades básicas - beber, comer ou dormir - e tornou-se o espaço-tempo quase exclusivo dessas multidões solitárias embrutecidas pela paixão do que não é essencial: um golo, um sprint, um ás. O desporto invadiu a vida quotidiana e para muitos indivíduos não há mais nada fora dele, a não ser o vazio abissal do jargão, televisionado, da inautenticidade.»
«A contaminação generalizada das consciências provém assim deste incessante matraquear desportivo-televisivo. Este, por intermédio das imagens infinitas impostas pelas tecnologias digitais que colocam cada indivíduo diante dos ecrãs (telefone portátil, home cinema, televisor, etc., celebra não apenas os novos ícones do desporto, mas destila de forma maciça a visão desportiva do mundo.»
«A ideologia da "neutralidade axiológica" nega violentamente o papel do desporto enquanto meio de embrutecimento, doutrinação e cloroformização das massas.»
E a cereja no bolo:
«Chega a ser confrangedor assistir ao modo como alguns intelectuais, geralmente mais críticos, se juntam à matilha dos fanáticos do músculo, incapazes de trazer à superfície as funções políticas reaccionárias desta desportivização dos espíritos, deste matraquear emocional falso em torno dos "nossos" campeões.»
julho 01, 2004
Voando sobre um ninho de cucos
Como se isso não bastasse, atira, de forma leviana e irresponsável, para o leme do país um gigolo político, acolitado por um miúdo com a adolescência mal curada que ambiciona chegar a ministro dos Negócios Estrangeiros. Este par de lunáticos merece, claro, todo o apoio de outros hóspedes deste ninho de cucos chamado Portugal: Alberto João Jardim, Isaltino Morais (lembram-se?), Valentim Loureiro, os autarcas do PSD, os betinhos do Pêpê...
Bom, já que o país está virado para a maluqueira total, aqui fica uma sugestão a Santana para o ajudar a escolher os seus novos ministros e até a inventar novos ministérios:
Vice-primeiro-ministro com a pasta das Adegas: Alberto João Jardim
Ministro dos Negócios Estranhos e da Nossa Senhora: Paulo Portas
Ministra das Finanças e da Estabilidade do Kremlin: Cinha Jardim
Ministro da Economia: Vale e Azevedo
Ministro do Desporto: Valentim Loureiro
Ministro da Defesa: Fernando Couto
Ministra da Saúde e dos Liftings Sociais: Lili Caneças
Ministro do Ambiente: Isaltino Morais, claro
Ministro da Agricultura: este ministério é extinto por manifesta falta de glamour
Ministério da Segurança Social: como isto é para acabar, o melhor é mesmo não perder tempo a nomear um ministro
Ministro da Justiça Arbitrária: Pinto da Costa
Ministro da Propaganda: Luís Delgado (o homem merece!)
Ministro da Educação: Avelino Ferreira Torres
Ministro da Administração Interna: Moita Flores
Ministro da Cultura: Chopin
junho 29, 2004
Bobbio: o exercício da democracia
Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia.
