maio 26, 2004

De uma certa sabedoria

Todas as guerras, mesmo as mais bárbaras, têm o seu lado burlesco. A falsa guerra do Iraque, pois trata-se aqui de invasão e ocupação, assume agora uma faceta algo apalhaçada, situada algures entre o humor dos Irmãos Marx e a total falta de senso dos Monty Python.

Não é que a CIA, agência internacional de promoção de actos terroristas de Estado, está cheia de urgência em confirmar se o Irão usou o iraquiano de fila do Pentágono, o mais que trapaceiro com provas dadas Ahmad Chalabi, para convencer os EUA a atacar Saddam? Não é que Chalabi pode ter, pura e simplesmente, dado uma gigantesca tanga aos seus 'amigos' americanos, permitindo aos iranianos vingarem-se, por interposto país, do antigo ditador de Bagdade?

Não é possível ler uma notícia destas sem ficar com um largo sorriso nos lábios. Será possível que os temíveis EUA, a encarnação do novo Império, se tenham metido no atoleiro que é hoje o Iraque por causa de uns simples e avisados conselhos de Chalabi? Seria o cúmulo da ingenuidade! A confirmar-se, o mundo inteiro, com excepção de algumas pias almas da direita portuguesa, explodiria de riso!

Os adolescentes EUA esquecem-se, com demasiada frequência, que certa sabedoria só se conquista com a espessura da história de muitos séculos.

maio 23, 2004

Histórias da carochinha

Muitíssimo mais importante que qualquer casamento monárquico-anacrónico-mediático: Michael Moore ganhou a Palma de Ouro do festival de cinema de Cannes com um filme-denúncia sobre as ligações perigosas entre os Bush e os bin Laden!

Mas o povo o que quer é histórias da carochinha...

maio 21, 2004

Circo em Madrid

Por uma questão de preservação de higiene mental, o melhor mesmo é não ligar a televisão durante este fim-de-semana. À espera dos telespectadores - e eles, infelizmente, serão a rodos, a rondar os 1200 milhões, segundo a revista Visão - estará uma orgia de directos do casamento de Felipe com uma ex-apresentadora de TV.

Seiscentas televisões em Madrid garantirão a boda de imagens comoventes, comentários ocos de jornalistas transformados em babados mestres de cerimónias, entrevistas de rua por dá cá aquela palha (o salto alto da princesa não está alto de mais?), enfim, o triste fado do costume para alimentar o vazio existencial da turba planetária basbaque que ainda se deslumbra com histórias de encantar de reis e rainhas, século XXI... Ah, e lá estarão também os intrépidos repórteres de 900 revistas do coração.

Para espectáculos televisivos penosos e degradantes, já basta o que nos oferecem todos os dias.

maio 20, 2004

Lipovetsky: média e lucro

«Sendo o objectivo a venda do maior volume de informação possível, os media privilegiam, naturalmente, os 'grandes títulos', os efeitos de choque, o inaudito, a encenação emocional. Quem pode imaginar que esta lógica de mercado possa alguma vez ser detida por nobres declarações? Será possível acreditar, por um só instante, que códigos e outros magistérios éticos sejam capazes de deter os furos jornalísticos, o espectáculo, a emoção, a simplificação, a aceleração do ritmo das notícias? Tudo isto continuará, o negócio obriga a que assim seja.»

Gilles Lipovetsky, O Crepúsculo do Dever.

maio 19, 2004

Moore está de volta

O fantástico Michael Moore já pôs Cannes a arder. Com a estreia do seu filme Fahrenheit 9/11 e com as suas declarações a propósito das mais que prováveis ligações entre a muito texana família Bush e a muito saudita bin Laden.

Mesmo antes de ser visto por cá, Fahrenheit 9/11 é já um filme obrigatório. Na linha, dura, do fabuloso Bowling for Columbine, Moore põe a nu a óbvia estupidez estrutural do actual presidente do seu país, a fraude que constituiu a eleição do actual inquilino da Casa Branca e as perigosas ligações Bush-bin Laden. Sem papas na língua, sem medo nas imagens, ao seu bom estilo.

Desde logo, o filme torna-se tanto mais apetitoso quanto foi alvo da tentativa de censura nos EUA. A gigante Disney, pressionada pelos republicanos, quis impedir a distribuição da obra, com receio do impacto nas eleições presidenciais. Moore queixa-se de a própria Casa Branca ter tentado que o filme sequer chegasse a ser realizado.

Uma das denúncias de Moore, que quer, e muito bem, ajudar a correr com Bush da presidência, é de que duas dezenas de membros da família bin Laden foram autorizados a sair do país, de avião, nos dias que se seguiram ao ataque às torres gémeas.

Nem de propósito, e para que não se pense que estas suspeitas existem apenas na cabeça de Moore, anteontem à noite a SIC Notícias exibiu um documentário, feito por jornalistas norte-americanos, onde várias testemunhas apareciam a apontar no mesmo sentido: as ligações perigosas dos Bush aos bin Laden.

Tanto que as mesmas testemunhas manifestam estranheza pelo facto de, nos dois dias a seguir ao 11 de Setembro, vários voos para a Arábia Saudita terem sido autorizados. Nessa altura, todos os voos comerciais estavam proibidos nos EUA, a não ser os que tivessem autorização especial. Donde...

Os Bush, já se percebeu, têm montes de esqueletos no armário. E fazem tudo para que ninguém os abra. As pressões sobre os media norte-americanos parecem estar a surtir o efeito que a Casa Branca pretende: os jornalistas andam quase todos mansinhos e muito patrióticos em relação ao seu emprego e não querem meter-se no sarilho de mexer em certas ossadas. A bem da democracia, claro.

Se não forem kamikazes como Moore, a história presente fica, para mal dos cidadãos, parcialmente contada. Manca. Por isso, todo o apoio ao rapaz é pouco.



maio 17, 2004

De olhares: Dogville

O primeiro filme que vi de Lars von Trier ficou bem gravado na memória. Europa é uma obra fascinante e intrigante, com aquele início fabuloso da contagem decrescente pela voz grave de Max von Sydow.

O penúltimo, Os Idiotas, parei de ver ao fim de dez minutos: a câmara, que Trier teimara em não colocar num tripé, não parava de andar para cima e para baixo, aos tremeliques e zooms, como nos vídeos caseiros. A técnica, que até o abençoado Woody Allen chegou a utilizar, põe o espectador zonzo. Felizmente, estas modas passam.

O mais recente de Trier, acabado de ver em DVD, é uma obra-prima. Dogville constitui um pequeno tratado sobre a natureza humana. Sobre a natureza humana, note-se.

O argumento foi escrito pelo próprio realizador dinamarquês, que encerra a acção numa terrinha imaginária, sintomaticamente situada nos Estados Unidos, chamada Dogville, onde vivem pessoas aperentemente como todas as outras. Triers, no entanto, desce ao inferno interior das personagens, desmascara-as, paulatinamente, de forma crua, derrapando no fim para a violência vingativa total.

Moral desta história: não há pessoas boas. Mesmo as melhores acabam por se animalizar face à adversidade que contitui sempre o confronto com o outro, os outros, em certas circunstâncias.

Dogville é, afinal, um filme sobre todos nós. Por isso, deve ser visto, ou revisto, sem hesitações.

maio 16, 2004

Televisão total

A televisão ameaça tornar-se um sufoco insuportável no século XXI. Ela já estava em muitos lados: no quarto, na sala, na cozinha, no corredor, na casa de banho, no sótão, no café, na salas de espera dos senhores doutores, nos ginásios, nos gabinetes, nas lojas de tudo quanto é negócio, nos bufetes, automóveis, comboios, restaurantes, nos centros comerciais, nas boutiques, nas discotecas e nos bares, até nalguns quiosques.

Poucos são os cafés onde hoje podemos entrar para tomar um café e ler sossegadamente um jornal sem ter de gramar com a gritaria dos comentadores da Sport TV ou com as palmas estridentes dos presentes em programas vazios de entretenimento. Em qualquer lado que entremos, lá está o pequeno ecrã no ar a exigir atenção, para que não nos esqueçamos de que ele existe e quer existir cada vez mais. Uma companhia permanente para quem já não sabe estar só.

O Expresso desta semana traz um artigo simultaneamente interessante e perturbante. Título: «Um deus chamado televisão». Fala-nos da intensificação dos esforços dos anunciantes para chegar, via TV, a todos os sítios possíveis onde haja povo-alvo. Nada escapa. A ideia é pôr caixinhas que mudaram o mundo também nos aviões, nos hipermercados, nas bombas de gasolina e onde mais se verá. A sede de vender é tremenda. Os fins (lucro) justificam todos os meios (disseminação maciça de televisores com conteúdos feitos à medida).

O ruído televisivo nos espaços privado e público prepara-se, portanto, para atingir pontos de saturação e insuportabilidade. Virá um dia em que não se poderá estar em lado algum sem que haja alguém a tentar impingir-nos «conteúdos» e respectivos anúncios. O barulho de fundo da pantalha será um continuum entre espaços.

Espera-nos a televisação total.

maio 14, 2004

Lisboa a perder

De um primeiro-ministro que apoia cegamente a invasão do Iraque, que vai à Madeira cantar loas desavergonhadas aos grandiosos feitos de João Jardim, que escolhe para ministro da Defesa um beato medieval, que adia viagens de estado para ir ao futebol, é de esperar tudo.

Por isso, quando Durão Barroso acerta alguma, é um consolo. A manchete do Público de ontem só peca por tardia: «Durão prefere Cavaco Silva em Belém e Santana em Lisboa».

Dado o preocupante nível dos possíveis candidatos até agora falados, Cavaco seria um mal menor na presidência da República. Sobretudo se anteciparmos o cenário, catastrófico, de ver sentado em Belém um gigolo político do calibre do antigo presidente do Sporting.

No meio disto tudo, quem fica a perder é Lisboa.

maio 13, 2004

Pornografia de guerra

Quando na televisão aparecem notícias sobre as atrocidades que os norte-americanos e os ingleses andam a fazer no Iraque, quando surgem no ecrã vedetas do banditismo internacional, como George W. Bush, Dick Cheney ou Donald Rumsfeld, os canais deviam codificar automaticamente. O telespectador adulto que estivesse mesmo interessado em ver as imagens teria de pagar.

Assim a modos como a TV Cabo fez com os canais pornográficos.

Tolos de bancada

Eis o Portugal do século XXI em todo o seu esplendor político na relva: o primeiro-ministro da nação, repita-se, o primeiro-ministro de um país da União Europeia, adia uma visita de Estado ao México para... poder ir à Alemanha assistir à final da Taça dos Campeões. Inacreditável, terceiro-mundista, paroquial, bacoca, oportunista e perigosamente populista é o mínimo que se pode dizer de uma decisão deste calibre por parte de quem comanda os destinos do país.

Justificar a decisão com a proximidade do Euro 2004 é desculpa esfarrapada que, manifestamente, só convence os tolos de bancada, que é coisa que, hélas, não falta por aí aos pontapés.

As eleições europeias estão à porta. E sempre que há eleições à vista, os políticos, mesmo os de topo na hierarquia do Estado, tendem a perder a postura. Fica sempre bem cavalgar a onda dos sucessos futeboleiros. Os políticos vampirizam a bola e esta, claro, em boa hora, cobra-lhes pelos honrosos serviços prestados à causa democrática. É assim na freguesia, no concelho, no distrito, nas ilhas. A futebolização do Estado espalha-se como uma epidemia.

Os deputados da nação também não se poupam a esforços para transformarem a sua própria imagem e a do Parlamento numa anedota. Alguns, como Fernando Gomes, que sempre bajulou Pinto da Costa, sobretudo no tempo em que era presidente da Câmara do Porto, já disseram que se estão a marimbar para a falta injustificada que lhes será marcada se forem à final. Outros representantes da nação, coitados, desesperam: não sabem se o FCP lhes vai mandar a côdea do convite. Estão ali que não se aguentam de ansiedade! Esta gente tem garantida imudidade parlamentar contra o carácter assassino do ridículo.

Tristes ministros, tristes deputados, pobre país estupidificado até à náusea pelas quatro linhas...



maio 07, 2004

Com a capa na bola

A nova Sábado saiu hoje para as bancas. A capa, de cima a baixo, é dedicada a um treinador de futebol, José Mourinho, a quem a revista chama «Herói» em letras gordas.

Para início de conversa, o desastre não podia ser maior.

maio 05, 2004

De leituras: música e transcendência

«Mas a música apazigua-me. Ela é de si a arte mais irreal, ela liberta-se mais facilmente do imediato, até ao limite da transfiguração e da transcendência.» Vergílio Ferreira, Pensar

«Arrasta-me por vezes como um mar, a música!» Charles Baudelaire, As Flores do Mal

maio 03, 2004

Sábado: mais do mesmo a caminho

A revista Sábado renasce na próxima sexta-feira. Um 'Guia para o leitor' é distribuído hoje com alguns jornais. Folheia-se a pequena revista e, no final, fica-se com a sensação de que vamos ter mais um 'produto' dejá vu a concorrer com as três revistas semanais de informação geral já publicadas.

Quatro revistas deste género num país com taxas de analfabetismo e iliteracia estarrecedoras parece excessivo. Algumas vão certamente ficar pelo caminho.

Esta Sábado agora apresentada não parece que vá aquecer ou arrefecer muito o mercado das revistas, a menos que aposte, a sério, no jornalismo de investigação, esse género caro e ingrato que já teve muito melhores dias na imprensa.

O espaço para a opinião afigura-se muito pouco prometedor. Estarão lá muitos dos suspeitos do costume, nomes batidos, gente que parece estar em todo o lado e que, manifestamente, já cansa.

Os media, neste particular, são horrorosamente calculistas e provincianos. Além disso, com esta aposta em 'vedetas', algumas das quais sem jeito para escrever uma frase decente, prejudicam gravemente a diversidade do debate público democrático. Já não bastava a sinistra concentração dos media nas mãos de dois ou três grupos, temos agora formado um cartel de colunistas.

Sim, a Sábado também vai ter Pacheco Pereira, também Santana Lopes, também José Sócrates, e também a portuguesa suave Margarida Rebelo Pinto. Eis quatro boas razões para não começar a comprar a Sábado.

abril 27, 2004

O blogue do despedimento

O Primeiro de Janeiro ficará para a história do jornalismo e da blogosfera nacional pelas piores razões: foi o primeiro jornal a despedir jornalistas por causa do que escreveram num blogue, o Diário de um Jornalista. Este episódio, inédito em Portugal, é revelador de pelo menos dois aspectos significativos.

Primeiro, que os blogues podem constituir, de facto, uma 'arma' enquanto publicações com alguma visibilidade, um espaço autónomo de denúncia que escapa ao controlo, tanto de instituições, como de hierarquias estabelecidas. Desta vez, no entanto, o cano virou-se para os próprios autores: alguém terá «bufado» os nomes, o anonimato das críticas (sempre questionável) feitas por jornalistas da casa ao funcionamento interno do Janeiro esfumou-se, e a história acabou mal, pois a capacidade de 'encaixe' dos chefes lá tem os seus limites.

Segundo, e talvez mais importante, é o que este caso indicia sobre um certo mal-estar instalado nalgumas redacções e que só ganha expressão ocasionalmente, em artigos esporádicos num ou noutro jornal, em conversas informais de bar ou corredor, em almoços de colegas de trabalho, nos bastidores dos poucos congressos jornalísticos levados a cabo no país, ou em espaços de publicação autónomos, passíveis de anonimato, como são os blogues.

De resto, a vivência real das redacções dos diferentes media portugueses continua a ser tema tabu. Um não-tema. Mas se a moda dos diários de jornalistas pega...

abril 24, 2004

De olhares: tintas da China

Em todos os seus filmes, Zhang Yimou brinda-nos com fotografias deslumbrantes e histórias muito bem contadas. Foi assim, por exemplo, em Ju Dou, Milho Vermelho, Esposas e Concubinas, e A Tríade de Xangai.

Mas, no seu Herói, agora disponível para aluguer em DVD, o realizador chinês consegue superar o que já de muito bom havia feito no grande ecrã. As imagens, frame a frame, são de uma beleza estonteante, quadros que se sucedem a cores fortes contrastadas (vermelho vivo, amarelos, azuis, verdes) pintados com arte, subtileza e, simultaneamente, um domínio magistral nas cenas alucinantes de movimento com artes marciais.

Yimou serve-se das mais recentes técnicas ao dispor da Sétima Arte, não para fazer um foguetório gratuito de efeitos, mas para elevar a beleza narrativa fílmica a patamares de rara beleza. Se houver lugar para falar de poesia em imagens de luta, ela encontrar-se-á certamente nesta obra.

Herói terá sido ofuscado, por antecedência, pela estreia de O Tigre e o Dragão. No entanto, não haja confusões: o filme de Yimou joga claramente noutro e, em definitivo, muito mais refinado campeonato.

Segue-se, é claro, o delicioso chavão de fecho dos textos sobre filmes inesquecíveis: imperdível.