De um primeiro-ministro que apoia cegamente a invasão do Iraque, que vai à Madeira cantar loas desavergonhadas aos grandiosos feitos de João Jardim, que escolhe para ministro da Defesa um beato medieval, que adia viagens de estado para ir ao futebol, é de esperar tudo.
Por isso, quando Durão Barroso acerta alguma, é um consolo. A manchete do Público de ontem só peca por tardia: «Durão prefere Cavaco Silva em Belém e Santana em Lisboa».
Dado o preocupante nível dos possíveis candidatos até agora falados, Cavaco seria um mal menor na presidência da República. Sobretudo se anteciparmos o cenário, catastrófico, de ver sentado em Belém um gigolo político do calibre do antigo presidente do Sporting.
No meio disto tudo, quem fica a perder é Lisboa.
maio 14, 2004
maio 13, 2004
Pornografia de guerra
Quando na televisão aparecem notícias sobre as atrocidades que os norte-americanos e os ingleses andam a fazer no Iraque, quando surgem no ecrã vedetas do banditismo internacional, como George W. Bush, Dick Cheney ou Donald Rumsfeld, os canais deviam codificar automaticamente. O telespectador adulto que estivesse mesmo interessado em ver as imagens teria de pagar.
Assim a modos como a TV Cabo fez com os canais pornográficos.
Assim a modos como a TV Cabo fez com os canais pornográficos.
Tolos de bancada
Eis o Portugal do século XXI em todo o seu esplendor político na relva: o primeiro-ministro da nação, repita-se, o primeiro-ministro de um país da União Europeia, adia uma visita de Estado ao México para... poder ir à Alemanha assistir à final da Taça dos Campeões. Inacreditável, terceiro-mundista, paroquial, bacoca, oportunista e perigosamente populista é o mínimo que se pode dizer de uma decisão deste calibre por parte de quem comanda os destinos do país.
Justificar a decisão com a proximidade do Euro 2004 é desculpa esfarrapada que, manifestamente, só convence os tolos de bancada, que é coisa que, hélas, não falta por aí aos pontapés.
As eleições europeias estão à porta. E sempre que há eleições à vista, os políticos, mesmo os de topo na hierarquia do Estado, tendem a perder a postura. Fica sempre bem cavalgar a onda dos sucessos futeboleiros. Os políticos vampirizam a bola e esta, claro, em boa hora, cobra-lhes pelos honrosos serviços prestados à causa democrática. É assim na freguesia, no concelho, no distrito, nas ilhas. A futebolização do Estado espalha-se como uma epidemia.
Os deputados da nação também não se poupam a esforços para transformarem a sua própria imagem e a do Parlamento numa anedota. Alguns, como Fernando Gomes, que sempre bajulou Pinto da Costa, sobretudo no tempo em que era presidente da Câmara do Porto, já disseram que se estão a marimbar para a falta injustificada que lhes será marcada se forem à final. Outros representantes da nação, coitados, desesperam: não sabem se o FCP lhes vai mandar a côdea do convite. Estão ali que não se aguentam de ansiedade! Esta gente tem garantida imudidade parlamentar contra o carácter assassino do ridículo.
Tristes ministros, tristes deputados, pobre país estupidificado até à náusea pelas quatro linhas...
Justificar a decisão com a proximidade do Euro 2004 é desculpa esfarrapada que, manifestamente, só convence os tolos de bancada, que é coisa que, hélas, não falta por aí aos pontapés.
As eleições europeias estão à porta. E sempre que há eleições à vista, os políticos, mesmo os de topo na hierarquia do Estado, tendem a perder a postura. Fica sempre bem cavalgar a onda dos sucessos futeboleiros. Os políticos vampirizam a bola e esta, claro, em boa hora, cobra-lhes pelos honrosos serviços prestados à causa democrática. É assim na freguesia, no concelho, no distrito, nas ilhas. A futebolização do Estado espalha-se como uma epidemia.
Os deputados da nação também não se poupam a esforços para transformarem a sua própria imagem e a do Parlamento numa anedota. Alguns, como Fernando Gomes, que sempre bajulou Pinto da Costa, sobretudo no tempo em que era presidente da Câmara do Porto, já disseram que se estão a marimbar para a falta injustificada que lhes será marcada se forem à final. Outros representantes da nação, coitados, desesperam: não sabem se o FCP lhes vai mandar a côdea do convite. Estão ali que não se aguentam de ansiedade! Esta gente tem garantida imudidade parlamentar contra o carácter assassino do ridículo.
Tristes ministros, tristes deputados, pobre país estupidificado até à náusea pelas quatro linhas...
maio 07, 2004
Com a capa na bola
A nova Sábado saiu hoje para as bancas. A capa, de cima a baixo, é dedicada a um treinador de futebol, José Mourinho, a quem a revista chama «Herói» em letras gordas.
Para início de conversa, o desastre não podia ser maior.
Para início de conversa, o desastre não podia ser maior.
maio 05, 2004
De leituras: música e transcendência
«Mas a música apazigua-me. Ela é de si a arte mais irreal, ela liberta-se mais facilmente do imediato, até ao limite da transfiguração e da transcendência.» Vergílio Ferreira, Pensar
«Arrasta-me por vezes como um mar, a música!» Charles Baudelaire, As Flores do Mal
maio 03, 2004
Sábado: mais do mesmo a caminho
A revista Sábado renasce na próxima sexta-feira. Um 'Guia para o leitor' é distribuído hoje com alguns jornais. Folheia-se a pequena revista e, no final, fica-se com a sensação de que vamos ter mais um 'produto' dejá vu a concorrer com as três revistas semanais de informação geral já publicadas.
Quatro revistas deste género num país com taxas de analfabetismo e iliteracia estarrecedoras parece excessivo. Algumas vão certamente ficar pelo caminho.
Esta Sábado agora apresentada não parece que vá aquecer ou arrefecer muito o mercado das revistas, a menos que aposte, a sério, no jornalismo de investigação, esse género caro e ingrato que já teve muito melhores dias na imprensa.
O espaço para a opinião afigura-se muito pouco prometedor. Estarão lá muitos dos suspeitos do costume, nomes batidos, gente que parece estar em todo o lado e que, manifestamente, já cansa.
Os media, neste particular, são horrorosamente calculistas e provincianos. Além disso, com esta aposta em 'vedetas', algumas das quais sem jeito para escrever uma frase decente, prejudicam gravemente a diversidade do debate público democrático. Já não bastava a sinistra concentração dos media nas mãos de dois ou três grupos, temos agora formado um cartel de colunistas.
Sim, a Sábado também vai ter Pacheco Pereira, também Santana Lopes, também José Sócrates, e também a portuguesa suave Margarida Rebelo Pinto. Eis quatro boas razões para não começar a comprar a Sábado.
Quatro revistas deste género num país com taxas de analfabetismo e iliteracia estarrecedoras parece excessivo. Algumas vão certamente ficar pelo caminho.
Esta Sábado agora apresentada não parece que vá aquecer ou arrefecer muito o mercado das revistas, a menos que aposte, a sério, no jornalismo de investigação, esse género caro e ingrato que já teve muito melhores dias na imprensa.
O espaço para a opinião afigura-se muito pouco prometedor. Estarão lá muitos dos suspeitos do costume, nomes batidos, gente que parece estar em todo o lado e que, manifestamente, já cansa.
Os media, neste particular, são horrorosamente calculistas e provincianos. Além disso, com esta aposta em 'vedetas', algumas das quais sem jeito para escrever uma frase decente, prejudicam gravemente a diversidade do debate público democrático. Já não bastava a sinistra concentração dos media nas mãos de dois ou três grupos, temos agora formado um cartel de colunistas.
Sim, a Sábado também vai ter Pacheco Pereira, também Santana Lopes, também José Sócrates, e também a portuguesa suave Margarida Rebelo Pinto. Eis quatro boas razões para não começar a comprar a Sábado.
abril 27, 2004
O blogue do despedimento
O Primeiro de Janeiro ficará para a história do jornalismo e da blogosfera nacional pelas piores razões: foi o primeiro jornal a despedir jornalistas por causa do que escreveram num blogue, o Diário de um Jornalista. Este episódio, inédito em Portugal, é revelador de pelo menos dois aspectos significativos.
Primeiro, que os blogues podem constituir, de facto, uma 'arma' enquanto publicações com alguma visibilidade, um espaço autónomo de denúncia que escapa ao controlo, tanto de instituições, como de hierarquias estabelecidas. Desta vez, no entanto, o cano virou-se para os próprios autores: alguém terá «bufado» os nomes, o anonimato das críticas (sempre questionável) feitas por jornalistas da casa ao funcionamento interno do Janeiro esfumou-se, e a história acabou mal, pois a capacidade de 'encaixe' dos chefes lá tem os seus limites.
Segundo, e talvez mais importante, é o que este caso indicia sobre um certo mal-estar instalado nalgumas redacções e que só ganha expressão ocasionalmente, em artigos esporádicos num ou noutro jornal, em conversas informais de bar ou corredor, em almoços de colegas de trabalho, nos bastidores dos poucos congressos jornalísticos levados a cabo no país, ou em espaços de publicação autónomos, passíveis de anonimato, como são os blogues.
De resto, a vivência real das redacções dos diferentes media portugueses continua a ser tema tabu. Um não-tema. Mas se a moda dos diários de jornalistas pega...
Primeiro, que os blogues podem constituir, de facto, uma 'arma' enquanto publicações com alguma visibilidade, um espaço autónomo de denúncia que escapa ao controlo, tanto de instituições, como de hierarquias estabelecidas. Desta vez, no entanto, o cano virou-se para os próprios autores: alguém terá «bufado» os nomes, o anonimato das críticas (sempre questionável) feitas por jornalistas da casa ao funcionamento interno do Janeiro esfumou-se, e a história acabou mal, pois a capacidade de 'encaixe' dos chefes lá tem os seus limites.
Segundo, e talvez mais importante, é o que este caso indicia sobre um certo mal-estar instalado nalgumas redacções e que só ganha expressão ocasionalmente, em artigos esporádicos num ou noutro jornal, em conversas informais de bar ou corredor, em almoços de colegas de trabalho, nos bastidores dos poucos congressos jornalísticos levados a cabo no país, ou em espaços de publicação autónomos, passíveis de anonimato, como são os blogues.
De resto, a vivência real das redacções dos diferentes media portugueses continua a ser tema tabu. Um não-tema. Mas se a moda dos diários de jornalistas pega...
abril 24, 2004
De olhares: tintas da China
Em todos os seus filmes, Zhang Yimou brinda-nos com fotografias deslumbrantes e histórias muito bem contadas. Foi assim, por exemplo, em Ju Dou, Milho Vermelho, Esposas e Concubinas, e A Tríade de Xangai.
Mas, no seu Herói, agora disponível para aluguer em DVD, o realizador chinês consegue superar o que já de muito bom havia feito no grande ecrã. As imagens, frame a frame, são de uma beleza estonteante, quadros que se sucedem a cores fortes contrastadas (vermelho vivo, amarelos, azuis, verdes) pintados com arte, subtileza e, simultaneamente, um domínio magistral nas cenas alucinantes de movimento com artes marciais.
Yimou serve-se das mais recentes técnicas ao dispor da Sétima Arte, não para fazer um foguetório gratuito de efeitos, mas para elevar a beleza narrativa fílmica a patamares de rara beleza. Se houver lugar para falar de poesia em imagens de luta, ela encontrar-se-á certamente nesta obra.
Herói terá sido ofuscado, por antecedência, pela estreia de O Tigre e o Dragão. No entanto, não haja confusões: o filme de Yimou joga claramente noutro e, em definitivo, muito mais refinado campeonato.
Segue-se, é claro, o delicioso chavão de fecho dos textos sobre filmes inesquecíveis: imperdível.
Mas, no seu Herói, agora disponível para aluguer em DVD, o realizador chinês consegue superar o que já de muito bom havia feito no grande ecrã. As imagens, frame a frame, são de uma beleza estonteante, quadros que se sucedem a cores fortes contrastadas (vermelho vivo, amarelos, azuis, verdes) pintados com arte, subtileza e, simultaneamente, um domínio magistral nas cenas alucinantes de movimento com artes marciais.
Yimou serve-se das mais recentes técnicas ao dispor da Sétima Arte, não para fazer um foguetório gratuito de efeitos, mas para elevar a beleza narrativa fílmica a patamares de rara beleza. Se houver lugar para falar de poesia em imagens de luta, ela encontrar-se-á certamente nesta obra.
Herói terá sido ofuscado, por antecedência, pela estreia de O Tigre e o Dragão. No entanto, não haja confusões: o filme de Yimou joga claramente noutro e, em definitivo, muito mais refinado campeonato.
Segue-se, é claro, o delicioso chavão de fecho dos textos sobre filmes inesquecíveis: imperdível.
abril 22, 2004
O mal da pressa
O livro Cada Vez Mais Rápido, escrito por James Gleick, lê-se bem e depressa. Não por ser fraco, mas por constituir uma leitura muito estimulante.
Não se espere, no entanto, desta obra altas reflexões filosóficas ou grandes abstracções teóricas sobre a problemáticas da velocidade a que vivem as sociedades contemporâneas tecnologicamente mais desenvolvidas.
Gleick opta antes por nos defrontar com a imagem quase caricatural que essas sociedades dão de si mesmas a qualquer observador atento: sempre stressadas, sem tempo para ter tempo, escravas, ou paranóicas, do segundo, comendo mal e depressa, dormindo pouco ou nada, fazendo sexo ao cronómetro, trabalhando até cair para o lado, divertindo-se pouco e mal, procurando sempre fazer várias coisas ao mesmo tempo (a mania das multitarefas), em suma, sociedades vítimas do que o autor chama o mal da pressa.
Gleick vai buscar alguns exemplos a estudos e estatísticas que são, no mínimo, alarmantes. Por exemplo, alunos de um conservatório de música que ficam perturbados quando, numa qualquer peça, há um momento de pausa: ficam quase em pânico, ansiosos, incapazes de lidar com a suspensão do som; o silêncio de alguns segundos parece-lhes insuportável.
Aceleração do ritmo de vida, mas também das psiques: é preciso pensar cada vez mais rápido, reagir cada vez mais depressa, à estimulação que as tecnologias e os meios de comunicação provocam.
Haverá limites para toda esta aceleração? Gleick acha que sim: «Estamos a deparar-nos com um limite de velocidade. Só podemos levar a comunicação em tempo real até um certo ponto - pelo menos até que a humanidade se torne um único organismo com as suas partes combinadas sob a forma de uma consciência à velocidade da luz. O limite é a nossa própria mente. Temos velocidade de cruzeiro finitas.»
Portugal ao fundo
Portugal resolveu, pela mão do ministro extrema-direita Jaguar, comprar dois novos submarinos. Agora que o país está a afundar, faz todo o sentido.
abril 20, 2004
Podres da bola à vista
Quando a esmola é grande, o pobre do cidadão desconfia. Valentim Loureiro detido para interrogatório? Operação «Apito Dourado» da Polícia Judiciária detém árbitros, dirigentes da Federação de Futebol, revista a Câmara do Marco de Canaveses e casa de Avelino Ferreira Torres? Será isto, finalmente, um sonho num país de pesadelo futeboleiro?
Veremos. Este apito da Judiciária peca por ser claramente tardio. Os últimos anos estão cheios, inundados, abarrotados, de insinuações, acusações, suspeitas, indícios, histórias mal contadas, de gente de fora e de dentro do pantanal da bola, a que as polícias não deram ponta de cavaco. Talvez porque as misturas perigosas de futebol, justiça e política o impedissem, quem sabe.
Os «agentes» do sistema lamacento da bola (dirigentes, árbitros, empresários, etc.) têm-se rido a bom rir da parolada nacional que os sustenta. E de um Estado que, ou os adula à mentecapto, ou os teme covardemente. O que inclui, naturalmente, a comunicação social, sempre pronta a empolar e a babar-se perante o «fenómeno desportivo», sedenta de lucro e audiências à custa da cega «paixão da nação».
Veremos se, mais uma vez, a montanha não acaba por parir uns quantos ratos. O passado recente não é muito animador. Há tempos, andou a polícia atrás dos alegados sacos azuis de Pimenta Machado. O homem foi detido com pompa, mas continua por aí, livre como um passarinho para oferecer ao país as suas magníficas alarvidades.
Estaremos cá para ver se, desta vez, como é costume, os «tubarões» se safam para desespero do mexilhão, esse sim, o tramado de sempre.
Esperemos, pois, que este apito não passe, num ápice, de dourado a torrado. O país político-autárquico-futeboleiro está de tal maneira podre que a nação não se pode dar a mais esse luxo.
Veremos. Este apito da Judiciária peca por ser claramente tardio. Os últimos anos estão cheios, inundados, abarrotados, de insinuações, acusações, suspeitas, indícios, histórias mal contadas, de gente de fora e de dentro do pantanal da bola, a que as polícias não deram ponta de cavaco. Talvez porque as misturas perigosas de futebol, justiça e política o impedissem, quem sabe.
Os «agentes» do sistema lamacento da bola (dirigentes, árbitros, empresários, etc.) têm-se rido a bom rir da parolada nacional que os sustenta. E de um Estado que, ou os adula à mentecapto, ou os teme covardemente. O que inclui, naturalmente, a comunicação social, sempre pronta a empolar e a babar-se perante o «fenómeno desportivo», sedenta de lucro e audiências à custa da cega «paixão da nação».
Veremos se, mais uma vez, a montanha não acaba por parir uns quantos ratos. O passado recente não é muito animador. Há tempos, andou a polícia atrás dos alegados sacos azuis de Pimenta Machado. O homem foi detido com pompa, mas continua por aí, livre como um passarinho para oferecer ao país as suas magníficas alarvidades.
Estaremos cá para ver se, desta vez, como é costume, os «tubarões» se safam para desespero do mexilhão, esse sim, o tramado de sempre.
Esperemos, pois, que este apito não passe, num ápice, de dourado a torrado. O país político-autárquico-futeboleiro está de tal maneira podre que a nação não se pode dar a mais esse luxo.
abril 19, 2004
Futebolização da pátria
Eis uma tirada, de muito boa cepa, de Eduardo Cintra Torres, no Público de hoje, a propósito da orgia futeboleira descontrolada que tomou conta dos media lusitanos:
«Os "media" são em grande parte responsáveis pela total futebolização da pátria. A alienação é hoje infinitamente superior ao que era no tempo do fascismo, mas estou certo que os responsáveis editoriais pela ditadura "informativa" do futebol nos "media" se consideram todos uns antifascistas de boa cepa.»
E o Neuro 2004 ainda nem sequer começou...
«Os "media" são em grande parte responsáveis pela total futebolização da pátria. A alienação é hoje infinitamente superior ao que era no tempo do fascismo, mas estou certo que os responsáveis editoriais pela ditadura "informativa" do futebol nos "media" se consideram todos uns antifascistas de boa cepa.»
E o Neuro 2004 ainda nem sequer começou...
abril 16, 2004
De olhares: retratos de Espanha
O Porto, como se sabe, não é nenhum paraíso cultural. Mas, ainda assim, sobrevive. Algumas iniciativas, no entanto, mereciam melhor sorte, ou, pelo menos, maior afluência.
É o caso da uma das exposições patentes no Centro Português de Fotografia, dedicada a 150 anos de fotografia espanhola. Naquelas paredes da antiga Cadeia da Relação estão penduradas pequenas-grandes jóias históricas a preto e branco, retratos do país vizinho em tempos idos.
Algumas das imagens, belíssimas, datam da segunda metade do século XIX. São um verdadeiro espanto, ou, como escrevia Pedro Miguel Frade, figuras do espanto.
O centro de uma cidade, a vendedeira de perús, o pescador, as carregadoras de malas, a menina à janela, as prostitutas, as velhinhas das aldeias desertas, o retrato do pintor absorto, o pai com o filho morto no colo, a sublevação, as detenções, a infanta, a República, a guerra civil, o bandido do Franco, o corpo nu, o copo abstracto.
É um bom pedaço da história de Espanha que ali está retratado. Imperdível.
É o caso da uma das exposições patentes no Centro Português de Fotografia, dedicada a 150 anos de fotografia espanhola. Naquelas paredes da antiga Cadeia da Relação estão penduradas pequenas-grandes jóias históricas a preto e branco, retratos do país vizinho em tempos idos.
Algumas das imagens, belíssimas, datam da segunda metade do século XIX. São um verdadeiro espanto, ou, como escrevia Pedro Miguel Frade, figuras do espanto.
O centro de uma cidade, a vendedeira de perús, o pescador, as carregadoras de malas, a menina à janela, as prostitutas, as velhinhas das aldeias desertas, o retrato do pintor absorto, o pai com o filho morto no colo, a sublevação, as detenções, a infanta, a República, a guerra civil, o bandido do Franco, o corpo nu, o copo abstracto.
É um bom pedaço da história de Espanha que ali está retratado. Imperdível.
Bons ventos de Espanha
Aznar não estava há muitos anos à frente dos destinos da Espanha. À beira de, digamos, um Narciso Miranda na Câmara de Matosinhos, podia mesmo ser considerado um amador em termos de parmanência consecutiva no poder. Apesar disso, Aznar tresandava já a mofo. Foi-se, pela porta dos fundos, em muito boa hora.
Zapatero é outra conversa. Ar jovial, sem necessidade postiça de um bigode para se conferir a si próprio alguma autoridade, o novo chefe do governo espanhol já mostrou, em pouco tempo, como as coisas podem ser diferentes, para melhor. Este jovem foi uma lufada de ar fresco que entrou no palco da Europa.
Por exemplo, no que diz respeito ao Iraque: se a ONU não assumir o controlo daquele país até 30 de Junho, as tropas espanholas vêm-se embora. E mais disse: «Quero tirar Espanha da fotografia dos Açores, tirar Espanha de uma guerra ilegal.» Temos homem! Como se vê, não é utopia esperar o mínimo de um chefe de governo: que seja lúcido e inteligente. Nos antípodas de um obcecado Blair, por exemplo.
Outro aspecto positivíssimo tem a ver com o pôr a Igreja no seu devido lugar. Zapatero já teve oportunidade de lembrar, tanto a padres, como a políticos de direita, que, ao contrário do que acontecia no consulado Aznar, agora não vai haver misturas. O Estado é laico. E assim deverá continuar.
Iraque e Igreja. Por estes dois pontos apenas se pode ver, depois da eleição de Zapatero, como Portugal ficou ainda a uma distância maior do seu país vizinho. Distância civilizacional, entenda-se.
Zapatero é outra conversa. Ar jovial, sem necessidade postiça de um bigode para se conferir a si próprio alguma autoridade, o novo chefe do governo espanhol já mostrou, em pouco tempo, como as coisas podem ser diferentes, para melhor. Este jovem foi uma lufada de ar fresco que entrou no palco da Europa.
Por exemplo, no que diz respeito ao Iraque: se a ONU não assumir o controlo daquele país até 30 de Junho, as tropas espanholas vêm-se embora. E mais disse: «Quero tirar Espanha da fotografia dos Açores, tirar Espanha de uma guerra ilegal.» Temos homem! Como se vê, não é utopia esperar o mínimo de um chefe de governo: que seja lúcido e inteligente. Nos antípodas de um obcecado Blair, por exemplo.
Outro aspecto positivíssimo tem a ver com o pôr a Igreja no seu devido lugar. Zapatero já teve oportunidade de lembrar, tanto a padres, como a políticos de direita, que, ao contrário do que acontecia no consulado Aznar, agora não vai haver misturas. O Estado é laico. E assim deverá continuar.
Iraque e Igreja. Por estes dois pontos apenas se pode ver, depois da eleição de Zapatero, como Portugal ficou ainda a uma distância maior do seu país vizinho. Distância civilizacional, entenda-se.
abril 15, 2004
Morin: do precário progresso
Este mundo às avessas que o novo milénio começou a (des)construir a partir das democracias ocidentais, promovendo governos obtusos, armando guerras insanas, convoca uma sábia ideia de Morin, escrita no seu livro Amor, Poesia, Sabedoria:
«O abandono da ideia de salvação está ligado à compreensão de que não existem leis da história, que o progresso não está garantido, que não é automático. Não só o progresso deve ser conquistado, mas, cada vez que é, pode regredir e é necessário regenerá-lo sem cessar.»
A parada de horrores que todos os dias atravessa os telejornais está aí para o provar à saciedade.
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