abril 16, 2004

Bons ventos de Espanha

Aznar não estava há muitos anos à frente dos destinos da Espanha. À beira de, digamos, um Narciso Miranda na Câmara de Matosinhos, podia mesmo ser considerado um amador em termos de parmanência consecutiva no poder. Apesar disso, Aznar tresandava já a mofo. Foi-se, pela porta dos fundos, em muito boa hora.

Zapatero é outra conversa. Ar jovial, sem necessidade postiça de um bigode para se conferir a si próprio alguma autoridade, o novo chefe do governo espanhol já mostrou, em pouco tempo, como as coisas podem ser diferentes, para melhor. Este jovem foi uma lufada de ar fresco que entrou no palco da Europa.

Por exemplo, no que diz respeito ao Iraque: se a ONU não assumir o controlo daquele país até 30 de Junho, as tropas espanholas vêm-se embora. E mais disse: «Quero tirar Espanha da fotografia dos Açores, tirar Espanha de uma guerra ilegal.» Temos homem! Como se vê, não é utopia esperar o mínimo de um chefe de governo: que seja lúcido e inteligente. Nos antípodas de um obcecado Blair, por exemplo.

Outro aspecto positivíssimo tem a ver com o pôr a Igreja no seu devido lugar. Zapatero já teve oportunidade de lembrar, tanto a padres, como a políticos de direita, que, ao contrário do que acontecia no consulado Aznar, agora não vai haver misturas. O Estado é laico. E assim deverá continuar.

Iraque e Igreja. Por estes dois pontos apenas se pode ver, depois da eleição de Zapatero, como Portugal ficou ainda a uma distância maior do seu país vizinho. Distância civilizacional, entenda-se.

abril 15, 2004

Morin: do precário progresso

Este mundo às avessas que o novo milénio começou a (des)construir a partir das democracias ocidentais, promovendo governos obtusos, armando guerras insanas, convoca uma sábia ideia de Morin, escrita no seu livro Amor, Poesia, Sabedoria:

«O abandono da ideia de salvação está ligado à compreensão de que não existem leis da história, que o progresso não está garantido, que não é automático. Não só o progresso deve ser conquistado, mas, cada vez que é, pode regredir e é necessário regenerá-lo sem cessar.»

A parada de horrores que todos os dias atravessa os telejornais está aí para o provar à saciedade.

abril 13, 2004

Zapping e lixo

O zapping televisivo pelos canais do cabo assemelha-se cada vez mais a um exercício de masoquismo exacerbado, tal a brutalidade do lixo que nos atiram para o pequeno ecrã.

abril 10, 2004

Tragédia para a humanidade

Assim vai o mundo «seguro» criado por Bush nas notícias da época pascal: mais de 400 mortos em cinco dias de combates em Falluja, no Iraque. A Rússia apela ao fim de «todas as acções militares» naquele país. Os ingleses, com culpas de sobra neste cartório, falam na «mais séria situação» no Iraque desde o anúncio do fim da guerra, leia-se, da invasão. Três reféns japoneses sob ameaça de morte das Brigadas dos Mujahedin. Outros sete estrangeiros terão sido sequestrados.

Roma em estado de alerta antiterrorista. CIA avisa França de que pode sofrer atentado bombista. Ataque com gás venenoso em Sófia: autoridades investigam possível ligação com a presença de militares búlgaros no Iraque. Medidas antiterrosistas tomadas pelo governo de Marrocos acusadas de limitarem a liberdade de expressão. Suicidas islâmicos de Leganés deixaram um vídeo onde aparecem a fazer ameaças a Espanha.

Lindo, não é? Vai ficar lindamente na folha dos altos serviços prestados ao mundo pela dupla de míopes Bush e Blair. Enquanto isso, o presidente dos EUA aparece em vídeos caseiros fingindo procurar armas de destruição maciça debaixo da sua secretária da Sala Oval. Fartou-se de gozar com a cara de pessoas inteligentes, incluindo as do seu próprio país. Agora, como qualquer bom palhaço que já se divertiu o seu bocado a brincar ao «bang bang» com seres humanos a sério, ridiculariza a própria face. Que tragédia para a humanidade, este homem.

abril 08, 2004

Não há pachorra...

Os jogos de promiscuidade político-jornalística e vice-versa prosseguem a bom ritmo nalguma respeitável imprensa nacional. Trinta anos depois do 25 de Abril, grupos de comunicação, políticos da primeira à última linha e jornalistas nem carne nem peixe continuam a brincar alegremente às casinhas uns com os outros. Veja-se a ponta do icebergue neste lead do Público de ontem:

«A Direcção do "Diário de Notícias" está a proceder a alterações na estrutura de chefia da redacção, tendo nesse âmbito escolhido para um dos cargos de editor executivo adjunto Francisco Almeida Leite, tido como próximo do presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes (PSD). (...)

É assim mesmo? Não é? Próximo, quê, chegadinho ou assim-assim? Exagero, alfinetada da concorrência? Desconte-se. O problema aqui vai dar todo à eterna mulher de César... É que, antes disto, o ex-jornalista-assessor-assessor-jornalista de Cavaco e de Martins da Cruz havia cometido o monumental erro de ter aceite o convite para dirigir o DN. Alguém cometeu um erro ainda maior ao escolhê-lo.

De uma assentada, Fernando Lima pôs o seu nome na berlinda e deu uma machadada violenta na credibilidade do título centenário. Para já não falar na dignidade do próprio jornalismo. Quem se importa? A partir daqui, ficou inquinada qualquer possibilidade de haver leituras «sãs» de quaisquer mudanças na hierarquia, como as que agora ocorreram e que passaram também pela mudança no editor de Política, secção sempre muito delicada em todo o lado...

Quando é que estas charadas, estes joguinhos de capoeira, acabam de vez? É com estas e muitas outras (o pobre do zé povo nem sequer lhes chega a snifar o esturro) que a comunicação social espera credibilizar-se?

Estão à espera que o 25 de Abril faça 60 anos de idade?

abril 01, 2004

Coisa tenebrosa...

«Em séculos passados o público arrancava as orelhas aos jornalistas, coisa essa tenebrosa. Neste século são os próprios jornalistas que as arrancam, colando-as às fechaduras.»

Oscar Wilde, A Alma do Homem sob o Socialismo.

Depressa

Tanta gente com tanta pressa... para onde vai toda esta gente com tamanha pressa?

março 31, 2004

De ouvido: piano solo

Para amparar na perfeição o final da tarde de um dia de chuva, cinza e vento: Solo Piano, de Philip Glass.

março 29, 2004

Tudo bons rapazes

«Sete dezenas de companhias norte-americanas ganharam nos últimos dois anos contratos de oito mil milhões de dólares para trabalhar no Afeganistão e no Iraque. As mais beneficiadas têm evidentes contactos políticos junto da administração Bush.» Público, 29.03.04.

«Procurador-geral israelita recebe recomendação para indiciar Sharon por corrupção.» Público, 29.03.04.

«Suharto é o primeiro na lista dos dez mais corruptos do mundo. O Ocidente favoreceu e favorece práticas de corrupção nos países em desenvolvimento, denuncia organização não governamental.» Público, 29.03.04.

Mas, vá lá, haja réstias de esperança, que nem tudo é mau neste pobre e decadente planeta. A direita fracesa sofreu uma «derrota histórica» nas regionais, o Parlamento Europeu exige acesso «seguro e legal» das mulheres ao aborto, a Irlanda vai proibir fumar em bares e restaurantes. Porque, lá, ao contrário de cá, onde os porcos triunfam, «a saúde é prioritária em relação a outros interesses.»

março 27, 2004

Gente gira

O dito 'jornalismo de referência' já teve, seguramente, melhores dias. Os que agora correm são de frequentes escorregadelas éticas e deontológicas ou de insuportáveis desvios para o lado da frivolidade, do fashion, do flash, do beautiful people. Sinais dos tempos. Maus, por sinal.

O divórcio entre duas vedetas do mundo do jornalismo vem hoje na capa do Expresso. Na capa do Expresso?! Sim, na capa do Expresso...

março 26, 2004

Chomsky na blogosfera

Ora aí está uma excelente notícia, dica de António Granado: Noam Chomsky tem agora o seu próprio blogue, o Turning the Tide.

A partir de agora, poderemos seguir passo a passo as opiniões do intelectual norte-americano mais odiado pelas elites bem-pensantes do seu próprio país, a começar pela generalidade dos media, de quem é um crítico impiedoso. Felizmente.

Chomsky tem esse enorme defeito de, primeiro, ser inteligente, e, segundo, pensar pela sua própria cabeça. Causa trremenda azia a muito boa gente, em especial à rapaziada mais estreita da direita. Falava e escrevia sobre Timor quando o assunto nem sequer era ainda causa em Portugal.

É um senhor muitíssimo bem-vindo à blogosfera.

Tempo da pressa

«Se não compreendermos o tempo, tornar-nos-emos as suas vítimas. 'O Tempo é uma divindade gentil', dizia Sófocles. Talvez o fosse para ele. Hoje em dia, trabalha a chicote.»

James Gleick, Cada vez mais rápido.

março 23, 2004

Dueto bombástico

Há dois perigosos bombistas à solta que mereciam ser levados de imediato para Guantanamo. Um está em Washington. O outro, em Telavive. Por sinal, são muito amigos.

março 22, 2004

JornalismoPortoNet

Eis uma experiência universitária a seguir com atenção, também pelas empresas jornalísticas: o jornal online do curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. Nasceu hoje, é produzido e mantido por alunos e docentes do curso, funciona no espaço de uma redacção digital e chama-se JornalismoPortoNet.

Era uma vez um canal

Houve um tempo em que, ao fim do dia, estacar o zapping no Canal 2 era frequente. Havia o Acontece. Havia os filmes, os bons ciclos da 2, espaço único na televisão portuguesa para escapar à roça mental dos filmes produzidos pelo Tio Sam.

Era também no antigo Canal 2 que se podia assistir ao único telejornal civilizado do país, no qual as notícias eram dadas sem fanfarronice ou histeria, com tempo e contexto, e, milagre na caixa que mudou o mundo, os entrevistados podiam respirar. E nós, telespectadores, também. Pois bem, tudo o que era bom esfumou-se.

O telejornal é agora dado a correr, depressinha, não vá o pivot perder o comboio para casa. Aquele programa de Mota Ribeiro, supostamente substituto do Acontece, mama mia!. Os bons filmes foram postos na prateleira, não vá colidirem com a moral e os bons costumes do nosso beato governo e da nossa santa pátria católica. Enfim, resta-nos o consolo de saber que a TVE, a televisão do estado Popular, perdão, espanhol, está em bastante pior estado civilizacional.

Hoje em dia, o comando remoto cá de casa também passa a correr, a correr muito, pelo segundo canal.