março 21, 2004
De mentira em mentira...
Nos útimos doze meses, amontoaram-se as provas de que a invasão do Iraque só existiu porque as sinistras cabeças da administração Bush assim o entenderam. Por gula, teimosia e descomunal estupidez. Porque sim, há o petróleo e, além do mais, os rapazes gostam de jogar xadrez no Médio Oriente. Querem agora virá-lo do avesso, reescrevê-lo, estes iluminados.
Bush, indivíduo estruturalmente pateta, julgou que o resto do mundo é pelo menos tão levezinho quanto ele. Tirando os seus aliados Blair, Aznar, Barroso e alguns outros peões menores do tabuleiro internacional, enganou-se. Seríamos todos parvos do lado de cá e acreditaríamos todos que Bagdade era um antro de terroristas suicidas, ninho de víboras da Al Qaeda, ameaça iminente à douta civilização ocidental. Não era. Outras paragens o seriam.
Não havia armas de destruição maciça nem terroristas a dar com um pau. Mas há, lamentavelmente, dezenas de milhares de civis iraquianos mortos e um país na mais absoluta ruina.
A luta, legítima, contra o terrorismo foi, neste caso, um descomunal erro e um ainda maior embuste, que pode ficar muito caro ao Ocidente.
Aprenderão aquelas ocas cabeças conservadoras de Washington a lição? Obviamente, não.
O mundo é hoje um lugar muitíssimo mais inseguro do que era há doze meses atrás. Graças às cowboyadas de um presidente americano com queda para a brincadeira com fósforos, a Europa é hoje um continente à beira de um ataque de nervos. Não tarda nada, estará paranóica com a questão da segurança.
Seria o panorama actual uma inevitabilidade histórica? Um inelutável destino, traçado há muito por forças cósmicas? Nada menos certo. Se a hecatombe eleitoral que levou Bush ao poder não se tivesse verificado, se Al Gore estivesse hoje na Casa Branca, como deveria estar, muito provavelmente o mundo não teria chegado perto deste abismo.
«Tem as mãos cheias de sangue, senhor Blair. Vai demitir-se?» Esta pergunta foi feita por um jornalista ao primeiro-ministro britânico aquando do suicídio do cientista David Kelly. Esta mesma pergunta deveria ser colada, em letras gigantes, em frente à casa de todos os governantes que se «aliaram», marimbando-se para as Nações Unidas, na grande charada do Iraque.
março 15, 2004
Foi-se o bigodes
março 14, 2004
De ouvido: casamento feliz
Mychael Danna produziu um banda sonora que se aguenta perfeitamente por si só. É um belo disco. Mistura tradicional com recente, acústico com sintetizado, de uma forma magistral. Recupera, num dos temas, o fabuloso paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e termina com a versão remix de três dos temas. Casamento debaixo de chuva, filme e banda sonora, é um caso de relação bem sucedida.
Com os espanhóis
março 11, 2004
Monocórdicos jornais
A exploração das potencialidades narrativas da Web, pelas quais passa o uso integrado do hipertexto, do multimédia, da criação de espaços de debate com e entre a audiência, é, para não dizer mais, muito fraca. Dá para ver que do outro lado do ecrã não há meios suficientes para fazer melhor.
A desilusão é ainda maior em sítios nados e criados na Web, como o Diário Digital e o Portugal Diário. Por natureza, tinham a obrigação de ir mais longe, mas, como hoje se viu, pouco se conseguem distinguir do marasmo geral. É pena.
O ciberjornalismo português permanece, em boa medida, um palmo à frente da estaca zero.
março 10, 2004
De olhares: Apocalipse definitivo
março 07, 2004
De olhares: o ópio das guerras
Lagaan: Era uma vez na Índia é, felizmente para nós, contada pelo lado dos indianos. Ashutosh Gowariker prende-nos ao ecrã com a história de um oficial, daqueles very british bestas, que encarna, do alto da sua ponderosa imbecilidade, a forma leviana como o «império» brincava - no caso, com apostas no absurdo jogo do crikett - com a vida de pessoas que viviam sossegadas na sua terra até terem o privilégio de serem invadidas e dominadas pelos esfaimados ingleses.
É uma história de opressão e humilhação, passada no século XIX. Complete-se este quadro com a revisão da obra-prima cinematográfica que é Gandhi para se ficar com uma ideia ainda mais apurada sobre as brilhantes conquistas civilizacionais e culturais do british empire.
O século XIX serve também de pano de fundo à acção de A Guerra do Ópio, filme chinês, realizado por Xie Jin, onde a gula comercial inglesa volta a ter destaque, desta vez por causa do negócio do ópio, contra o qual o imperador do Império do Meio resolveu lutar. Choque de culturas, choque de histórias (sendo que uma delas, a da China, tem mais de cinco mil anos...), choque, enfim, de poderes. Na altura, como hoje, podia mais quem tinha melhores canhões. Foi nesta guerra que a China perdeu Hong Kong.
E as gerações passam , e os governantes mudam, e as democracias crescem e os erros repetem-se e volta tudo ao princípio sem fim. Dantes era ópio, hoje é o petróleo, amanhã será outro perigo qualquer. Lagaan e A Guerra do Ópio dão vida, com belas cores, a uma verdade cansada de velha: a de que a estupidez dos homens é infinita.
março 05, 2004
Rádio nostalgia
Mas as nossas rádios, comerciais, estão impossíveis de ouvir. Entre relatos de futebol e bacoradas de treinadores na TSF e na Antena 1, missas por encomenda e sermões requentados de 30 segundos na Renascença, o matraquear constante dos últimos «hits» na Comercial e na RFM, sobra pouco de jeito para ouvir. Alguma nostalgia pode ser compensada no Rádio Clube Português, no velho Oceano Pacífico e pouco mais. O nosso FM, tirando a Antena 2, é uma desgraça pegada.
Verdadeiras alternativas estão é na Internet. Aqui, sim, pode-se fugir à obtusa massificação comercial, quando não popularucha, das rádios. Exemplo disso é o sítio AccuRadio. Aqui tem nostalgia dos 80 para dar e vender, mas também tem jazz à escolha, música céltica, rock britânico actual, pop, country, etc. E, aqui, quem manda é o ouvinte.
março 04, 2004
Na morte de Boorstin
março 01, 2004
Cancros
Ficámos a saber: Luís Filipe Menezes e Narciso Miranda vão lá ao tribunal como testemunhas abonatórias deste verdadeiro artista do Marco. O cancro populista alastra, implacavelmente.
fevereiro 28, 2004
É a vida...
fevereiro 24, 2004
Assustador
Bush quer proibir casamentos entre homossexuais e defende a abstinência sexual e o regresso à «família» e aos bons costumes, de preferência iguais aos seus. Sonha com uma moral planetária Made in America. Grotesco. O artista governador da Califórnia, outro erro catastrófico de casting democrático, também gosta da ideia.
O desgraçado do papa diz aos africanos para se matarem aos milhões de sida, pois o preservativo é pecado. Aznar, conservador passadista, vai impor a religião católica nas escolas à viva força do obscurantismo religioso. Saudades de Franco? A Chirac, deu-lhe para a proibição do véu, com resultados que ainda se estão para ver. Blair olha todos os dias ao espelho na esperança de descobrir, lá no fundo, o seu reflexo.
Sharon, rodeado de falcões descerebrados e outros extremistas cegos, tem cada vez mais guarda-costas para lhe protegerem o bem mais preciso que tem na cabeça: o seu neurónio. Castro, esclerosado, aperta o torniquete de todas as liberdades até morrer, um dia destes, de remorsos com ataque cardíaco. Até Lula está menos popular. O sinistro regime do Irão atira os reformadores pela borda fora, ficam os fanáticos. Todos os regimes governados por religiosos fundamentalistas, fanatizam-se ainda mais, com a preciosa ajuda dos States. Sung júnior, de tanto implodir a Coreia do Norte, ainda rebenta com ela. Putin não governa bêbado de vodka, mas parece ser mais uma história mal contada, das muitas que a Rússia tem. Veremos o que acontece no enorme desastre chamado Iraque. E o Haiti não é aqui, como canta Caetano. Está como se vê. E a maior parte dos países do resto do mundo são números.
Levadas demasiado a sério, todas as religiões são perigosas.
Ora, e por cá, no país da náusea resumido pelo Monde? Os lusitanos um pouco mais esclarecidos que a média da turba ensaduichada entre doses maciças de futebol, shoppings, trabalho, stress, ansiolíticos, dívidas, mortes na estrada, novelas e tinto, têm razões para estar preocupados. O país não está a andar para trás: anda a dar coices na razão e marradas portentosas no futuro, mostrando que a ideia de evolução, no sentido do progresso civilizacional, não é um dado adquirido. Bem pelo contrário.
Portas, líder de Durão Barroso e dos neo-conservadores de sacristia, reza todos os dias à Virgem Santíssima, enquanto o resto dos beatos do governo e seus devotos acólitos fazem o que podem pelo regresso de «Deus, pátria e família» e, já agora, do império. As livrarias, até as livrarias, destacam nas montras livros com títulos arrepiantes que falam, garbosamente, de antigos «soldados do Império». Convenhamos que a coisa ainda é pior quando destacam livros do Mourinho. Enfim.
Se o país der rédea solta a esta gente anacrónica, saudosista e ferozmente intolerante que se esconde por trás do manto cristão da bondade das intenções, totalmente incapaz de entender as complexidades, as fragmentações e as mutações próprias das sociedades contemporâneas, não tarda nada e teremos de volta clones do cardeal Cerejeira a todas as estruturas de poder. Nessa altura, valha-nos Deus!
Gaarder: sobre o escasso espanto
Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia.
fevereiro 18, 2004
Caricatura
fevereiro 14, 2004
Mundo descontrolado
O tempo de antena, o espaço de páginas gasto com tricas, acusações, insinuações, verborreias, entre dirigentes, jogadores, adeptos e alguns políticos à mistura chega a ser demencial. A mais perfeita imagem de um país em pleno retrocesso.
Os media têm também, neste particular, muitas culpas no cartório, acirrados pela concorrência e pelas implacáveis regras das audiências. Pena que ninguém lhes peça contas a sério.
