março 14, 2004
De ouvido: casamento feliz
Mychael Danna produziu um banda sonora que se aguenta perfeitamente por si só. É um belo disco. Mistura tradicional com recente, acústico com sintetizado, de uma forma magistral. Recupera, num dos temas, o fabuloso paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e termina com a versão remix de três dos temas. Casamento debaixo de chuva, filme e banda sonora, é um caso de relação bem sucedida.
Com os espanhóis
março 11, 2004
Monocórdicos jornais
A exploração das potencialidades narrativas da Web, pelas quais passa o uso integrado do hipertexto, do multimédia, da criação de espaços de debate com e entre a audiência, é, para não dizer mais, muito fraca. Dá para ver que do outro lado do ecrã não há meios suficientes para fazer melhor.
A desilusão é ainda maior em sítios nados e criados na Web, como o Diário Digital e o Portugal Diário. Por natureza, tinham a obrigação de ir mais longe, mas, como hoje se viu, pouco se conseguem distinguir do marasmo geral. É pena.
O ciberjornalismo português permanece, em boa medida, um palmo à frente da estaca zero.
março 10, 2004
De olhares: Apocalipse definitivo
março 07, 2004
De olhares: o ópio das guerras
Lagaan: Era uma vez na Índia é, felizmente para nós, contada pelo lado dos indianos. Ashutosh Gowariker prende-nos ao ecrã com a história de um oficial, daqueles very british bestas, que encarna, do alto da sua ponderosa imbecilidade, a forma leviana como o «império» brincava - no caso, com apostas no absurdo jogo do crikett - com a vida de pessoas que viviam sossegadas na sua terra até terem o privilégio de serem invadidas e dominadas pelos esfaimados ingleses.
É uma história de opressão e humilhação, passada no século XIX. Complete-se este quadro com a revisão da obra-prima cinematográfica que é Gandhi para se ficar com uma ideia ainda mais apurada sobre as brilhantes conquistas civilizacionais e culturais do british empire.
O século XIX serve também de pano de fundo à acção de A Guerra do Ópio, filme chinês, realizado por Xie Jin, onde a gula comercial inglesa volta a ter destaque, desta vez por causa do negócio do ópio, contra o qual o imperador do Império do Meio resolveu lutar. Choque de culturas, choque de histórias (sendo que uma delas, a da China, tem mais de cinco mil anos...), choque, enfim, de poderes. Na altura, como hoje, podia mais quem tinha melhores canhões. Foi nesta guerra que a China perdeu Hong Kong.
E as gerações passam , e os governantes mudam, e as democracias crescem e os erros repetem-se e volta tudo ao princípio sem fim. Dantes era ópio, hoje é o petróleo, amanhã será outro perigo qualquer. Lagaan e A Guerra do Ópio dão vida, com belas cores, a uma verdade cansada de velha: a de que a estupidez dos homens é infinita.
março 05, 2004
Rádio nostalgia
Mas as nossas rádios, comerciais, estão impossíveis de ouvir. Entre relatos de futebol e bacoradas de treinadores na TSF e na Antena 1, missas por encomenda e sermões requentados de 30 segundos na Renascença, o matraquear constante dos últimos «hits» na Comercial e na RFM, sobra pouco de jeito para ouvir. Alguma nostalgia pode ser compensada no Rádio Clube Português, no velho Oceano Pacífico e pouco mais. O nosso FM, tirando a Antena 2, é uma desgraça pegada.
Verdadeiras alternativas estão é na Internet. Aqui, sim, pode-se fugir à obtusa massificação comercial, quando não popularucha, das rádios. Exemplo disso é o sítio AccuRadio. Aqui tem nostalgia dos 80 para dar e vender, mas também tem jazz à escolha, música céltica, rock britânico actual, pop, country, etc. E, aqui, quem manda é o ouvinte.
março 04, 2004
Na morte de Boorstin
março 01, 2004
Cancros
Ficámos a saber: Luís Filipe Menezes e Narciso Miranda vão lá ao tribunal como testemunhas abonatórias deste verdadeiro artista do Marco. O cancro populista alastra, implacavelmente.
fevereiro 28, 2004
É a vida...
fevereiro 24, 2004
Assustador
Bush quer proibir casamentos entre homossexuais e defende a abstinência sexual e o regresso à «família» e aos bons costumes, de preferência iguais aos seus. Sonha com uma moral planetária Made in America. Grotesco. O artista governador da Califórnia, outro erro catastrófico de casting democrático, também gosta da ideia.
O desgraçado do papa diz aos africanos para se matarem aos milhões de sida, pois o preservativo é pecado. Aznar, conservador passadista, vai impor a religião católica nas escolas à viva força do obscurantismo religioso. Saudades de Franco? A Chirac, deu-lhe para a proibição do véu, com resultados que ainda se estão para ver. Blair olha todos os dias ao espelho na esperança de descobrir, lá no fundo, o seu reflexo.
Sharon, rodeado de falcões descerebrados e outros extremistas cegos, tem cada vez mais guarda-costas para lhe protegerem o bem mais preciso que tem na cabeça: o seu neurónio. Castro, esclerosado, aperta o torniquete de todas as liberdades até morrer, um dia destes, de remorsos com ataque cardíaco. Até Lula está menos popular. O sinistro regime do Irão atira os reformadores pela borda fora, ficam os fanáticos. Todos os regimes governados por religiosos fundamentalistas, fanatizam-se ainda mais, com a preciosa ajuda dos States. Sung júnior, de tanto implodir a Coreia do Norte, ainda rebenta com ela. Putin não governa bêbado de vodka, mas parece ser mais uma história mal contada, das muitas que a Rússia tem. Veremos o que acontece no enorme desastre chamado Iraque. E o Haiti não é aqui, como canta Caetano. Está como se vê. E a maior parte dos países do resto do mundo são números.
Levadas demasiado a sério, todas as religiões são perigosas.
Ora, e por cá, no país da náusea resumido pelo Monde? Os lusitanos um pouco mais esclarecidos que a média da turba ensaduichada entre doses maciças de futebol, shoppings, trabalho, stress, ansiolíticos, dívidas, mortes na estrada, novelas e tinto, têm razões para estar preocupados. O país não está a andar para trás: anda a dar coices na razão e marradas portentosas no futuro, mostrando que a ideia de evolução, no sentido do progresso civilizacional, não é um dado adquirido. Bem pelo contrário.
Portas, líder de Durão Barroso e dos neo-conservadores de sacristia, reza todos os dias à Virgem Santíssima, enquanto o resto dos beatos do governo e seus devotos acólitos fazem o que podem pelo regresso de «Deus, pátria e família» e, já agora, do império. As livrarias, até as livrarias, destacam nas montras livros com títulos arrepiantes que falam, garbosamente, de antigos «soldados do Império». Convenhamos que a coisa ainda é pior quando destacam livros do Mourinho. Enfim.
Se o país der rédea solta a esta gente anacrónica, saudosista e ferozmente intolerante que se esconde por trás do manto cristão da bondade das intenções, totalmente incapaz de entender as complexidades, as fragmentações e as mutações próprias das sociedades contemporâneas, não tarda nada e teremos de volta clones do cardeal Cerejeira a todas as estruturas de poder. Nessa altura, valha-nos Deus!
Gaarder: sobre o escasso espanto
Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia.
fevereiro 18, 2004
Caricatura
fevereiro 14, 2004
Mundo descontrolado
O tempo de antena, o espaço de páginas gasto com tricas, acusações, insinuações, verborreias, entre dirigentes, jogadores, adeptos e alguns políticos à mistura chega a ser demencial. A mais perfeita imagem de um país em pleno retrocesso.
Os media têm também, neste particular, muitas culpas no cartório, acirrados pela concorrência e pelas implacáveis regras das audiências. Pena que ninguém lhes peça contas a sério.
fevereiro 13, 2004
De olhares: paixões de artesãos
Escapar ao punho de aço da Califórnia passa hoje por procurar espaços alternativos. Em termos de salas de cinema, há poucos. Nas televisões, idem. O DVD, ainda, e também, é dominado pelas americanadas de consumo imediato.
Mas, aos poucos, lá vão aparecendo algumas obras, dignas da maior atenção. Cinema de autor. Filmes de outras línguas, diferentes linguagens. De outros ritmos, cores e tempos. Filmes como Abril despedaçado, do brasileiro Walter Salles. Passa quase despercebido, esmagado por prateleiras gordas de The Matrix ou de comédias românticas, histórias que apenas se repetem. E repetem. E tornam a enjoar.
Filmes como Lagaan: Era uma vez na Índia ou Casamento debaixo de chuva são para ver. Obrigatório. Quem fala deles? Quem os promove por cá em grandes outdoors ou spots televisivos? É proibido sacudir grandes fitas destas com um preconceituoso «bolas...filmes indianos...» É procurá-los bem, a estes DVD, nas catacumbas das FNAC, por exemplo.
Rever, pela mão da Atalanta, a fabulosa trilogia do italiano Nanni Moretti (Abril, O quarto do filho, Querido diário) e suspirar por tudo aquilo que já devia cá estar e não está e se calhar tão cedo não vem, nem sequer aparece na TV, de Fellini, Pasolini, Kieslowski, Chen Kaige, Kurosawa, Oshima, Angelopoulos, Kar-Wai, chineses, mexicanos, russos, holandeses, suecos, africanos, iranianos, afegãos, turcos, japoneses, tantos e diversos que não chegam a ver a luz do escuro do cinema por ela estar toda ofuscada pelos holofotes de Hollywood.
Chegar ao outro cinema é hoje uma paixão de artesãos.
fevereiro 07, 2004
Democracias no cadafalso
Esta charada de enorme alcance tem, para além dos efeitos que já se conhecem (aumento, em vez de diminuição, do terrorismo, desestruturação total de um país e efeitos colaterais nefastos em toda a região, etc.) um impacto devastador na já de si cínica relação entre governantes e governados, sobretudo nos países promotores desta guerra cega e insensata.
Se chefes de Estado ou de governo embarcam com esta leviandade em aventuras brutalmente estúpidas, se, à vista de todos, se recusam a ver o mais óbvio, se provocam milhares de mortes em vão, se mentem com quantos dentes têm para atingir objectivos obscuros, ainda por cima convencidos de que estão a fazer uma grande coisa, que há-de ser de nós, pobres cidadãos do mundo?
É este tipo de gente que põe as democracias no cadafalso.
