março 14, 2004

De ouvido: casamento feliz

Se o filme Casamento debaixo de chuva é bom, a banda sonora não lhe fica atrás. Bem pelo contrário. Logo às primeiras músicas, somos transportados de imediato para a paleta de cores e gestos que Mira Nair nos havia pintado no ecrã. E aqueles planos fabulosos, as pinceladas fugazes sobre Nova Deli...

Mychael Danna produziu um banda sonora que se aguenta perfeitamente por si só. É um belo disco. Mistura tradicional com recente, acústico com sintetizado, de uma forma magistral. Recupera, num dos temas, o fabuloso paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e termina com a versão remix de três dos temas. Casamento debaixo de chuva, filme e banda sonora, é um caso de relação bem sucedida.

Com os espanhóis

O Travessias é uma pequena gota no imenso oceano do ciberespaço. Mas também esta gota corre com as lágrimas dos espanhóis.

março 11, 2004

Monocórdicos jornais

Uma vista de olhos pelas edições online dos principais media noticiosos portugueses serve para confirmar a decepção de sempre. Perante um acontecimento de enorme impacto, como foi o atentado terrorista em Madrid, a maior parte dos sites responde com páginas monocórdicas de texto, muito texto (quase sempre colado de agências), poucas imagens, menos ainda gráficos explicativos animados, escasso vídeo e pouco som. Sites de televisão propõem 'clips' de telejornal, meio desgarrados do resto do material informativo.

A exploração das potencialidades narrativas da Web, pelas quais passa o uso integrado do hipertexto, do multimédia, da criação de espaços de debate com e entre a audiência, é, para não dizer mais, muito fraca. Dá para ver que do outro lado do ecrã não há meios suficientes para fazer melhor.

A desilusão é ainda maior em sítios nados e criados na Web, como o Diário Digital e o Portugal Diário. Por natureza, tinham a obrigação de ir mais longe, mas, como hoje se viu, pouco se conseguem distinguir do marasmo geral. É pena.

O ciberjornalismo português permanece, em boa medida, um palmo à frente da estaca zero.

março 10, 2004

De olhares: Apocalipse definitivo

Na sua versão integral, Apocalipse Now não é um filme sobre a guerra do Vietname. Longe disso. É o filme sobre a guerra do Vietname.

março 07, 2004

De olhares: o ópio das guerras

Dois filmes, vistos em casa recentemente, mostram-nos a face cruel, arrogante, cínica, obtusa e bacoca do velho império britânico.

Lagaan: Era uma vez na Índia é, felizmente para nós, contada pelo lado dos indianos. Ashutosh Gowariker prende-nos ao ecrã com a história de um oficial, daqueles very british bestas, que encarna, do alto da sua ponderosa imbecilidade, a forma leviana como o «império» brincava - no caso, com apostas no absurdo jogo do crikett - com a vida de pessoas que viviam sossegadas na sua terra até terem o privilégio de serem invadidas e dominadas pelos esfaimados ingleses.

É uma história de opressão e humilhação, passada no século XIX. Complete-se este quadro com a revisão da obra-prima cinematográfica que é Gandhi para se ficar com uma ideia ainda mais apurada sobre as brilhantes conquistas civilizacionais e culturais do british empire.

O século XIX serve também de pano de fundo à acção de A Guerra do Ópio, filme chinês, realizado por Xie Jin, onde a gula comercial inglesa volta a ter destaque, desta vez por causa do negócio do ópio, contra o qual o imperador do Império do Meio resolveu lutar. Choque de culturas, choque de histórias (sendo que uma delas, a da China, tem mais de cinco mil anos...), choque, enfim, de poderes. Na altura, como hoje, podia mais quem tinha melhores canhões. Foi nesta guerra que a China perdeu Hong Kong.

E as gerações passam , e os governantes mudam, e as democracias crescem e os erros repetem-se e volta tudo ao princípio sem fim. Dantes era ópio, hoje é o petróleo, amanhã será outro perigo qualquer. Lagaan e A Guerra do Ópio dão vida, com belas cores, a uma verdade cansada de velha: a de que a estupidez dos homens é infinita.

março 05, 2004

Rádio nostalgia

Para os trintões e meio de hoje, pelo menos aqueles que no início da década de 80 do século passado não estavam retirados num qualquer mosteiro, não é sem um toquezinho de nostalgia que ouvem na rádio, de vez em quando, os Spandau Ballet, os Duran Duran, os The Cure, Culture Club, Supertramp, Police, Echo & the Bunnymen, ABC, Kim Wilde, Blondie, Toto, Talk Talk, Smiths, Alphaville, a par de alguns imortais, como os U2, David Bowie, Springsteen e os Stones.

Mas as nossas rádios, comerciais, estão impossíveis de ouvir. Entre relatos de futebol e bacoradas de treinadores na TSF e na Antena 1, missas por encomenda e sermões requentados de 30 segundos na Renascença, o matraquear constante dos últimos «hits» na Comercial e na RFM, sobra pouco de jeito para ouvir. Alguma nostalgia pode ser compensada no Rádio Clube Português, no velho Oceano Pacífico e pouco mais. O nosso FM, tirando a Antena 2, é uma desgraça pegada.

Verdadeiras alternativas estão é na Internet. Aqui, sim, pode-se fugir à obtusa massificação comercial, quando não popularucha, das rádios. Exemplo disso é o sítio AccuRadio. Aqui tem nostalgia dos 80 para dar e vender, mas também tem jazz à escolha, música céltica, rock britânico actual, pop, country, etc. E, aqui, quem manda é o ouvinte.

março 04, 2004

Na morte de Boorstin

O jornalismo habitua-nos a lidar com más notícias todos os dias. Aliás, boa parte do quotidiano jornalístico é mergulhado na atmosfera pesada das más notícias. Mas há umas mais más do que outras. Morreu o historiador Daniel Boorstin.

Há autores com quem passamos tantas noites, noite adentro, página após página, 100, 200, 400, que, de certa forma, eles se tornam cá de casa. A morte de Boorstin apanha-me quase no final da leitura do seu colossal Os Descobridores. A nossa concepção do mundo e do homem muda muito depois de passarmos por esta montanha de saber compilada em papel. O velho historiador era também um belo contador da história e das histórias da Humanidade, do nosso longo e sinuoso percurso.

Outra obra marcante dele, imperdível, é Os Pensadores, ou a história da constante busca do homem para compreender o seu mundo, com incidência nos filósofos.

Boorstin deixa uma obra monumental. Terá enriquecido a cabeça de muita gente por esse planeta fora. Mas a sua morte não fará, certamente, notícia no telejornal.

Na notícia sobre a morte de Boorstin, o Monde recorda uma bela frase do autor: «O maior obstáculo à descoberta não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento.»

março 01, 2004

Cancros

Nada como começar o mês, iniciar o dia, vendo o autarca Avelino Ferreira Torres na televisão aos pontapés em cadeiras, espumando, insultando o árbitro com urros, em cima do relvado do Estádio Avelino Ferreira Torres. O país autárquico troglodita em todo o seu horroroso esplendor exibe-se, sem pudor, perante nós, telespectadores de uma democracia cancerosa. Cheia de tumores deste tipo caceteiro, trauliteiro, populista e, em última análise, perigoso.


Ficámos a saber: Luís Filipe Menezes e Narciso Miranda vão lá ao tribunal como testemunhas abonatórias deste verdadeiro artista do Marco. O cancro populista alastra, implacavelmente.

fevereiro 28, 2004

É a vida...

«Os homens de mais espírito, suponho que são os mais ousados, experimentam também, de longe, as mais dolorosas tragédias; precisamente por isso honram a vida, porque esta lhes contrapõe o seu máximo antagonismo.»

Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos.

fevereiro 24, 2004

Assustador

O mundo está a andar para trás. Aos saltos. Assustadoramente.


Bush quer proibir casamentos entre homossexuais e defende a abstinência sexual e o regresso à «família» e aos bons costumes, de preferência iguais aos seus. Sonha com uma moral planetária Made in America. Grotesco. O artista governador da Califórnia, outro erro catastrófico de casting democrático, também gosta da ideia.


O desgraçado do papa diz aos africanos para se matarem aos milhões de sida, pois o preservativo é pecado. Aznar, conservador passadista, vai impor a religião católica nas escolas à viva força do obscurantismo religioso. Saudades de Franco? A Chirac, deu-lhe para a proibição do véu, com resultados que ainda se estão para ver. Blair olha todos os dias ao espelho na esperança de descobrir, lá no fundo, o seu reflexo.


Sharon, rodeado de falcões descerebrados e outros extremistas cegos, tem cada vez mais guarda-costas para lhe protegerem o bem mais preciso que tem na cabeça: o seu neurónio. Castro, esclerosado, aperta o torniquete de todas as liberdades até morrer, um dia destes, de remorsos com ataque cardíaco. Até Lula está menos popular. O sinistro regime do Irão atira os reformadores pela borda fora, ficam os fanáticos. Todos os regimes governados por religiosos fundamentalistas, fanatizam-se ainda mais, com a preciosa ajuda dos States. Sung júnior, de tanto implodir a Coreia do Norte, ainda rebenta com ela. Putin não governa bêbado de vodka, mas parece ser mais uma história mal contada, das muitas que a Rússia tem. Veremos o que acontece no enorme desastre chamado Iraque. E o Haiti não é aqui, como canta Caetano. Está como se vê. E a maior parte dos países do resto do mundo são números.


Levadas demasiado a sério, todas as religiões são perigosas.


Ora, e por cá, no país da náusea resumido pelo Monde? Os lusitanos um pouco mais esclarecidos que a média da turba ensaduichada entre doses maciças de futebol, shoppings, trabalho, stress, ansiolíticos, dívidas, mortes na estrada, novelas e tinto, têm razões para estar preocupados. O país não está a andar para trás: anda a dar coices na razão e marradas portentosas no futuro, mostrando que a ideia de evolução, no sentido do progresso civilizacional, não é um dado adquirido. Bem pelo contrário.


Portas, líder de Durão Barroso e dos neo-conservadores de sacristia, reza todos os dias à Virgem Santíssima, enquanto o resto dos beatos do governo e seus devotos acólitos fazem o que podem pelo regresso de «Deus, pátria e família» e, já agora, do império. As livrarias, até as livrarias, destacam nas montras livros com títulos arrepiantes que falam, garbosamente, de antigos «soldados do Império». Convenhamos que a coisa ainda é pior quando destacam livros do Mourinho. Enfim.


Se o país der rédea solta a esta gente anacrónica, saudosista e ferozmente intolerante que se esconde por trás do manto cristão da bondade das intenções, totalmente incapaz de entender as complexidades, as fragmentações e as mutações próprias das sociedades contemporâneas, não tarda nada e teremos de volta clones do cardeal Cerejeira a todas as estruturas de poder. Nessa altura, valha-nos Deus!

Gaarder: sobre o escasso espanto

«Apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso.»

Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia.

fevereiro 18, 2004

Caricatura

Berlusconi faz passar no Parlamento uma lei que lhe permite manter intacto o império de canais de televisão que o levou ao poder. A Itália está uma caricatura de si própria.

fevereiro 14, 2004

Mundo descontrolado

Que o mundo do futebol português é um esgoto, já ninguém tem dúvidas. O mais chato é que, ciclicamente, os media tratam de amplificar, no limite do suportável, o mau cheiro deste planeta à margem das leis e do bom senso. Sobretudo quando os «agentes» do «sistema» lançam no ar o perfume da «corrupção».


O tempo de antena, o espaço de páginas gasto com tricas, acusações, insinuações, verborreias, entre dirigentes, jogadores, adeptos e alguns políticos à mistura chega a ser demencial. A mais perfeita imagem de um país em pleno retrocesso.


Os media têm também, neste particular, muitas culpas no cartório, acirrados pela concorrência e pelas implacáveis regras das audiências. Pena que ninguém lhes peça contas a sério.

fevereiro 13, 2004

De olhares: paixões de artesãos

É triste, e sobremaneira empobrecedor, mas parece não haver grande volta a dar. As salas de cinema e os ecrãs de televisão abarrotam de cinema dos EUA. Do mau, entenda-se. E por mau perceba-se que é aquele das fórmulas de Hollywood, filmes feitos para o consumo maximizado de bilhetes e pipocas. Não é arte, é negócio. É o cinema dos produtores por excelência, com marmelada, porrada e final feliz.


Escapar ao punho de aço da Califórnia passa hoje por procurar espaços alternativos. Em termos de salas de cinema, há poucos. Nas televisões, idem. O DVD, ainda, e também, é dominado pelas americanadas de consumo imediato.


Mas, aos poucos, lá vão aparecendo algumas obras, dignas da maior atenção. Cinema de autor. Filmes de outras línguas, diferentes linguagens. De outros ritmos, cores e tempos. Filmes como Abril despedaçado, do brasileiro Walter Salles. Passa quase despercebido, esmagado por prateleiras gordas de The Matrix ou de comédias românticas, histórias que apenas se repetem. E repetem. E tornam a enjoar.


Filmes como Lagaan: Era uma vez na Índia ou Casamento debaixo de chuva são para ver. Obrigatório. Quem fala deles? Quem os promove por cá em grandes outdoors ou spots televisivos? É proibido sacudir grandes fitas destas com um preconceituoso «bolas...filmes indianos...» É procurá-los bem, a estes DVD, nas catacumbas das FNAC, por exemplo.


Rever, pela mão da Atalanta, a fabulosa trilogia do italiano Nanni Moretti (Abril, O quarto do filho, Querido diário) e suspirar por tudo aquilo que já devia cá estar e não está e se calhar tão cedo não vem, nem sequer aparece na TV, de Fellini, Pasolini, Kieslowski, Chen Kaige, Kurosawa, Oshima, Angelopoulos, Kar-Wai, chineses, mexicanos, russos, holandeses, suecos, africanos, iranianos, afegãos, turcos, japoneses, tantos e diversos que não chegam a ver a luz do escuro do cinema por ela estar toda ofuscada pelos holofotes de Hollywood.


Chegar ao outro cinema é hoje uma paixão de artesãos.

fevereiro 07, 2004

Democracias no cadafalso

A palhaçada da invasão forçada do Iraque começa, finalmente, a ser aceite como tal, até pelos mais seguidores (seguidistas?) das pias intenções de Bush, Blair e o resto dos coligados por interesse ou mera falha de coluna vertebral. Já não há maneira de mascarar aquilo que foi um erro político, táctico e geoestratégico crasso. Não basta agora atirar a água do capote para cima dos serviços secretos. Alguém andou a brincar às armas de destruição maciça com o povo, mas é de duvidar que tenha sido a CIA ou o MI5...


Esta charada de enorme alcance tem, para além dos efeitos que já se conhecem (aumento, em vez de diminuição, do terrorismo, desestruturação total de um país e efeitos colaterais nefastos em toda a região, etc.) um impacto devastador na já de si cínica relação entre governantes e governados, sobretudo nos países promotores desta guerra cega e insensata.


Se chefes de Estado ou de governo embarcam com esta leviandade em aventuras brutalmente estúpidas, se, à vista de todos, se recusam a ver o mais óbvio, se provocam milhares de mortes em vão, se mentem com quantos dentes têm para atingir objectivos obscuros, ainda por cima convencidos de que estão a fazer uma grande coisa, que há-de ser de nós, pobres cidadãos do mundo?


É este tipo de gente que põe as democracias no cadafalso.