fevereiro 28, 2004

É a vida...

«Os homens de mais espírito, suponho que são os mais ousados, experimentam também, de longe, as mais dolorosas tragédias; precisamente por isso honram a vida, porque esta lhes contrapõe o seu máximo antagonismo.»

Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos.

fevereiro 24, 2004

Assustador

O mundo está a andar para trás. Aos saltos. Assustadoramente.


Bush quer proibir casamentos entre homossexuais e defende a abstinência sexual e o regresso à «família» e aos bons costumes, de preferência iguais aos seus. Sonha com uma moral planetária Made in America. Grotesco. O artista governador da Califórnia, outro erro catastrófico de casting democrático, também gosta da ideia.


O desgraçado do papa diz aos africanos para se matarem aos milhões de sida, pois o preservativo é pecado. Aznar, conservador passadista, vai impor a religião católica nas escolas à viva força do obscurantismo religioso. Saudades de Franco? A Chirac, deu-lhe para a proibição do véu, com resultados que ainda se estão para ver. Blair olha todos os dias ao espelho na esperança de descobrir, lá no fundo, o seu reflexo.


Sharon, rodeado de falcões descerebrados e outros extremistas cegos, tem cada vez mais guarda-costas para lhe protegerem o bem mais preciso que tem na cabeça: o seu neurónio. Castro, esclerosado, aperta o torniquete de todas as liberdades até morrer, um dia destes, de remorsos com ataque cardíaco. Até Lula está menos popular. O sinistro regime do Irão atira os reformadores pela borda fora, ficam os fanáticos. Todos os regimes governados por religiosos fundamentalistas, fanatizam-se ainda mais, com a preciosa ajuda dos States. Sung júnior, de tanto implodir a Coreia do Norte, ainda rebenta com ela. Putin não governa bêbado de vodka, mas parece ser mais uma história mal contada, das muitas que a Rússia tem. Veremos o que acontece no enorme desastre chamado Iraque. E o Haiti não é aqui, como canta Caetano. Está como se vê. E a maior parte dos países do resto do mundo são números.


Levadas demasiado a sério, todas as religiões são perigosas.


Ora, e por cá, no país da náusea resumido pelo Monde? Os lusitanos um pouco mais esclarecidos que a média da turba ensaduichada entre doses maciças de futebol, shoppings, trabalho, stress, ansiolíticos, dívidas, mortes na estrada, novelas e tinto, têm razões para estar preocupados. O país não está a andar para trás: anda a dar coices na razão e marradas portentosas no futuro, mostrando que a ideia de evolução, no sentido do progresso civilizacional, não é um dado adquirido. Bem pelo contrário.


Portas, líder de Durão Barroso e dos neo-conservadores de sacristia, reza todos os dias à Virgem Santíssima, enquanto o resto dos beatos do governo e seus devotos acólitos fazem o que podem pelo regresso de «Deus, pátria e família» e, já agora, do império. As livrarias, até as livrarias, destacam nas montras livros com títulos arrepiantes que falam, garbosamente, de antigos «soldados do Império». Convenhamos que a coisa ainda é pior quando destacam livros do Mourinho. Enfim.


Se o país der rédea solta a esta gente anacrónica, saudosista e ferozmente intolerante que se esconde por trás do manto cristão da bondade das intenções, totalmente incapaz de entender as complexidades, as fragmentações e as mutações próprias das sociedades contemporâneas, não tarda nada e teremos de volta clones do cardeal Cerejeira a todas as estruturas de poder. Nessa altura, valha-nos Deus!

Gaarder: sobre o escasso espanto

«Apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso.»

Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia.

fevereiro 18, 2004

Caricatura

Berlusconi faz passar no Parlamento uma lei que lhe permite manter intacto o império de canais de televisão que o levou ao poder. A Itália está uma caricatura de si própria.

fevereiro 14, 2004

Mundo descontrolado

Que o mundo do futebol português é um esgoto, já ninguém tem dúvidas. O mais chato é que, ciclicamente, os media tratam de amplificar, no limite do suportável, o mau cheiro deste planeta à margem das leis e do bom senso. Sobretudo quando os «agentes» do «sistema» lançam no ar o perfume da «corrupção».


O tempo de antena, o espaço de páginas gasto com tricas, acusações, insinuações, verborreias, entre dirigentes, jogadores, adeptos e alguns políticos à mistura chega a ser demencial. A mais perfeita imagem de um país em pleno retrocesso.


Os media têm também, neste particular, muitas culpas no cartório, acirrados pela concorrência e pelas implacáveis regras das audiências. Pena que ninguém lhes peça contas a sério.

fevereiro 13, 2004

De olhares: paixões de artesãos

É triste, e sobremaneira empobrecedor, mas parece não haver grande volta a dar. As salas de cinema e os ecrãs de televisão abarrotam de cinema dos EUA. Do mau, entenda-se. E por mau perceba-se que é aquele das fórmulas de Hollywood, filmes feitos para o consumo maximizado de bilhetes e pipocas. Não é arte, é negócio. É o cinema dos produtores por excelência, com marmelada, porrada e final feliz.


Escapar ao punho de aço da Califórnia passa hoje por procurar espaços alternativos. Em termos de salas de cinema, há poucos. Nas televisões, idem. O DVD, ainda, e também, é dominado pelas americanadas de consumo imediato.


Mas, aos poucos, lá vão aparecendo algumas obras, dignas da maior atenção. Cinema de autor. Filmes de outras línguas, diferentes linguagens. De outros ritmos, cores e tempos. Filmes como Abril despedaçado, do brasileiro Walter Salles. Passa quase despercebido, esmagado por prateleiras gordas de The Matrix ou de comédias românticas, histórias que apenas se repetem. E repetem. E tornam a enjoar.


Filmes como Lagaan: Era uma vez na Índia ou Casamento debaixo de chuva são para ver. Obrigatório. Quem fala deles? Quem os promove por cá em grandes outdoors ou spots televisivos? É proibido sacudir grandes fitas destas com um preconceituoso «bolas...filmes indianos...» É procurá-los bem, a estes DVD, nas catacumbas das FNAC, por exemplo.


Rever, pela mão da Atalanta, a fabulosa trilogia do italiano Nanni Moretti (Abril, O quarto do filho, Querido diário) e suspirar por tudo aquilo que já devia cá estar e não está e se calhar tão cedo não vem, nem sequer aparece na TV, de Fellini, Pasolini, Kieslowski, Chen Kaige, Kurosawa, Oshima, Angelopoulos, Kar-Wai, chineses, mexicanos, russos, holandeses, suecos, africanos, iranianos, afegãos, turcos, japoneses, tantos e diversos que não chegam a ver a luz do escuro do cinema por ela estar toda ofuscada pelos holofotes de Hollywood.


Chegar ao outro cinema é hoje uma paixão de artesãos.

fevereiro 07, 2004

Democracias no cadafalso

A palhaçada da invasão forçada do Iraque começa, finalmente, a ser aceite como tal, até pelos mais seguidores (seguidistas?) das pias intenções de Bush, Blair e o resto dos coligados por interesse ou mera falha de coluna vertebral. Já não há maneira de mascarar aquilo que foi um erro político, táctico e geoestratégico crasso. Não basta agora atirar a água do capote para cima dos serviços secretos. Alguém andou a brincar às armas de destruição maciça com o povo, mas é de duvidar que tenha sido a CIA ou o MI5...


Esta charada de enorme alcance tem, para além dos efeitos que já se conhecem (aumento, em vez de diminuição, do terrorismo, desestruturação total de um país e efeitos colaterais nefastos em toda a região, etc.) um impacto devastador na já de si cínica relação entre governantes e governados, sobretudo nos países promotores desta guerra cega e insensata.


Se chefes de Estado ou de governo embarcam com esta leviandade em aventuras brutalmente estúpidas, se, à vista de todos, se recusam a ver o mais óbvio, se provocam milhares de mortes em vão, se mentem com quantos dentes têm para atingir objectivos obscuros, ainda por cima convencidos de que estão a fazer uma grande coisa, que há-de ser de nós, pobres cidadãos do mundo?


É este tipo de gente que põe as democracias no cadafalso.

janeiro 29, 2004

Bagdad, 793

«O papel, o sine qua non da imprensa moderna, como vimos, chegou à Europa através dos Árabes. Fabricado em Bagdad em 793, no reino do califa Harun al-Rashid, celebrizado pelas Mil e Uma Noites, chegaria depois, através da Espanha árabe, à Itália, à França e à Alemanha, no século XIV.»

Daniel J. Boorstin, em Os Descobridores.

Futurologia

A continuar assim, Portugal acabará por cair de podre ao mar.

janeiro 28, 2004

A vida por uma trompete

A vida de Miles Davis não dava um filme: foi um filme. O génio, o mau feitio, o quebrar constante de convenções, na vida e no jazz, as relações difíceis com as mulheres e com alguns filhos, a busca permanente do novo, as drogas, os Ferrari, a pintura, as doenças, o horror ao racismo que sofreu na pele no seu próprio país por ser negro. Miles atravessou muitas décadas. Viveu sempre depressa, mas não morreu novo, ao contrário de Jimi Hendrix, de quem um dia ficou admirador.

«The Miles Davis Story» é um DVD a não perder. Ao longo de duas horas, mais do que os passos de um grande músico, é-nos contada, pela mão de amigos e de ex-mulheres, a história pessoal de alguém riquíssimo em contradições, de vida cheia, sempre nos limites. Rompeu com todas as convenções que, em cada tempo, eram dadas como consensuais. Manteve-se, sempre, subversivo, o que lhe permitiu deixar-nos uma obra única dentro do género, ou melhor, dos géneros que ele foi experimentando.

São muitos os músicos que Miles lançou para o estrelato. Alguns deles (Chick Corea, Dave Holland, Herbie Hancock, Marcus Miller, entre muitos outros), aparecem neste documentário, da autoria de Mike Dibb, evocando a fascinante figura de «black bird».

«The Miles Davis Story» é também para quem não gosta de jazz.

janeiro 27, 2004

Protesto de traseiras

A foto do dia de ontem, a ver ainda no Le Monde: um grupo de activas cidadãs da Suazilândia resolveu arrear a cueca e mostrar a bunda para a fotografia, sinal de maldição para o destinatário. As senhoras marcaram desta forma, singularmente divertida, o seu protesto contra a falta de reformas políticas no reino de Mswati III.

O Porto que não vem nos postais

Um par de senhoras, passo apressado, um pouco nervoso, dobra uma esquina chuvosa do Porto. Chove a potes na cidade. Perto da Rua da Constituição, uma delas, com sotaque obviamente não tripeiro, desabafa: «As pessoas do Porto são umas porcas!»

É um belo exercício contemplativo, este, na cidade Invicta: ver as pessoas, dançando em bicos de pés, como quem baila ansiosamente de nenúfar em nenúfar, procurando evitar pisar as intermináveis filas de merda de cão semeadas pelos passeios.

janeiro 25, 2004

A mentira é um arma de destruição maciça

Olha, olha, o mesmíssimo general que se prestou a fazer um número de circo na ONU para gritar ao mundo que o planeta estava prestes a passar a pó por causa da ameaça de Saddam vem agora admitir que «o Iraque poderia não dispor de armas de destruição maciça em vésperas da guerra.» Powell, um moderado, entretanto adulterado pela contaminação da ala radical da administração Bush, não podia ficar pior nesta fotografia.


Como se isso não bastasse, o ex-chefe da equipa norte-americana que procurava provas físicas da existência de armas de destruição em massa no Iraque veio também dizer, inesperadamente, que não acredita que existisse aquele tipo de armas em solo iraquiano.


Há dias, uma toupeira de alto nível «bufou» que a Invasão do Iraque estava prevista muito antes do 11 de Setembro.


Ainda haverá por aí, sobretudo entre os nossos caseiros fazedores de opinião, alguns dos quais directores de jornais e certos colunistas ingénuos, que tenha o desplante de defender a invasão do Iraque a pretexto das armas de destruição maciça? Continuarão a ter a lata de mostrar-se mais bushistas que os próprios Bush & Blair nesta matéria?


No entanto, é de esperar que o circo da mentira, da hipocrisia e da ilegalidade continue. O delirante presidente americano e o seu mais fiel seguidor, o infeliz do Blair, perante as sucessivas evidências de que tudo isto foi uma grande tanga montada para defender interesses geopolíticos e petrolíferos, continuarão a bater na tecla de sempre para enganar os tontos. E o que não falta por aí é tontos com grande vontade de ser enganados.


Chegados a isto, seria interessante ir para o terreno e perguntar aos soldados da «coligação» no Iraque: «Que é que vocês acham que estão aqui a fazer?»

janeiro 24, 2004

Bola na lama

As (poucas) notícias interessantes do mundo da bola, esse delirante planeta de exageros e estrelatos, são quase sempre para nos deixar de boca aberta. «Clubes europeus têm dívidas de 7000 milhões», titula o Público. «Só as dívidas da Lazio e do Inter superam quase todo o futebol profissional alemão». Espanha, Inglaterra, França, Itália, todos tem clubes à rasca. E estamos a falar de países ricos...


Por cá, por entre dívidas ao fisco e à Segurança Social, salários em atraso e ameaças de falência, o panorama futeboleiro não é melhor, como, aliás, tem sido noticiado à saciedade. Mas nisto reside o milagre máximo deste país altamente pelintra: apesar de estarem quase todos enterrados em dívidas, de mal terem dinheiro para mandar cantar um cego, de viverem muito acima das suas posses, os clubes constroem estádios milionários e inflacionam os salários astronómicos dos «heróis» (esta história de chamar heróis à rapaziada...) dos relvados para gáudio de turbas ululantes.


E o Estado, com os governantes à cabeça e os autarcas de paróquia no fim das quatro linhas, continuam a curvar-se, vergonhosa e indecorosamente, perante «o poder» do futebol. Não há meio de se emanciparem, de parecerem governantes dignos desse nome, de aspirarem a ser autarcas a sério.


Cá, como lá fora, anda tudo maluco com «o poder» do futebol, um desporto bonito transformado em poderosíssima indústria de explorar e robotizar atletas e de alienar massas. E, como acontece como todas as maluqueiras levadas a extremos esquizofrénicos, dá nisto. Deve-se milhões? É o preço da paixão. Fora o árbitro! Venham daí mais uns mihões...

janeiro 20, 2004

Dica cinéfila

Para quem tem acesso ao Odisseia: este canal do cabo anda a exibir uma série imperdível de documentários sobre cinema feito por esse mundo fora, longe das estrelas de Hollywood. China, Japão, Índia...


O primeiro foi sobre as condições, terríveis, em que os realizadores trabalham na China. Censura, controlo artístico, garrote financeiro, perseguição, limites ao nível da distribuição e exibição. Um absoluto sufoco. Oportunidade rara para ver falar na televisão gente brilhante que quase nunca aparece, como Chen Kaige.