janeiro 07, 2004

Perigosas tentações

A justiça e o jornalismo. Os exageros, bem como os erros grosseiros, de parte a parte acabam por redundar nestas tentações perigosas assumidas pela deputada Assunção Esteves: os políticos são achincalhados ao mais alto nível num processo do calibre da Casa Pia, mude-se a Lei de Imprensa, repense-se a «liberdade de comunicação».

Para se chegar a este ponto, muitos estragos de monta foram feitos. Na justiça, o «segredo» respectivo transformou-se numa anedota. Há violações e fugas a toda a hora, que parecem orquestradas milimetricamente por «mãos invisíveis». Letal para qualquer Estado de direito. E os advogados continuam a falar pelos cotovelos. No jornalismo, poucos escapam a tentação de serem os primeiros, mesmo que mal, mesmo que muito mal, para já não falar nos casos de jornalismo de esgoto, em que todos os limites de equilíbrio e bom senso são mandados às malvas em nome da sacrossanta concorrência ou de eventuais interesses mais obscuros do que aquela.


Sejamos claros: em casos-limite, boa parte dos media portugueses não se sabe «auto-regular» sob o ponto de vista jornalístico. Talvez quando levarem com uma revista Lei de Imprensa na cabeça acordem de vez.

janeiro 06, 2004

Provedores em cheio

O jornalismo nacional tem-se fartado de dar com morteiros nos pés, em especial nos últimos anos. A escolha de Joaquim Furtado para provedor dos leitores do Público e a de Manuel Pinto para provedor dos do JN constituem, no entanto, renovados sinais de esperança crítica. Vá lá, nem tudo é mau...

janeiro 05, 2004

Os triunfos da guerra

É de crer que Monohla Dargis faça já parte da lista negra do pessoal de Hollywood. Pelo menos, a avaliar pelo texto hoje publicado no Público no qual a escriba do Los Angeles Times desanca forte e feio os «falsos mundos» criados por aquela poderosíssima indústria da Califórnia.


Dargis faz uma irónica ligação entre os sarilhos guerreiros em que os States andam metidos, na vida real, e a produção cinematográfica virada para os filmes de guerra, na ficção do celulóide. E tem passagens deliciosas de corrosão.


Leia-se esta: «Hollywood continua a fugir do mundo real e reconhecível - o lugar onde as pessoas trabalham, pagam impostos, formam famílias e conseguem sobreviver sem fogões Viking e sem BMW - em direcção a mundos falsos. A fuga toma várias formas e atravessa géneros, e esta temporada expressa-se através de violências periódicas e estados de guerra.»


Depois deste parágrafo que se segue, Dargis deixa definitivamente de entrar de borla nas salas de cinema dos grandes estúdios: «Hollywood tem estado sempre no negócio de venda de belas mentiras. Tal não faz de filmes como "Master & Commander" nada mais do que entretenimentos satisfatórios, mas é discutível se cenas bem realizadas, ou belas estrelas, realmente tornam essas mentiras mais do que saborosas. Os filmes têm uma forma estranha de oferecer as suas próprias verdades.»


E termina em grande: «O facto de a complexidade ser difícil de vender no mercado global explica porque é que Hollywood tem fugido da realidade e porque é que filmes como "Mystic River" são cada vez mais raros.»

A rebelião das minorias

O sociólogo Serge Moscovici, em entrevista ao Expresso sobre o tema minorias sociais: «Esta é a grande diferença entre o início e o fim do século XX. Ortega y Gasset falava de rebelião de massas. Nós vivemos a rebelião das minorias.»


Mais à frente, sobre a surpresa que lhe causou a queda do Muro de Berlim: «(...) Apollinaire escreveu uma novela em que o Papa anuncia que Deus não existe e a Igreja vai fechar. Foi isso que aconteceu em 1989, e parece-me que ainda não o compreendemos totalmente.»


A conversa com este romeno, sobrevivente da II Guerra e ex-operário, sabe a pouco. Podia, e devia, ter tido mais espaço no caderno Actual. Mesmo assim, a ler sem demora.

janeiro 04, 2004

Bem longe do paraíso

O jovem californiano Todd Haynes surpreeende, pela positiva, no seu aparentemente tranquilo filme Longe do Paraíso. Um amargo retrato localizado da América dos intragáveis anos cinquenta, carregada de cargas explosivas de racismo, conservadorismo ridículo e famílias bonitinhas da classe média de anúncio de televisão enfeitadas com laços cintilantes de hipocrisia.

Haynes embrulha a narrativa com as cores fortes e os planos previsíveis dos filmes de Hollywood daquela década, mas fica-se por aí. A dissecação dos podres das personagens é depois feita de uma forma quase crua, arrasando com os estereótipos da família ideal. Ideal, só na fachada. Dentro de portas, o marido, homem de negócios de sucesso, descobre-se homossexual; a esposa, mãe de filhos, dona de casa, luta para manter as aparência de que tudo vai bem, ao mesmo tempo que se desintegra emocionalmente para cair, desamparada, nos braços de um negro.

Por entre uma serenidade algo desarmante, tudo vai mal e acaba mal nesta história. Enfim, como quase sempre acontece na vida real. Um filme agridoce a registar.

janeiro 03, 2004

Aqui há gato

Até o cidadão mais distraído deste país, mesmo aquele que começa o dia com a Bola e o termina com o Record, se apercebe facilmente de que, no processo Casa Pia, há muita bota que não bate com a perdigota.


Entre as diversas histórias mal contadas, no entanto, uma começa a distinguir-se pela sua natureza selectiva (dir-se-ia cirúrgica no jargão militar): a da cor partidária dos nomes expostos na praça pública.


Neste particular, parece cumprir-se uma estranha lei das probabilidades: quando se é do PS, a probabilidade de o nome sair chapado num jornal e depois amplificado pelo resto da trupe mediática tem-se revelado substancialmente mais elevada do que quando se é membro dos restante partidos. Quando o partido é o do governo, parece que aquela probabilidade mirra de forma significativa.


Veja-se a velocidade com que os nomes de Jorge Sampaio e António Vitorino foram cuspidos pela comunicação social e tornados em escandaleira nacional logo a abrir 2004. Observe-se, por contraponto, o caso silencioso (silenciado?) de um ex-ministro do actual governo cujo nome, com fotografia, saiu, há já alguns meses, na primeira página do Correio da Manhã como tendo sido referido no processo Casa Pia. Nem uma linha nos outros jornais no dia seguinte. Nem um tugido nas rádios. Nem centelha de repercussão nas televisões, tão lestas se têm mostrado a disparar sobre outros nomes. Estranho, não é? O ministro, entretanto, demitiu-se.


Cabala política? Omerta (lei do silêncio) mediática? Pesos e medidas à medida de quem manda? Meras coincidências? Propensão partidária selectiva para certos desvios sexuais? Jogadas de alto risco com o segredo de justiça? Luta de galos de barra de tribunal? Intoxicação judicial? O cidadão comum, desarmado de escutas telefónicas ou detectives privados, não tem meios para chegar a certezas. Mas, tendo em conta aquilo que é possível ir seguindo a olho nu, há pelo menos uma conclusão simples e legítima que pode tirar: aqui há gato.

Proust e o prazer da leitura

Este nacozinho de prosa é uma delícia. Ora provem, que é colheita Proust:

«A amizade, a amizade que diz respeito aos indivíduos, é sem dúvida uma coisa frívola, e a leitura é uma amizade. Mas pelo menos é uma amizade sincera, e o facto de ela se dirigir a um morto, a uma pessoa ausente, confere-lhe algo de desinteressado, de quase tocante. É além disso uma amizade liberta de tudo quanto constitui a fealdade dos outros. Como não passamos todos, nós os vivos, de mortos que ainda não entraram em funções, todas essas...» E O Prazer da Leitura, o prazer desta leitura, empanca imediatamente aqui.

É inevitável voltar atrás e sublinhar a lápis: «Como não passamos todos, nós os vivos, de mortos que ainda não entraram em funções,...»


janeiro 02, 2004

Portugal 2004

2003 deu um passo em frente e resvalou em 2004 por ali abaixo: o nome do presidente da República de Portugal aparece envolvido no lamaçal do processo Casa Pia. Dia 1 de Janeiro. Sem tardar nada.
O mote está dado. O ano novo promete.

dezembro 29, 2003

O tenor de Cedofeita

O homem tem o porte típico de um tenor operático. Canta com a voz grave, colocada. Ouve-se bem que foi treinada, algures, numa daquelas exigentes escolas do leste europeu. A seu lado tem um pequeno gravador a pilhas, que vai debitando uma roufenha banda sonora de acompanhamento. Estamos na Rua de Cedofeita, no Porto, cheia de gente apressada, ao ritmo (ainda) das compras pós-natalícias.


Que desperdício! Aquela bela voz, ali, a cantar para toda a gente e para ninguém, à espera que a moeda da condescendência tilinte por entre o frio que se faz sentir. Quanta gente haverá por aí assim, vinda aos magotes do leste, cheia de talento, sem ter onde cair?


Dá que pensar, esta do tenor de Cedofeita. Hoje, qualquer pirilampo com jeito para grunhir imitações baratas da voz de Celine Dion ou de Eros Ramazzotti acaba na TV ao lado da Catarina Furtado a dizer baboseiras ranhosas, de preferência na presença babada dos papás. Dali a nada, por dá cá aquela palha, estão os pirilampos a sair com um CD. Há uns anos, não tantos quanto isso, chegar-se à edição de um disco era quase tão fácil quanto escalar o Evereste.


Ora, com poucas excepções, esta gente produzida a martelo instantâneo pela fábrica de vedetas que é a televisão, é gente com arame farpado no sítio das cordas vocais. Um crime, portanto.


O mundo às avessas, para não variar. Há um miúdo que costuma cantar, com uma guitarra acústica vergastada pelo uso, sentado na soleira de portas da Rua de Santa Catarina, no Porto. Canta o que está a dar (Nirvana, Pearl Jam e quejandos), mas canta convincentemente, tal como o tenor de Cedofeita.


Se vozes consagradas pelos tops, como Pedro Abrunhosa, Rui Reininho ou mesmo Rui Veloso, ouvissem o tenor de Cedofeita ou o punk tardio de Santa Catarina a darem corda aos pulmões, talvez pensassem duas vezes antes de voltar a abrir a boca para um microfone.


É um mundo injusto? É.

Mais papista que Bush

Mais uma balela para se lhe colar à imagem de pau-mandado de Washington e para conferir substância a um trocadilho feito a partir do seu nome: Bliar. Desta vez, Tony Blair excedeu-se. Na mensagem de Natal aos soldados britânicos no Iraque, o primeiro-ministro britânico garantiu que havia «provas maciças» da existência de laboratórios clandestinos para fabrico de armas secretas por todo o ex-país de Saddam.


Ora, Paul Bremer, o administrador norte-americano colocado no terreno para remendar os cacos deixados pela invasão ilegal do Iraque, confrontado com esta «informação», sem saber que a fonte era Blair, negou, categoricamente, a existência de tais laboratórios. A coisa, naturalmente, deu embaraço diplomático.


Junte-se esta atoarda blairiana a outras do mesmo autor e seus amigos da América em todo o processo da invasão do Iraque e começamos a ficar com o puzzle da trapaça cada vez mais composto. Esta gente mente com quantos dentes tem, manobra a seu bel-prazer informações «classificadas», manipula e distorce, dá-se à propaganda descarada. Salvo melhor opinião, política e governação não é isto. Melhor, não devia ser, em pleno século XXI.


O mais preocupante nesta saga internacional mal contada é que também Tony Blair continua convencido, qual visionário intemporal, espírito incompreendido pelos do seu tempo, que a história o vai absolver das patacoadas ditadas pelas suas mais firmes convicções.

dezembro 26, 2003

Flashback

A memória, por vezes, prega-nos destas espantosas partidas. Neste Natal, a lembrança da mensagem escrita num painel electrónico exposto no Centro Pompidou, em Paris, há quase duas décadas. Perguntava assim: «Que país escolheriam vocês se odiassem os pobres?»

dezembro 23, 2003

Garotada na defesa

O rapaz já não se lembra. Pudera, foi há vinte anos... O actual secretário da Defesa dos EUA era tu cá tu lá com aquele barbudo que há dias apareceu nas televisões de todo o mundo de boca aberta para um médico inspeccionar.


Donald Rumsfeld, cuja clarividência política não lhe chegaria sequer para sonhar um dia ser porteiro de uma «ilha» do Porto, encontrou-se com o seu então amigo Saddam, em Bagdade. Segundo se pode ler no The Independent, não só se encontrou com o ditador como deu a benção ao regime opressor mesmo depois de saber que Saddam utilizava armas químicas contra o seu próprio povo.

Mais: numa demonstração, infelizmente tornada rotina em Washington, de cinismo político atroz, Rumsfeld terá garantido ao seu amigo que a condenação por parte dos EUA pelo uso das armas químicas seria feita «estritamente» na base dos «princípios». Lê-se, e não dá para acreditar.


Colocando a pergunta retórica do modo mais suave possível: é mesmo esta corja de cretinos que tem hoje o mundo na mão?

dezembro 20, 2003

Laranja ácida

A qualidade de políticos presidenciáveis, ministeriáveis e secretariáveis tem vindo a deteriorar-se de tal modo nos últimos anos que até a notícia de que Cavaco Silva vai avançar para Belém é uma boa notícia. Sobretudo quando, no partido do antigo primeiro-ministro, Santana Lopes faz o que pode para se pôr em bicos de pés e no PS só falta o recurso ao anúncio de jornal: «candidato de esquerda a sério procura-se».

Ora, Santana Lopes está longe de reunir o perfil de um verdadeiro «homem de Estado», na boa e velha acepção do ideal: um homem fiável, íntegro, inteligente, moderado, firme, sábio, experiente, não populista e muito menos popularucho à custa da TV. Um «homem de Estado» é alguém conhecido mais pela sua coerência de carácter do que pela sua vida nocturna. Um «homem de Estado» não tem no currículo a presidência de clubes de futebol nem poses «light» na revista Caras. Certo? Ou o país está desesperado ao ponto de aceitar discutir o conceito de «homem de Estado» ao nível do pior que há na América Latina ou em África?

Santana Lopes presidente, Paulo Portas «primeiro-ministro», Telmo Correia no Parlamento, não é um país: é um pesadelo.


dezembro 18, 2003

Depressa e mal

Há aí um livrinho que tarda a chegar aos escaparates das livrarias da Invicta. Curiosamente, tem o título Cada vez mais rápido. Gabriela Oliveira escreveu sobre esta obra de James Gleick no último Expresso e deixou-nos com água na boca. Ou nos olhos, se preferirem.

Primeira pergunta: «Porquê e para onde corremos nós?» «Nunca como hoje a nossa civilização foi tão marcada pela velocidade, pelo ritmo, pela sincronização e pelo desejo imperioso de controlar o tempo», escreve Oliveira, antes de remeter para algumas ideias do escritor, que disserta sobre a aceleração do tempo, e respectivas consequências, nas sociedades modernas. «Vivemos a alta velocidade com rigor e porte atlético ou estamos atacados pelo mal da pressa?»

Este livro promete. Depois da sua leitura, falaremos. Para já, fica a esperança de que escritos como este nos ajudem a compreender as razões de, aparentemente, estarmos a gerar sociedades cada vez mais speedadas, stressadas, à beira de ataques de nervos e controladas à custa de televisão rasca e anti-depressivos.

dezembro 17, 2003

Abortos

Deixemos as grandes análises para os grandes analistas, o politicamente correcto para os políticos. É o Portugal mais tacanho, retrógrado, beato e estúpido, representado hoje sobremaneira por uma certa direita extrema de mocinhos ainda mal refeitos da fase das borbulhas, aquele que está a julgar as mulheres por aborto no Tribunal de Aveiro.