dezembro 16, 2003

Notas soltas

Excelente o documentário sobre Akira Kurosawa na RTP2. Nesse dia, domingo à tarde, havia passado, em canais diferentes, pela enésima vez, O professor Chanfrado e mais um Arma Mortífera. Enquanto se repetem, ad nauseum, as receitas garantidas de Hollywood, outro cinema, (o cinema?), é remetido à clandestinidade audiovisual. Cada vez mais.

Os filmes de Kurosawa têm uma gramática dificilmente enquadrável na esquizofrenia concorrencial das televisões generalistas, dadas, em preocupante crescendo, ao espectacular, ao grotesco, ao rasca, ao popularucho. Os canais portugueses chafurdam já, em certos horários, ao nível do esgoto. E prometem piorar. O canal 2 ainda lá vai acertando algumas, embora reste saber até quando.

Gravado em bom tempo, na 2, claro, foi tempo de rever, em vídeo, Cão de Palha, de 1949, a primeira longa metragem do grande mestre japonês. No escurinho do preto e branco.

O flamenco, de vez em quando, volta-nos aos ouvidos para ser redescoberto nas profundidades da história das raças que o atravessa. Pela voz deslumbrante de Estrella Morante, por exemplo. Pelo dedilhar tão rápido quanto suave de Vicente Amigo nas cordas da sua guitarra.

Um dia destes, uma boa surpresa. Flamenco com imagens depuradíissimas pelo olhar de Carlos Saura. Numa cassete perdida no meio de tantas outras com filmes gravados por lembrar, sai-nos Flamenco, um filme-homenagem à música da Andaluzia. E lá aparece, entre muitos músicos, bailarinos de gema e cenários de extremo bom gosto, o afamado Joaquín Cortés.

E depois há o texto. A sós com ele. O prazer da leitura, de Proust, recorda-nos que as melhores imagens saem de páginas brancas pintadas com letras.

dezembro 14, 2003

O bowling de Michael Moore

Este filme-documentário-denúncia é, a todos os títulos, imperdível. Bowling for Columbine está agora disponível, pela mão da Atalanta, num DVD que, para além do documentário de duas horas de duração, reúne uma série de intervenções e entrevistas do realizador que nos permite construir um quadro mais apurado dos valores e das motivações que movem Moore a dar cabo do «sistema» dos States, pátria de uma violência diária desmedida, em grande parte baseada na livre proliferação de armas de todos os calibres. O documentário começa com a ida do próprio Moore a um banco onde a abertura de uma conta dá direito a uma oferta muito especial: uma arma. Num banco!

Recordam-se? Foi Michael Moore que subiu ao palco dos Oscares para dizer, de prémio da Academia na mão, «Shame on you, Mr Bush, shame on you!», a propósito da invasão do Iraque pelas tropas da «coligação» liderada pelos EUA. A pose frontal, por vezes brutal e directa, é a imagem de marca deste jornalista-realizador, um pesadelo de peso dos conservadores (e que conservadores inenarráveis!) norte-americanos. O actor Charlton Heston, presidente da mais importante associação de armas dos Estados Unidos, que o diga.

A tentação de seguir as pisadas que Moore dá na cultura de violência - histórica, estrutural - do seu país é grande. Ele utiliza o argumento e a sedução em doses iguais. É absolutamente demolidor no retrato que faz dos instintos de ataque e de defesa dos seus concidadãos. O ponto de partida, o «clique» que o fez avançar para este mergulho no lado negro e difícil de explicar da América, foi o já tristemente célebre tiroteio no liceu de Columbine.

Vale a pena. Vale mesmo a pena ficar acordado até às cinco da manhã a ver Bowling for Columbine de uma ponta à outra da América.


dezembro 13, 2003

Banda sonora

O barulho gutural que os portuenses fazem ao cuspir abundantemente para o chão ouve-se do alto da Torre dos Clérigos.

dezembro 11, 2003

Pornografia geopolítica

E os falcões de capoeira de Washington lá continuam o seu showzinho de pornografia geopolítica internacional no Iraque. Matam que se fartam, incluindo crianças aos molhos de cada vez. Morrem como tordos, os soldados do Tio Sam e os outros atrelados, apesar de o júnior do Texas ter anunciado ao planeta que este era, há oito meses, um local mais seguro para viver. Tal como o pio Paulo Portas, o homem lá saberá o que a Virgem Santíssima lhe sopra aos ouvidos.


Agora, em mais um episódio grotesco de espírito de saque, o Pentágono, arrogante, ignorante e decididamente sem vergonha, espertalhão, pois claro, decide deixar de fora do bolo da «reconstrução» de um país ilegalmente invadido a França, a Alemanha e a Rússia. Aquela gente parece nunca ter recuperado dos tiques de infância dos filmes de John Wayne.


A cada dia que passa, os States enterram-se na estrumeira que eles próprios criaram do alto do seu poderio militar e da sua total cegueira civilizacional. A história não lhes ensinou nada. A nós, cidadãos comuns, tentam enganar-nos com a cassete do combate ao terrorismo, música a que, neste caso específico da invasão do Iraque, onde os pretextos foram falsos e as «provas» empoladas, só os tolos dão ouvidos.


E o planeta avisado assiste, entre a incredulidade, a raiva contida, o desespero de ver tanta gente néscia com tanto poder nas mãos, à brincadeira dos cowboys com a humanidade.

dezembro 09, 2003

Portugal caótico

Boa parte do chamado «interior» do país é uma catástrofe urbanística impossível com subversiva cobertura de Estado. Nas grandes cidades, já sabemos com o que contamos: caos, excesso, compressão, desequilíbrio, agressão, poluições diversas, descontrolo, remendos atamancados que as décadas vão tratando de cimentar no olhar.

Fora delas, o caótico é outro. Vale tudo. Mesmo tudo, que o sr. presidente da Câmara deixa. Casas «à la franciou» namoram com gaiolas de zinco mal atamancadas, bem à portuguesa. Azulejos «tutti frutti» baralham o olhar com cores berrantes em mosaico imaginativo e aleatório. Ziguezagues, altos e baixos, largas e estreitas, sem rei nem roque nem nada, as habitações dão biqueiros violentos na paisagem numa alegre bebedeira arquitectónica e urbanística. Fabriquetas e oficinas, juntinhas ali, a condizer com a piscina e o campo de ténis do patrão. Barracos e barracões, pedreiras e serrações florescem nos mais recônditos sítios. Explodem mamarrachos de cinco andares nos picos dos montes. Ou então, melhor ainda, eclodem montanhas de sucata de carros amontoados junto a postes de alta tensão.

Portugal deveria ser transformado num caso-estudo. Talvez com um título do género: «Desconstrução analítica do gosto peculiar do lusitano na arte de rebentar impunemente com o património natural». Impunemente, sim. Sítios há onde o tempo parece ter parado, um tempo onde as autoridades não chegam, os institutos do património não contam, a fiscalização não existe, os tribunais desconhecem, as câmaras destroem, os arquitectos recebem, o mau gosto, ou melhor, a total ausência de gosto triunfa para gáudio dos porcos lá da terrinha.

Sair de uma grande cidade para o resto da paisagem pode constituir, para um observador atento, uma experiência perfeitamente agoniante. É de crer que, se a maior parte dos portugueses tivesse uma apurada noção do real estado paisagístico do seu país, há muito tinha emigrado em massa para o sul de Espanha.

novembro 29, 2003

Zappa e Ferré

Em tempo de ouvidos duros, massificados de forma bruta à conta de programas televisivos estilo Ídolos, Chuva de Estrelas e quejandos, bem como pelas rádios, quase todas transformadas em «juke boxes» de sucessos de gente que devia ser presa por insulto às cordas vocais de quem sabe cantar a sério, é bom ver que ainda há quem se lembre de gente única, genial, polémica, difícil, pois claro.

Frank Zappa é hoje recordado no caderno Actual, do Expresso. O músico norte-americano morreu há dez anos. Deixou uma obra discográfica imensa e ecléctica. É diferente de quase tudo o que hoje se pode ver e ouvir nos meios audiovisuais.

Em meados deste ano, também fez dez anos sobre a morte de Léo Ferré, outro génio «difícil» da música. Por cá, infelizmente, ninguém se lembrou de o evocar em capa de revista.

novembro 26, 2003

Bebedeiras de bola

O Euro 2004 ainda não começou, mas as televisões, as rádios e os jornais começam já a proporcionar ao povo verdadeiras bebedeiras de futebol, com algumas pausas efémeras para o caso Casa Pia, é certo. Vai do simples matraquear de anúncios com música patriótica às sofisticadas transmissões em directo, horas infindáveis a fio, de espectáculos de inauguração de estádios, aos quais acorrem mágicos bem pagos e políticos babados à cata de migalhas.

Vai tudo atrás da onda. Sem parar. Há catadupas de transmissões (serviço público em horário nobre, portanto), apuramentos, eliminações, relatos, chicotadas, comentários, entrevistas, amuos, chuteiras contra o árbitro, grandes casos nacionais!

O tempo de antena dado a esta gente é pura e simplesmente obsceno. Para o ano, será de fugir.

novembro 25, 2003

Os encantos de Frida

Nem parece ter sido feito pela mesma realizadora do inenarrável Titus. Frida, de Julie Taymor, pode ser agora visto ou revisto em DVD. É um filme deslumbrante. Na composição, na fotografia, na história, na pintura, na música (com Lila Downs e Caetano, só podia ser), nos actores. Tem, definitivamente, um toque feminino.

Salma Hayek assina aqui uma soberba interpretação no papel da pintora mexicana, mulher excêntrica do pintor, mulherengo inveterado e comunista até ao tutano, Diego Rivera.

Nalgumas passagens desta obra, Taymor consegue fundir, numa osmose plástica feliz, o estático das pinturas de Frida com imagens cinematográficas de grande beleza. As cores do México em muito ajudam a compor o ramalhete.

A época vivida por este turbulento casal de artistas é também ela acrescento de fascínio: um Trotski fugido das garras de Estaline à procura conforto no regaço de Frida, uma Paris que tresanda a glamour decadente, uma Nova Iorque de Rockfellers sem sentido artístico «revolucionário». Frida é uma oportunidade para respirar bom cinema. Só é pena ser falado em inglês.

novembro 21, 2003

Mystic River: um rio simples

Clint Eastwood explicava, há pouco, num telejornal a forma como fez Mystic River, filme agora estreado por cá. Foi tudo ao natural, isto é, nos antípodas de blockbusters como The Matrix: sem imagens geradas por computador, sem truques de montagem, sem efeitos especiais de qualquer espécie. Apenas uma boa história e bons actores (Sean Penn e Tim Robbins à cabeça), interagindo, de facto, durante as filmagens.

É uma espécie de «back to basics», expressão a que o antigo primeiro-ministro inglês John Major deu má fama noutro contexto, a via escolhida por Eastwood para esta fita. Um regresso à verdade no cinema norte-americano?


novembro 20, 2003

Nietzsche: Eis o homem

O eterno retorno aos escritos de Nietzsche é sempre um imenso prazer. Ecce Homo é de verbo fortíssimo, na primeira pessoa. O filósofo convida-nos - ou antes, desafia-nos, em tom por vezes altivo e provocador - a acompanhar o seu poderoso e, para altura, meados do século XIX, radical labirinto de ideias. Logo no prefácio, não deixa dúvidas quanto à sua individualidade, vincada e de ruptura: «Escutai-me! Pois, sou assim e assado. Sobretudo, não me confundam com outro.» Em tom autobiográfico, o pensador não deixa pedra sobre pedra nas suas críticas, sobretudo quando ataca o «espírito alemão» e os alemães em geral e a moral cristã («O cristianismo, a religião transformada em negação da vontade de viver!»).

Mas nem só da complexidade de referências à «transmutação de todos os valores» respira Ecce Homo. Nietzsche discorre também sobre aspectos muito pessoais: a sua doença, as viagens a Itália, as paisagens, a importância de amigos como Wagner ou Lou Andreas-Salomé na sua vida, a música, a poesia. Este livro, onde o autor passa em revista os 'bastidores' da produção de obras suas, como O Crepúsculo dos Ídolos, Assim falou Zaratustra, A Gaia Ciência ou Para além do Bem e do Mal, entre outras, talvez seja o melhor ponto de partida para se entrar no seu mundo peculiar. Sempre tendo em conta que os seus escritos nem sempre são de fácil digestão.

Independentemente de se concordar ou não com ele, há no mínimo que reconhecer-lhe a enorme coragem, a frontalidade total, no afrontar de dogmas enraizados de modo muito profundo na sociedade de então. Só mesmo quem de si próprio diz «Não sou um homem, sou dinamite!» pode aguentar as altas pressões de uma solidão de génio.