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setembro 25, 2006

Chostakovitch não é 'fashion'

Se os nossos canais de televisão não estivessem tão embrutecidos como, de facto, estão, seria de esperar que hoje, dia em que se assinala um século sobre o nascimento do compositor russo Dmitri Chostakovitch, considerado um dos maiores compositores do século XX, exibissem algum programa, filme ou concerto a propósito.

A RTP, por exemplo, lá nas catacumbas dos arquivos, ainda deve ter a cópia de um filme, realizado por Tony Palmer, sobre a vida de Chostakovitch. No papel principal, temos um muito convincente Ben Kingsley.

O canal estatal passou esta obra, cujo título original é Testimony, há muitos anos. Ficaram-me da obra boas recordações e uma grande vontade de descobrir a música de Chostakovitch. Não seria a noite de hoje excelente altura para uma reposição?

Qual quê... Temos, depois da meia-noite, E-Ring Centro de Comando, na RTP1, e a história de um elefante, na 2:. Nas privadas, nem, vale a pena falar. As noites estão entregues à bicharada.

Ontem, no Público, um bom trabalho sobre a efeméride. Hoje de tarde, na Antena 2, o destaque devido, e conhecedor, a Dmitri Chostakovitch.


setembro 03, 2006

De olhares: um rapaz de Plutão

Dizia-nos o empregado da Blockbuster que este era o melhor filme do mês. Só que ninguém o alugava... E, de facto, as cópias lá estavam todas quietas na prateleira.

Breakfast on Pluto é uma história excêntrica, o que por si só é já um bom começo. A personagem principal mais excêntrica e "fora" é. Um rapaz que nasceu, fruto do "pecado" entre um padre e a sua empregada, para ser "ela" e não "ele", o que nos remete para aquela música do Antony em que ele canta o dilema: «today I am a boy, today I am a girl». A interpretação de Cillian Murphy no papel principal é muito bem conseguida.

Abandonado à nascença pela mãe, Patrick cresceu e passou a vida aos tombos na Irlanda conservadora e dividida dos anos 70, impreparada para tanto devaneio de identidade. Pano de fundo pesado: o IRA e as suas vítimas.

Neil Jordan, o realizador, cozinha tudo isto, em termos narrativos, de modo relativamente convencional. Mas é convincente ao recuperar o ambiente "glam" da década de 70. O filme está, aliás, recheado de músicas da altura, como Sugar Baby Love, dos The Rubettes logo a abrir, em registo vivamente revivalista.

Dito isto, gostei muito mais do trabalho que Jordan fez, por exemplo, em Entrevista com o Vampiro. De qualquer modo, passa-se um bom bocado com este 'pequeno-almoço em Plutão'.


Filmes similares recomendados pelo Travessias:
Jogo de Lágrimas, de Neil Jordan
Velvet Goldmine, de Todd Haynes
Priscilla, Rainha do Deserto, de Stephan Elliott
Tudo Sobre a Minha Mãe, de Pedro Almodóvar
20 Centímetros, de Ramón Salazar
Madame Satã, de Karin Aïnouz

agosto 23, 2006

Café e Cigarros

Fumar em espaços fechados onde estão pessoas que não fumam é irresponsabilidade e grosseira falta de educação. Ponto. Qualquer fumador com dois dedos de testa concorda com restrições ao fumo em hospitais, empresas, restaurantes, comboios, aviões, recintos desportivos, etc.. Agora, alto lá com a paranóia que por aí anda à solta quanto à representação do tabaco na arte.

Proibir actores de fumar em palco (como representar Churchill sem o charuto?), apagar cenas de filmes em que a actriz fuma, trocar, em desenhos animados clássicos, uma caixa de cigarros por um colar ou riscar o cigarro do Tom atrás do Jerry é, em rigor, censura a um acto criativo e uma violação de um dos direitos do autor, que é o de ver respeitada a integralidade da sua obra. Ora, isso é, a todos os títulos, inadmissível.

Pelo andar da carruagem, daqui a uns tempos proíbem a exibição de Café e Cigarros, de Jim Jarmusch. O filme é todo ele feito à volta de café, cigarros e figuras conhecidas da música e do cinema (Roberto Benigni, Bill Murray, Tom Waits, Iggy Pop) em situações algo bizarras e divertidas.

Filmado a preto e branco, é uma proposta (como se diz na moda) muito interessante. Passa-se um bom bocado de cinema que, sem o fumo e a cafeína, não poderia pura e simplesmente existir.

Há, certamente, maneiras mais razoáveis de lidar com a infantilidade imitativa do homo sapiens.

julho 28, 2006

Greenaway por ele mesmo

Acaba de ser colocado no mercado, pela Costa do Castelo Filmes, o DVD O ventre de um arquitecto, do realizador britânico Peter Greenaway. O filme é para rever com prazer garantido, mas o DVD traz um brinde cinéfilo fantástico.

Trata-se do documentário O alfabeto e o olho. É uma verdadeira aula de cinema dada pelo próprio Greenaway. O realizador explica a sua concepção de cinema e diz coisas que, para muitos cinéfilos, serão incómodas.

Por exemplo: um operador de câmara devia estudar pintura pelo menos durante três anos antes de alguém lhe passar uma câmara de filmar paras as mãos; os mais de cem anos que a história do cinema leva são constituídos maioritariamente por "textos ilustrados", isto é, filmes em que as imagens se limitam a apoiar a narrativa escrita; o cinema é uma arte boa de mais para ser deixada nas mãos de meros contadores de histórias.

O alfabeto e o olho inspira-se nos "mapas" (elementos, números, letras) que Greenaway usa nos seus filmes, nos quais a inspiração da pintura tem lugar de relevo. E ajuda-nos a ver as imagens em movimento com outro olhar.

julho 25, 2006

De olhares: 366 minutos de Itália

Seis horas de filme. Quatro décadas de Itália, mostradas a partir da história de uma família italiana, dos anos 60 até à actualidade. Obra de grande fôlego, filmada por Marco Tullio Giordana de forma sóbria, sensível e envolvente. A espessura das personagens, contrastada com momentos marcantes na vida colectiva de Itália, permite aguentar, sem quebras, a narrativa de... 366 minutos. A Melhor Juventude é para quem gosta de história com boas estórias dentro.

junho 27, 2006

De olhares: Aldo Moro, por outro lado

Em Bom Dia, Noite, Marco Bellocchio mergulha, em jeito de teatro filmado, na intimidade de um dos episódios mais tristes da Itália dos anos 70: o rapto e assassínio do ex-primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas.

Bellocchio dá-nos a ver um Moro em cativeiro profundamente humanista e cristão, ao mesmo tempo que pinta com tintas fortes, quase caricaturais, o argumentário básico das utopias revolucionárias dos brigadistas, para quem os mais "altos interesses" do proletariado justificavam qualquer morte ou assassínio.

Chiara - afinal, a personagem principal - é a única que ao longo do filme desliza das cegas certezas revolucionárias, que extrai de leituras de Marx e Engels, para o degelo da dúvida e da sensibilidade. Vemo-la chorar quando ouve Moro ler uma carta em voz alta. Diz que é de raiva, mas nós, deste lado do ecrã, sabemos que está a mentir.

Num sonho final, Chiara liberta Moro, enquanto os restantes membros das Brigadas dormem. Vemos Moro a passear na rua, com um ar de quem vai partir de novo para a vida. Mas, como se sabe, o fim foi de pesadelo.

O filme, escrito pelo próprio realizador, ganhou o prémio de melhor contribuição artística individual pelo argumento no Festival de Veneza, em 2003. O melhor da música dos Pink Floyd lá aparece como banda sonora.

maio 22, 2006

De olhares: Mitterrand e o jornalista

É um passeio pela história pessoal e política de François Mitterrand, mas é também a história de um jovem jornalista confrontado com a tarefa esmagadora de escrever as memórias daquele que foi uma das maiores figuras da história da França do século XX.

Donde, Uma Viagem pela história, realizado por Robert Guédiguian, pode ser visto através de dois ângulos, ambos estimulantes: o político e o jornalístico.

De Mitterrand, o essencial é mostrado ou sugerido ao longo do filme: o passado político rico e nebuloso, a filha "clandestina", a personalidade forte e culta, a luta política feroz, incluindo com a sua própria família política, etc..

Já o jovem jornalista, empregado numa revista, é uma personagem hesitante, assustada e indecisa perante a figura do presidente da República. A tarefa de o biografar absorve-o de tal modo que acaba por se divorciar. Oscila entre o deslumbramento pela figura de Mitterrand e o imperativo profissional de o confrontar com a "verdade", sobretudo em relação ao passado de alegadas ligações ao regime de Vichy.

O filme, ao contrário do que se poderia supor, não é esmagado pela figura de Mitterrand (interpretado, de forma brilhante, por Michel Bouquet). O realizador opta por dar espaço também à personagem do jornalista. E às suas contradições.

maio 12, 2006

Watergates

Agora que o "Watergate francês", como lhe chama a imprensa, está ao rubro, mostrando a parte mais sórdida e sinistra da política contemporânea, é uma boa altura para revisitar Os Homens do Presidente.

Este filme, realizado por Alan J. Pakula, é um clássico absoluto na relação entre o jornalismo e o cinema e acaba, finalmente, de ser lançado em DVD no mercado português pela mão da Warner.

Um mergulho minucioso no jornalismo de investigação (o mais nobre, o mais desprezado...) e na podridão total do sistema na era Nixon.

E a história repete-se.

abril 25, 2006

De olhares: imagens bordadas

Bordadeiras é filmado com a delicadeza, o pormenor, a paciência, que a bordadeira põe na feitura dos seus panos. É uma fina narrativa cinematográfica, vincadamente feminina.

Éléonore Faucher tece em imagens as vidas de duas mulheres. Uma, mais velha, acaba de sofrer a perda de um filho. A outra, muito jovem, também bordadeira, engravida de pai ausente. Espera uma filha. Mas sofre os constrangimentos da pressão social numa pequena povoação francesa. Ambas as mulheres acabam por se encontrar nas suas perdas.

Uma história simples e bem contada.

abril 20, 2006

De olhares: sob o céu da Suécia

Há pelo menos duas coisas tocantes que Como se fosse o céu, filme do sueco Kay Pollak, nos mostra: a força da música na comunhão dos seres e a possibilidade da comunicação onde ela não existe.

Tem um belíssimo final infeliz.

março 28, 2006

Volta depressa, Nanni!

Nanni Moretti é, por assim dizer, muito cá de casa. Há muitos anos. O seu Querido Diário rompeu vezes sem conta o nosso pequeno ecrã. E há-de continuar a brilhar. Portanto, um novo filme deste singular realizador italiano é sempre um grande acontecimento.

O senador Michele Bonatesta, da Aliança Nacional (partido de Gianfranco Fini, o segundo maior do governo de coligação liderado pela Força Itália), diz que Il Caimano (O Caimão), último trabalho de Moretti, é «a quintessência do tédio e do ódio a Berlusconi», procurando apenas transformar-se no «emblema da criminalização e demonização do primeiro-ministro». (DN)

Ora, quando um apaniguado dessa espécie de Jardim multimilionário obsceno que é Berlusconi diz isto de um filme, esse filme torna-se obrigatório.

Ritorna subito, Nanni!

março 02, 2006

Jornalismo e cinema: Clooney e Boorman

Este é dos tais filmes que dá para recomendar, sobretudo a jornalistas, estudantes de comunicação e docentes nesta área, de olhos fechados, isto é, sem ainda se ter visto: Boa Noite, e Boa Sorte, sob a batuta de George Clooney, teve uma estreia auspiciosa em Veneza. Estreia hoje nas salas portuguesas.

Eis a sinopse, retirada do Cinecartaz do Público.pt: «A acção de "Boa Noite, e Boa Sorte" decorre nos primórdios do jornalismo televisivo, na América dos anos 50. O filme retrata o conflito verídico entre Edward R. Murrow, um "pivot" pioneiro na América dos anos 50, e o Senador Joseph McCarthy e a Comissão do Senado das Actividades Anti-Americanas. Graças à sua vontade de esclarecer o público, o inovador Murrow e a sua dedicada equipa da CBS desafiam pressões da empresa e dos patrocinadores ao analisar as mentiras e as tácticas rasteiras de McCarthy durante a sua "caça às bruxas" aos comunistas.»

Já agora, para quem se interessa pela temática dos media e do jornalismo, recomendo ainda dois filmes que chegaram recentemente ao mercado de DVD de aluguer: Crónicas, uma produção México/Equador, realizada por Sebastián Cordero, e o horripilantemente titulado Um Amor em África, cujo título no original é bem mais decente, In My Country, realizado por John Boorman.

O que poderá ver no interessante Crónicas: «O programa de televisão “Uma hora com a Verdade” é transmitido todas as noites de Miami para toda a América Latina, com as histórias sensacionalistas mais fortes que se podem encontrar. Para um desses programas, o apresentador Manolo Bonilla (John Leguizamo) voa para o Equador, na companhia da produtora Marisa (Leonor Watling) e o operador de imagem Ivan (José Maria Yazpik), seguindo a pista de um violador e assassino de crianças, conhecido como “O Monstro de Babahoyo”. A morte acidental de uma criança leva os habitantes de uma pequena povoação a quase linchar Vinicio Cepeda (Damián Alcázar), um humilde vendedor de Bíblias. A intervenção de Manolo salva a vida do homem. É uma grande história para o programa. Vinicio é mesmo encarcerado, por homicídio involuntário, e oferece a Manolo informações sobre o “Monstro”, a troco de uma reportagem sobre a sua injusta situação. Manolo aceita, atraído pelo lado obscuro que pressente em Vinicio, e começa a quebrar todas as regras, decidido a ser ele o herói que detém o assassino com as suas próprias mãos.» (PT Gate)

E em Um Amor em África, um filme mediano, onde Juliette Binoche enche, uma vez mais, todo o ecrã: «Langston Whitfield (Samuel L. Jackson) é um jornalista do Washington Post, enviado à Africa do Sul para cobrir as sessões da Comissão da Verdade e Reconciliação. Ele está apreensivo em relação à viagem, tal como está céptico relativamente ao processo de reconciliação, sentindo que é apenas uma forma de os perpetradores escaparem ao castigo. Anna Malan (Juliette Binoche) é uma poetisa africana que cobre as sessões para a rádio estatal sul africana e NPR nos Estados Unidos. Anna é uma entusiasta do processo, tem um grande respeito pelas tradições africanas nativas e tem grandes esperanças relativamente ao seu país. Como membros da imprenssa internacional, Anna e Langston encontram-se e estão instantaneamente em desacordo relativamente às suas perspectivas opostas das sessões. Mas, com o tempo, a experiência compartilhada de ouvir os testemunhos comoventes e dolorosos aproxima-os cada vez mais.» (PTGate)

janeiro 30, 2006

De olhares

A próxima vez que me perguntarem qual é a minha religião (coisa que, aliás, hoje ninguém pergunta, receando talvez a resposta), respondo com aquela frase do personagem do filme Exílios, de Tony Gatlif: «A minha religião é a música».

Por causa desta religião, nunca houve nenhuma guerra.

janeiro 13, 2006

De olhares: Ivan, o Terrível


Esta não é apenas uma imagem de marca de Eisenstein. É uma marca que fica.

dezembro 15, 2005

Cinema e jornalismo à grande e à francesa

Para quem gosta muito de jornalismo e outro tanto de cinema, esta é uma publicação a colocar desde já no topo das prioridades de Natal: Print the Legend - Cinéma et Journalisme, editada pelos Cahiers du Cinéma.

Trata-se de uma obra colectiva, com diversos textos sobre muitos dos maiores filmes em que o jornalismo é o tema central. Estão lá os grandes clássicos, da envergadura de um Citizen Kane ou de um Blow Up, mas também filmes mais recentes, como O Informador, Shattered Glass - Verdade ou Mentira ou Live from Bagdad (ainda não disponível em Portugal).

Nas páginas finais, encontramos uma lista com mais de 300 obras, abrangendo os séculos XIX, XX e XXI! Imperdível.

setembro 19, 2005

De olhares: do mestre Yimou

O Segredo dos Punhais Voadores, de Zhang Yimou, é daqueles filmes que apetece rever logo na noite a seguir. Belíssimo. Apesar do título enganador...

julho 31, 2005

De olhares: banho de imersão

A propósito de Última Vida no Universo, do realizador tailandês Pen-Ek Ratanaruang, Francisco Ferreira escrevia, na revista do Expresso do passado dia 23, que se trata de um filme «que não se afasta da melancolia de estilo onde continua a cair muito do actual cinema oriental.»

Espero que não tenha sido intenção do crítico atribuir à expressão «continua a cair» tom pejorativo. Pois ainda bem que temos cinema melancólico, venha ele de onde vier. Para tiros, explosões, sustos, monstros, perseguições e defeitos especiais, já basta Hollywood. Basta!

Última Vida no Universo passou pelo festival de Veneza, em 2003, mas não pelas salas de cinema em Portugal. Foi directo para DVD. Francisco Ferreira chama-lhe, e bem, «um longo banho de imersão.»

É um banho que, com a disposição de espírito certa, vale a pena saborear. Viva a melancolia!


Outros belos melancólicos orientais recentes:

2046, de Wong Kar-Wai
Disponível para Amar, de Wong Kar-Wai
Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera, de Kim-Ki Duk
Dolls, de Takeshi Kitano

junho 26, 2005

De olhares: Barton Fink

Barton Fink é, enigmaticamente, um grande filme. Talvez o melhor dos irmãos Coen. Bem escrito (por eles mesmos), apresenta um grupo de actores de grande calibre, a começar pelo inimitável peso pesado John Goodman e a acabar em John Turturro, numa composição primorosa, a lembrar um pouco o estilo de algumas personagens esquizofrénicas de Cronenberg.

O canal Hollywood exibiu-o, em boa hora, há poucos dias. Em Barton Fink, datado de 1991, ano em que ganhou a Palma de Ouro, todas as personagens são um pouco grotescas, exageradas, distorcidas, movendo-se no limiar da normalidade, limiar esse gerido sempre com grande mestria.

Aqui e ali, os Coen entregam-nas à surrealidade, à «vida na mente», como na cena em que Goodman, gritando precisamente «eu mostro-vos a vida da mente!», corre pelo corredor de um hotel sinistro fora deixando atrás de si paredes em fogo e disparando a caçadeira contra dois detectives.

O facto de o filme ser de difícil catalogação só o torna mais interessante. O enredo deixa muitas pontas por resolver. Não dá, como nos filmes banais, todas as respostas, de forma óbvia e sem ambiguidades. Aquela caixa amarrada com cordel tinha mesmo a cabeça da secretária/amante de um escritor alcoólico que trabalhava em Hollywood?

Foi um prazer imenso rever Barton Fink, obra em que, como escreve Hal Herickson, no All Movie Guide, nada é o que parece e nada resulta como o planeado. Dele guardava algumas imagens marcantes, como a do corredor em chamas e uma outra, em que um poderoso produtor de filmes de Hollywood (mais tarde promovido a general), espumando de ira, à beira da loucura, exigia a um funcionário seu que beijasse os pés do incomodado escritor da Broadway... Fink.

junho 11, 2005

Khaled na Casa


É daqueles músicos que constumamos ver e ouvir com agrado no canal Mezzo. Mas, felizmente, desta vez, o Porto teve oportunidade de ver e ouvir Khaled ao vivo, na mais fabulosa Casa da Música do país.

Khaled trouxe consigo a mistura fina que costuma fazer nos seus álbuns, mestiçando rai (do seu país de origem, a Argélia), soul, reggae, rock, jazz, flamenco e tudo o mais a que possa deitar mão para, no fundo, através da sua música, fazer convergir no árabe o mundo diverso e baralhado dos dias de hoje.



O homem tem uma voz incrível. Canta em árabe, fala que é, por si só, música. Ouvimo-lo cantar como se fosse mais um instrumento, com o qual Khaled consegue inflexões vocais estonteantes.

Sempre com o rai de fundo, a batida forte levou a que metade da sala se pusesse de pé a dançar, durante quase todo o espectáculo, para desespero dos vigilantes da Casa.

Suspeito que alguma daquela boa gente que ali dançava chegou a Khaled pela mão de Nanni Moretti, o realizador italiano que nos fez descobrir também a exótica Angelique Kidjo ou o enorme Jarrett. Como esquecer aquela sequência de Querido Diário em que Moretti, ele mesmo, serpenteia as ruas da sua amada Roma, montado numa Vespa, ao som bamboleante de "Didi"?

janeiro 14, 2005

As salas dos milhões

Ora, façamos assim uma contabilidade rápida e rudimentar: as cidades do Porto, Gondomar, Maia, Matosinhos e Vila Nova de Gaia têm, juntas, 64 salas principais de cinema. Em 58 delas, estão a ser exibidos filmes norte-americanos. Basta consultar, por exemplo, o cartaz de cinema de hoje do jornal Público. Em Gondomar e Maia, a ocupação de cinema «made in USA» é de 100 por cento!

Agora, no mesmo jornal, uma espreitadela à programação cinematográfica das televisões nacionais. Dos nove filmes previstos para hoje na RTP1, SIC, TVI, Canal Hollywood e Lusomundo Premium, oito são norte-americanos. Salva-se O Nome da Rosa, uma co-produção entre a Alemanha, a França e a Itália...

Ora, se este panorama absolutista, esmagador de um ponto de vista estético, narrativo, cultural, linguístico e até mental, é bom para as cabecinhas que enchem as salas dos shoppings do Grande Porto e se enterram nos sofás televisivos do país, vou ali e venho já.

Ignacio Ramonet escreveu, há alguns anos, um livrinho, por alguns considerado exagerado e algo «conspirativo», em que denunciava precisamente este lamentável estado de coisas, no cinema, na televisão, na publicidade.

Em Propagandas Silenciosas, o director de Le Monde Diplomatique escreve que «a americanização dos nossos espíritos está de tal maneira avançada que denunciá-la, para alguns, parece cada vez mais inaceitável (...) A americanização penetra-nos pelos olhos. Com a temível eficácia de uma propaganda silenciosa.» E ainda: «Muitos cidadãos europeus são uma espécie de “transculturais”, mistos irreconciliáveis, possuindo um espírito americano numa pele de europeu. (...) O cinema, como se sabe, não contribuiu pouco para este estado de coisas.» O livro merece, inteiramente, uma releitura urgente.

Está na altura de gritar bem alto aos ouvidos dos distribuidores e programadores de cinema aquele slogan célebre dos Monty Python: e agora para algo completamente diferente!

Mas há sempre aquele probleminha do dinheiro, não é?...